Seguidores

sábado, 30 de abril de 2016

A dor de querer o que não existe

A dor de querer o que não existe - O relato da viúva do assessor de Eduardo Campos

"Era a notícia que eu mais queria desmentir", disse Cecilia Ramos sobre o dia do acidente que vitimou marido e governador

Do blog Say I Do

Fiquei pensando se postaria esse lindo texto ou não por aqui. Decidi postá-lo, pois, desde o inicio de todo esse acontecimento, comecei a seguir a Cecilia Ramos no instagram. Fiquei realmente encantada com ela e com toda a força e sinceridade que ela demonstrava e ainda demonstra. Pensei que assim que possível, eu pediria para ela escrever um texto para o blog contando a história dela. A Glamour a convidou para contar na edição de junho da revista, mas, como não coube todo o texto que ela escreveu, a Cecilia compartilhou ele inteiro no facebook dela. E como eu achei a coisa mais linda, sensível e uma lição a ser divulgada quis compartilhar aqui com vocês.
“Não é o avião do candidato a presidente da República Eduardo Campos”, respondia eu, constantemente, a cada dezena de ligação que recebíamos no comitê do PSB na Vila Mariana, naquela manhã de quarta-feira chuvosa, 13 de agosto de 2014, em São Paulo. O flat que meu marido, Carlos Percol, havia alugado para mim ficava a duas quadras do meu trabalho. Cheguei comendo uma maça no comitê e me deparo com o acidente na televisão. Um helicóptero havia caído em Santos.
Ufa! Um helicóptero… Eles só andavam de jatinho, afinal. Um Cessna Citation. Viajei quatro vezes nesse bicho. Percol brincava e segurava minha mão, quando a aeronave balançava demais. Dizia: “Relaxe. Este é o meio de transporte mais seguro do mundo”. A cobertura avançava na TV e meu olho bateu na legenda estampada na tela. Trocaram a palavra helicóptero por jatinho. Pronto. Acendeu a luz vermelha. “Meu Deus, responde! O seu celular do Recife está chamando”, eu escrevia para o Tchinho, como eu chamava Carlos Augusto Ramos Leal Filho, apelidado desde os tempos do colégio no Recife como Percol, por conta de uma marca de calça. Mas era o “Guto”, para a mãe, Dona Alzira, para as irmãs, Ana Braga, Carla e Sandra Leal, e para os familiares e amigos de infância.
“Se você estiver recebendo essas mensagens, por favor me ligue. Caiu um jatinho em Santos!”, insistia eu, em whatsapps desesperados que nunca foram lidos. E que eu reli pela primeira vez oito meses após o acidente para escrever, também pela primeira vez, minhas memórias sobre aquele 13.
Colegas jornalistas do Brasil inteiro ligavam para o comitê, para o meu celular, acionavam as minhas redes sociais. Muitos não me conheciam mas já conheciam ele, que há 8 anos trabalhava com Eduardo. Àquela altura, queriam confirmações. Amigos, padrinhos de casamento, nossos familiares também tentavam contato… Mas eu não dava conta da demanda. E só pedia: “Rezem. Rezem para que não seja ele… Ele não me responde”. Mas lá vinha a verdade em caixa alta na minha cara. “Caiu um jatinho, partindo de Santos Dumont, no Rio de Janeiro”, retrucava um jornalista ao telefone. Ou “Só falta uma letra para confirmar que era o Cessna do Campos”. Como jornalista, eu só pedia aos colegas que fossem responsáveis e aguardassem confirmação.
Meu marido nunca deixou um whatsapp sem resposta. E era eficiente no feedback. Desligamos o celular pela última vez às 9h21, horário da decolagem. O jatinho caiu às 10h03. Calculem o que acontece na vida de vocês num intervalo de 43 minutos.
Por mais que a verdade estivesse estampada ali na TV, estavam naquele avião Eduardo Campos e Carlos Percol. Dois dos homens que eu mais considerava imbatíveis. Nesse caso, especificamente, pela saúde, pelo vigor. Porque eram sinônimo de vida. Esses caras não adoeciam. “Eu sou corpo fechado, Tchinha!”. Só me lembrava dessa frase do meu marido, que, em quase cinco anos de relacionamento, eu nunca vi pegar sequer uma gripe. Então esperei que estivessem entre as vítimas socorridas e levadas para a Santa Casa de Misericórdia.
Sou otimista incurável, graças a Deus. Mas não brigo com os fatos. Rodrigo Molina, sobrinho e afilhado de Renata e Eduardo Campos, atendeu o celular no auge do noticiário devastador. No corredor do comitê, eu gritei e fui ao banheiro chorar. Molina + Percol = Eduardo. Essa era a conta. Os três viajavam sempre juntos. Mas não naquele 13. Exclusivamente naquele dia Eduardo pediu para o sobrinho acompanhar a tia, Renata, e o bebê Miguel, na viagem de volta ao Recife.
Eu estava sem som e imagem com aquilo tudo. Entrei no carro com Renato Thiebaut (da equipe de Eduardo desde quando fora ministro de Lula) para irmos a Santos. No rádio, a notícia de que o governador de São Paulo Geraldo Alckmin estava a caminho de Santos, pois não havia mais jeito, foi um soco no meu estômago. Aí eu gritei “Nãaaaaaao!” E não sei como não quebrei o punho ao socar o vidro do carro. Voltamos para o comitê. E lá, entrando sozinha, em uma das salas entulhadas de gente incrédula, muda, com lágrimas que não paravam de cair…. Eu li e ouvi a única notícia que faltava para cair a ficha: “Os sete passageiros do Cessna Citation morreram”. Fui ao chão e desabei. Choro mudo. “Você era amiga de alguém do avião!?, me perguntou um colega do trabalho, tentando me levantar. Só consegui pronunciar: “Esposa”. Eu só estava trabalhando há 10 dias na campanha. Muitos não me conheciam – menos ainda como “esposa do Percol”.
Àquela altura todos os meus amigos de São Paulo já estavam reunidos no nosso flat. Me abraçavam e choravam, dizendo: “Me diga que não é verdade!”. Era a notícia que eu mais queria desmentir na minha vida, meus amigos! Eu mandei uma única mensagem naquele momento, às 13h39: ao bispo que nos casou. “Dom Ximenes, meu marido estava no avião com Eduardo. Hoje eu estou acabada, mas minha fé não se abala”.
E não se abalou. Naquele dia, voltei para o Recife com uma amiga, madrinha do nosso casamento. Dopada. Mas consciente o tempo inteiro. Madrugada do “day after”, Aeroporto do Recife, eu mal ficava de pé por muito tempo: mais de 40 amigos e familiares me aguardavam. Vi logo Seu Eliezer e Dona Ritinha, meus pais. Incrédulos.
Amor de muito. É o que eu recebo de lá pra cá. Uma corrente de amor e solidariedade de gente amiga, de gente anônima. Nesse período, as coisas vão se encaixando. Mas tem que ter aquela dose extra de força de vontade. O clichê que Deus dá o frio conforme o cobertor eu ouvia muito da minha mãe. E vivencio todo dia. As coisas são como têm que ser. Ok, encare, Cecília. E não adianta buscar explicações, senão você congela no tempo. Paralisa.
Eu não imaginaria, nem no meu pior pesadelo, casar e – quatro meses depois – estar na Base Aérea no Recife esperando o caixão do meu marido chegar em um dos três aviões da Força Aérea Brasileira (FAB) que transportaram as sete vítimas. Era tanta escolta que nem nós, familiares, podíamos chegar muito perto, naquela noite de um frio estranho, de um chuvisco melancólico. Portas abertas, estavam lá quatro caixões. Vazios, é verdade. Percol “veio” junto com Eduardo Campos, o fotógrafo e meu amigo pessoal, Alexandre Severo, e do cinegrafista Marcelo Lyra. A junção das palavras “restos mortais” nunca me soou tão estranha. Mas era só o que tínhamos. Não me aguentei e corri para aeronaveTentaram impedir, como a outros familiares. Questões de segurança. “Ninguém toca nela! Ela é a esposa!”, gritava repetidamente Rodrigo Molina, entrando comigo no avião. Me debrucei sobre aquela caixa vazia de madeira. Sozinha. Os filhos de Eduardo Campos seguravam o caixão do pai até o carro do Corpo de Bombeiros. O de Percol seguiu depois e eu lembro de cada passo meu tocando aquilo. Vi fotos deste nosso momento tão insuportável nos jornais e em blogs. Aliás, amigos “cliparam” quase tudo. É a minha história, afinal. E será para sempre.
Eu também não imaginaria receber a aliança de Percol – intacta, meu Deus!– num envelope enviado por Alckmin, por intermédio do então governador de Pernambuco, João Lyra – que, aliás, foi meu padrinho de casamento, assim como Eduardo Campos. Eu não imaginaria estar num carro do Corpo de Bombeiros, com Renata Campos, o filho, José, e Rodrigo Molina, em comitiva até a sede do Governo de Pernambuco, o Palácio do Campo das Princesas, onde simbolicamente foram velados Percol, Eduardo e meu amigo Severo. Dalí seguiu-se uma maratona.
Uma câmera numa grua filmava tudo da janela do carro do Bombeiro no trajeto até o velório. Aliás, filmavam e fotografavam tudo em todo canto. E de jornalista que perguntava eu virei a entrevistada que respondia. Lembro José Campos impressionado com aquela multidão nas ruas para se despedir do pai dele. E Renata repetia: “Olhe, meu filho! Quanto amor!”. E da janela a gente via uma multidão gritando, chorando, agradecendo, mandando beijos em direção ao carro em que estávamos. Apontava para a camisa da escola pública, para a cadeira de rodas, levantavam cartazes de programas do Governo Eduardo. E minha emoção se misturava. A da jornalista que escrevia sobre esse governo, que depois virara amiga da família Campos, com a dor da esposa recém casada.
Tenho lembranças “partidas” do velório. Foi tudo “de muito”. Populares, autoridades, policiais, familiares e amigos que não paravam de chegar. Eram tantas coroas de flores… E nelas eu lia PERCOL em caixa alta. “Não aceito”, eu mentalizava. Hoje minha frase é: “Eles não existem mais. Como é que pode?”. Mas nada mudou: eu não aceito. Nunca aceitarei. Mas você coloca isso numa caixa secreta dentro do peito e vai viver.
No velório no Palácio, nós nos misturávamos aos parentes de Eduardo e de Severo e à multidão que queria dar adeus a um dos governadores mais populares que Pernambuco já teve. As demais vítimas do acidente foram veladas em outros locais, a pedido de suas famílias. Ali eu já não conseguia mais chorar. Acho que eu já estava perto de completar 30 horas “no ar’, sem dormir. Já amanhecendo e me levaram para tirar um cochilo numa cadeira do segundo andar do Palácio. É o mesmo lugarzinho onde hoje me sento com outros colegas de trabalho para acompanhar o nosso chefe, o governador de Pernambuco, nos eventos em que ele é o anfitrião. Me acordaram quando a presidente Dilma Rousseff e o ex-presidente Lula estavam a caminho do velório. Me levaram até eles. Queriam dar um abraço. Lembro das palavras de Dilma, que pegava com as duas mãos no meu rosto dizendo: “Minha filha, que brutalidade”. E viu a aliança de Percol no meu peito. Tocou e voltou a me abraçar. Esta era a palavra que eu sentia: brutalidade.
No cemitério, o mesmo filme inacreditável. Eu queria poder parar de doer naquela hora. E impedir a dor de Dona Alzira, a mãe de Percol. A pessoa que eu tanto o vi cuidar, se preocupar, dar a atenção que ele podia. E naquele momento eu só agradeci a ela, por ter ajudado a fazer dele um homem tão bom, tão lindo, um marido tão amoroso e parceiro nos quase 5 anos que moramos juntos. Ele também foi um colecionador de amigos. Deus do céu! Eram muitos. Alguns vestiam camisa com a foto e o nome dele.
Eu quis ver tudo. A cobertura do velório, do enterro, a repercussão. Meus olhos ardiam, cansaço, choro, sono, tudo junto. Na cobertura da TV, eu quis ver inclusive as simulações do momento da queda. Ninguém me respondeu, nem no Cenipa, em Brasília, se eles sofreram. “Foi tudo muito rápido”, é o que repetem.
Nessa loucura toda, teve um descanso: a noite do aniversário de Renata Campos, cinco dias após o desastre. Na casa dela no Recife, esticamos até de madrugada, numa contação de história sem fim, aplacando a saudade. Foi muito riso. A gente chorou de rir, como se diz. Obra divina. Percol não podia me ver chorar. Era uma briga se eu chorasse. Vi parte do filme “12 Anos de Escravidão”, na volta da nossa lua de mel, “escondida”, enquanto ele dormia no avião. Acordou e eu estava chorando. Levei um pequeno esporro. E Renata me contava que Eduardo era o mesmo com ela. E isso a fez “segurar a onda”.
Um momento à parte foi quando voltou de São Paulo meu “marido Galego” – como a gente brincava. Ganhou o apelido desde que eu casei em 5 abril de 2014 e Percol se mudou para São Paulo logo após a lua de mel para dividir apartamento com ele e com o ex-deputado Pedro Valadares (assessor de Eduardo e também vítima do acidente). Eu só cheguei três meses depois. E fui morar em um bairro vizinho a Moema. O “Galego” foi nossos olhos e nossos ouvidos em Santos, lá naqueles escombros. “Você é minha caixa prata”, dizia eu, para o cara que mais conviveu com Percol nos últimos tempos. Vi as conversas dele com Percol em dois celulares. Feito esposa ciumenta. Em uma delas, meu marido perguntava se ia ter vaga no avião que os levaria ao Rio, naquele dia do Jornal Nacional. “Talvez Cecília consiga ir”. Pois é. Eu não fui.
No auge da dor eu quis ficar na nossa casa no Recife, onde se amontoavam presentes de casamento que sequer chegaram a ser abertos. Para onde também correram os muitos amigos nossos e familiares. Senti vontade de escrever, como eu fazia para me comunicar com o Tchinho. Afinal, já convivíamos com a distância próximo de um “muito bem, obrigado”. Percol sempre brincava, dizendo que estava ficando famoso e que queria que eu escrevesse sobre ele. “O que você vai escrever sobre mim no insta (o Instagram)?”, perguntava ele a cada degrau que ele merecidamente subia. E eu escrevia. Está tudo lá. “Eu adoro que você escreve sobre mim, Tchinha”. No nosso último encontro, uma segunda-feira em São Paulo, dia 11 de agosto, ele me disse para eu fazer a “clipagem” do que saia dele. A gente riu tanto. E ele me esperou entrar no elevador do comitê para, do carro, ele dar aquele tchau e beijo de Miss Brasil.
Duas semanas após o acidente, eu voltei a morar em São Paulo. Comecei a ir na terapia. Me reintegrei à campanha de Marina Silva, que fez questão de me chamar quando retornei ao trabalho. “Minha querida, vai dar tudo certo”. E está dando, sim. Graças a Deus.
E fui ficando, ficando, ficando em São Paulo… Fiz o segundo turno com Aécio Neves. Nova mudança de bairro, de colegas de trabalho e o primeiro grande desafio: dormir a primeira noite sozinha no meu quarto de hotel. Era um domingo. Ligo a TV e…? Aparece a chamada do Fantástico com a imagem de Percol com Eduardo Campos saindo do Cessna Citation. Meus pais e alguns amigos me ligaram. “Gente, eu preciso ver. E chorei, chorei e chorei. Aquele choro de molhar o travesseiro, de deixar os olhos inchados e vermelhos. E adormeci.
Voltei de vez ao Recife para as festas de fim de ano – após quase alugar apartamento em São Paulo e emendar a campanha em um emprego novo por lá. Mas foi uma viagem ao Recife sem volta. Fui convidada a ser secretária Executiva de Imprensa do governador Paulo Câmara, que havia sido escolhido por Eduardo para a sucessão. “Sim”, eu disse. Em janeiro deste ano, assumi, na verdade, uma tarefa que foi brilhantemente desempenhada pelo meu marido.
Vejam o que é o destino – ou chamem como preferir. Chegamos a cursar algumas cadeiras na mesma faculdade de Jornalismo, mas temos uma vaga lembrança disso. Não tínhamos contato naquela época. Depois, já formados, nos reencontramos. Passamos a conviver em 2007. Ele era o assessor do governador Eduardo Campos e eu era a repórter setorista do governo em um jornal de Pernambuco. A paquera só começou em 2010 e por mensagens quando eu estava de férias, fora de Pernambuco. Passaram-se alguns meses até que o beijo se concretizasse no final daquele ano de 2010. Nosso trabalho pesava na balança. Era um conflito. Resumidamente: como repórter, eu atacava; ele, como assessor, defendia.
Mas estávamos diante de um amor inevitável, de uma admiração mútua. E que bom que a vontade de estar junto nos dominou. Tive que abandonar o barco para Percol poder navegar. Me inviabilizei como repórter de política. Pedi para sair. Lembro que do jornal fui para a casa dele. Tive que parar no trajeto pois não conseguia dirigir de tanto que eu chorava. Estava abrindo mão do que eu amava fazer e do que eu conquistei profissionalmente. Fui para a editoria de Economia e depois para a coluna social. Passei a ficar em “suspeição”. Afinal, eu não era mais “a repórter”. Era “a mulher de Percol”. E lá se iam dez anos de profissão… Ele virou secretário de Imprensa do Recife. E eu faria tudo outra vez. Foram quase cinco anos juntos, sendo quatro sob o mesmo teto.
Eduardo Campos e Percol se desincompatibilizaram do governo e da Prefeitura do Recife, respectivamente, na véspera do nosso casamento. No prazo limite, 4 de abril de 2014. E na noite daquele dia jantamos na casa do “presidenciável”, antes de seguirmos para o local da nossa festa, Aldeia, vizinha do Recife. “Essa lua de mel de vocês vai durar quantas horas? Porque tem muito serviço par tu, Percol”, brincava Eduardo.
E Londres já havia sido cortada do roteiro. Fomos para Paris e Amsterdã. Mais uma viagem divertidíssima, de muito amor e cumplicidade. Ele queria ser pai e a lua de mel era um caminho. Mas eu recuei. Pensamos juntos e o convenci, depois, que eu seria uma grávida sozinha, sem o pai do bebê, durante a gestação. E isso ele não admitia. Acabou concordando já que estaria com Eduardo Campos rodando o Brasil.
Retornamos numa quinta-feira de Paris e Percol foi morar com Eduardo já no domingo. Do aeroporto eu escrevi sobre ele no Instagram, como ele amava. Percol, agoniado como sempre: “Escreve logo antes que decole. Você está tão fraquinha de marido mesmo…”. E fazia o sinal de coração com as mãos. Um gaiato, um chantagista amoroso. Ele ia dando as costas apontando para o celular e fazendo esse coração. E eu escrevi no “Insta”, naquele abril de 2014, uma postagem com foto de Eduardo abraçando Percol no nosso casamento: “Ele vai morar em um avião por alguns meses. Meu coração fica do tamanho de um grão de chia (…) Vai, Tchinho. Vai que você merece cada pedacinho do que você conquistou”. Não foi um pressentimento. Foi o óbvio para uma campanha presidencial com muitas viagens no roteiro.
“Está vendo essa festa toda aqui? Mas quem vai levar Percol sou eu. Ele vai rodar o Brasil comigo”, disse Eduardo Campos a Dom Ximenes, que nos casou “na tarde linda que não quer se pôr” de 5 de abril de 2014. Foi o casamento mais belo e cheio de vida que nossos sonhos pudessem alcançar. Lembro que no day after, já no hotel, a gente ria alto. Olhava para algumas fotos e vídeos que os amigos compartilharam no whatsapp e não acreditávamos. Estávamos em estado de encantamento. A celebração religiosa deixou boquiaberto o mais descrente dos nossos convidados. E a festa ao ar livre teve o nosso astral despojado – com amigos que vieram de várias partes nos abraçar -, e o mais tímido se esbaldou no salão até a madrugada. Já no final da festa, eu chorava descabelada, com o nariz vermelho, abraçada aos amigos dizendo: “Ele vai embora. Ele vai me deixar só”. Afinal, após a lua de mel ele entraria numa campanha presidencial.
Como noivo, Percol foi bem dizer uma noiva. Tinha um check list maior que o meu. Mesmo em viagens a trabalho, ligava quase todo fim de tarde para saber se cumpri minha parte na missão “‪#‎diaD”. Já morávamos juntos há quase quatro anos quando decidimos fazer a festa de casamento. E quatro meses depois àquela festa toda, ele foi levado. Como eu disse naquele agosto-desgosto de 2014: Eu não faço questão de perdê-lo para Eduardo Campos. Percol estava no melhor momento da sua vida, fazendo o que amava e acreditava. Nos falamos logo após Eduardo dizer que não desistiria do Brasil, no Jornal Nacional. Meu marido estava eufórico. Pude confirmar a felicidade no rosto dele, nas filmagens e fotos que a TV Globo nos enviou, após o acidente, com os bastidores daquele dia no JN. Assistimos eu, Renata e Eduarda Campos, na casa delas no Recife, em março passado.
“Eu tô muito feliz, Tchinha. Tu não bota fé não. O chefe botou para foder! Foi bem demais! É uma águia!”, repetia no celular comigo. Percol no Rio. Eu em São Paulo. Naquela madrugada do 12 para o 13, eu chorava muito ao telefone. De cansaço, de saudade, de tensão. Fiz uma selfie porque ele queria ver como eu estava. Odiava que eu chorasse. Percol queria ser pai. Mas a gente não conseguia se ver. “Tchinha, não fique assim. Odeio ver você chorar. A gente vai aguentar. Em novembro completamos nossa lua de mel. Já organizou nossa viagem para o México? Falta pouco”. E eu fui dormir. E eles jantaram juntos no hotel com Renata, Miguel e o staf da campanha. Cerca de oito horas depois do nosso último “Boa noite. Te amo”, um jatinho havia caído.
E a vida segue desde então. Talvez felicidade é justamente poder seguir em frente. Cada vez que a gente se despedaça. Ser forte e não retroceder tornou-se minha única opção nesta travessia. Digo que este ano de 2015 eu reservei para me “mimar”, me fazer bem, resetar a vida. E tiro do meu caminho tudo o que me trave o peito e me impeça o riso. Eu sempre disse, antes mesmo do acidente, que ser feliz é uma decisão de vida. Um estilo de vida. Eu não dou intimidade a problema, como repetia muito Percol, que já aprendera a frase com o chefe. Eu brinco que meu jeito stand up comedy tem me salvado. Ironicamente, inclusive. Porque sempre quis ser tímida. Acho um charme. “Tu és gaiata, és?”, brincava Percol comigo, outro palhaço por natureza.
Hoje, eu só quero paz. Eu compro paz, como eu costumo brincar. Não vou negociar meu sossego. O meu sentimento é de reconstruir a vida e fechar os olhos e tapar os ouvidos para os julgadores de plantão, os “vigias” do luto. Sim, existe isso. Tem gente a postos para medir meu tempo de sorrir, entristecer, de amanhecer e de entardecer. Mas nem a mais espiritual das criaturas humanas pode saber na pele o que se passa comigo ou com qualquer outra vítima disso tudo. A menos que tenha vivido perda igual.
É insuportável a dor de querer o que não existe. Então tem que ser uma decisão enxergar sua vida para frente. Foi o que eu fiz, mas meu retrovisor está aqui do lado, involuntariamente. Ainda não finalizei nosso vídeo de casamento. Chegamos a trocar mensagens na semana anterior ao acidente. Conversamos sobre a edição e até isso deixamos pronto – por escrito. Tivemos três fotógrafos. Ele não conseguiu ver. Eu só tinha visto 1/3 e mandava para ele “foto da foto”, que eu fotografava a tela. Reabri o baú das fotos delicadas para esta reportagem. Vi com minha melhor amiga, madrinha de casamento e vizinha, Natália. Nós choramos. Nos últimos tempos, Percol ligava para alguns amigos pedindo para que “cuidassem de Cecília”. “Não quero ela solta por aí”. Foi assim com Natália, no Recife.
Tenho falado com as outras viúvas desse acidente e alguns parentes. Bom, esse termo “viú…” é que não me “entra”. É tipo uma roupa apertada que não me cabe nos meus 36 anos. Tenho escrito no meu Instagram, onde recebo mensagens do Brasil e de fora. A maioria que escreve ou que fala pessoalmente comigo me deseja uma vida nova, agradece as palavras que eu escrevo e me diz que sou “exemplo de superação”. Mas nada me deixa mais (re)confortada do que ler e ouvir que ajudo alguém a ter forças, a superar algo ou que encorajo a aproveitar a vida. Ah… E muita gente já me deseja um novo amor. Já discute meu futuro amoroso. Que bom. Eu tenho futuro.
Tive a sorte de ser amada por um companheiro, um parceiro, um admirador desses de frases de poesia. E é por isso que escrevo e falo tanto aos casais: primeiro, tem que ter admiração mútua, no pacote junto com o amor, o respeito, o desejo. Depois, sejam cúmplices, não durmam brigados, não guardem o que sentem. Gastem. Usufruam. Coisa mais linda é demonstrar o que se sente. Façam valer o fato de que estar junto é uma escolha. Ninguém é obrigado. Estar junto é um encontro. Um encaixe harmônico.
Não virei guru espiritual, não sou a última vítima do mundo e muito menos virei expert em alguma coisa. Mas atravessei uma dor inacreditável. E olhar para trás e ver que a gente viveu tudo que tinha para viver e que não guardou nada para depois desperta em mim uma vontade constante de compartilhar, de dizer a vocês: vão viver! Não economizem.
Ainda sou reconhecida na rua, aqui na minha cidade, o Recife. No começo eu me assustei, depois eu aceitei como carinho. Curiosidade também, por que não? E como minhas contas nas redes sociais sempre foram abertas e eu sempre amei escrever, acho que é inevitável. As pessoas – grande parte desconhecidas – me abraçam, quando me reconhecem, e elogiam minha postura. Parei de tentar explicar que eu não tenho postura “x” ou “y”. Eu apenas estou “indo”, seguindo, do jeito que eu sempre fui, vivendo o que eu sinto e do meu jeito comediante até na hora do aperto. Eu não economizo sentimento, não parcelo alegria e sempre fui de juntar gente. Também obedeço a minha vontade. Não luto contra ela. Eu dizia a Percol que a vontade move o mundo. E move, se somada ao seu agir.
E minha primeira vontade este ano foi mudar tudo: de casa, de trabalho, de vista. Novos ares. Deixei para trás nosso apartamento todo decorado e fui para o lado oposto da cidade, o bairro do Pina, pertinho da praia e no mesmo edifício da minha melhor amiga. Mantive os mesmos amigos e ganhei dezenas de outros. Essa coisa de juntar gente perto de mim só me faz bem. E disso aí eu sou incurável.
Fiquei mais sensível e com mais pressa de ser feliz todo dia. Aí insisto para que a gente não deixe escapar o que pode viver hoje, o agora. Eu não sei para onde vai o “depois”. Eu não sei para onde vão as coisas que a gente não vive, não diz. Quase oito meses depois do acidente tive coragem de abrir nossos chats no celular dele do Recife e no de São Paulo. A última mensagem do meu marido para mim foi: “Resolvi sua vida”. Ele se referia a questões burocráticas de trabalho que eu precisava concluir e não conseguia. “Resolvi sua vida. Não precisa você se preocupar. Vou tentar te ver de todo jeito hoje, antes de irmos para Brasília. O chefe quer viajar depois da gravação”. Como eu recebia a agenda antes, por trabalhar no jornalismo da campanha, não tinha como me iludir. Após o evento em Santos, Eduardo gravaria para a propaganda eleitoral. E, à noite, seguiria para Brasília.
Não sei o por vir. Bate, de vez em quando, aquele medo de sofrer. Como se eu já tivesse dado minha cota de sofrimento nesta vida. Aí vem meu bom humor dizer ao meu querido destino: livrai-me de todo o mal, já que eu não tenho garantia de nada. E ninguém venha adjetivar a saudade de “boa” ou “bonita”. Eu sinto uma saudade estúpida do que nunca terei de volta. Do que me foi arrancado. Domingo de Páscoa faríamos um ano de casados. Brinquei com o Tchinho na minha oração lá na pedra do Arpoador (RJ), para onde me refugiei, e disse: “Você me deixou só. Agora resolva minha vida…”. E chorei sorrindo.
Atravessar o que eu atravesso criou em mim uma película protetora invisível aos olhos. Mas que eu sinto. Vejo os sinais. Como se ele estivesse cuidando de mim. No dia que escrevo este texto para a Glamour, encontro o “marido Galego” por acaso em um shopping. Fazia muitos dias que não nos encontrávamos. E ele me pergunta, entre outras coisas, se eu já estou o “traindo”. E sorrindo, emenda: “Percol quer ver você feliz. Você sabe disso. Vá ser feliz!”. Eu sei. E sorrimos juntos. Um anjo da guarda só meu e uma torcida imensa – de conhecidos e anônimos – estão “operando” juntos para isso. Para que eu possa florir de novo. Eu já vejo o comecinho da primavera e sou muito grata por isso”.
Cecilia, uma vez vi num filme que eu amo, o PS: EU TE AMO, uma frase linda que o marido (que sabia que iria falecer, deixou escrito para ela): você foi a minha vida, eu fui um capítulo da sua! E eu tenho certeza que o livro da sua vida será lindo demais!
Say I do.

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Morte


Nós todos vamos morrer. E, acredite ou não, esse é um evento tão natural quanto nascer, crescer ou ter filhos. No entanto, a idéia da finitude nos enche de terror. Por quê? Será que precisa ser assim? Dá para sofrer menos?
POR Redação Super Interessante
Maria Fernanda Vomero
Há muito tempo, no Tibete, uma mulher viu seu filho, ainda bebê, adoecer e morrer em seus braços, sem que ela nada pudesse fazer. Desesperada, saiu pelas ruas implorando que alguém a ajudasse a encontrar um remédio que pudesse curar a morte do filho. Como ninguém podia ajudá-la, a mulher procurou um mestre budista, colocou o corpo da criança a seus pés e falou sobre a profunda tristeza que a estava abatendo. O mestre, então, respondeu que havia, sim, uma solução para a sua dor. Ela deveria voltar à cidade e trazer para ele uma semente de mostarda nascida em uma casa onde nunca tivesse ocorrido uma perda. A mulher partiu, exultante, em busca da semente. Foi de casa em casa. Sempre ouvindo as mesmas respostas. “Muita gente já morreu nessa casa”; “Desculpe, já houve morte em nossa família”; “Aqui nós já perdemos um bebê também.” Depois de vencer a cidade inteira sem conseguir a semente de mostarda pedida pelo mestre, a mulher compreendeu a lição.
Voltou a ele e disse: “O sofrimento me cegou a ponto de eu imaginar que era a única pessoa que sofria nas mãos da morte”.
A morte pode ser vista como um mistério incompreensível. Ou como um absurdo inaceitável. A morte pode até ser tratada como um tabu, assunto do qual a maioria das pessoas não gosta de falar. Mas, seja como for, aceitemos isso ou não, a morte é um fato, uma realidade inexorável. E que vem para todos nós. Por mais que queiramos nos esconder dela, deixar de existir é uma coisa tão natural quanto existir. Na verdade, a morte é provavelmente a única coisa certa na sua existência ou na minha – e também na de nossos pais, nossos filhos, nossos ídolos e inimigos, de todas as pessoas que amamos e mesmo daquelas que jamais chegaremos a conhecer: é certo que todos nós vamos morrer um dia. Pessoas boas, pessoas ruins, gente em Xanxerê, Santa Catarina, ou em Nagano, no Japão. E esse dia pode acontecer amanhã ou daqui a 60 anos.
A morte faz parte da vida. Todos começamos a morrer exatamente no dia em que nascemos. A morte, portanto, é um etapa da nossa existência com a qual temos que conviver. Pode-se conviver melhor ou pior com ela. Mas não se pode evitá-la. Pode-se aceitar a sua inevitabilidade e olhá-la de frente. Ou pode-se negá-la, fugir dela, imaginar que não pensar na morte possa fazer com que ela deixe de acontecer com você ou com a sua família. Mas o fato é que todos nós estamos programados para nascer, crescer e morrer – uma obviedade esquecida por boa parte da sociedade ocidental contemporânea, que teima em ver a morte como um evento artificial, inesperado e injusto. Sobretudo, costumamos vê-la como um evento exclusivo, pessoal, que isola quem sofre uma perda, por meio da dor, do resto do mundo. Quando, ao contrário, não há nada menos exclusivo do que morrer. Nem nada que perpasse mais a humanidade do que o sofrimento de uma perda.
Como está expresso na fábula tibetana, a morte não é privilégio nem desgraça particular de ninguém. Ela chega para todos, sem exceção.
Mas, afinal, se a morte é tão comum e corriqueira, por que ela nos causa tanto medo? “O maior desejo do homem é a imortalidade”, diz a psicóloga Ingrid Esslinger, da Universidade de São Paulo (USP), acostumada a atender pessoas em situação de luto. “Por isso, muitas vezes a morte é considerada uma inimiga.” E uma adversária, que poderia ser vencida pelos avanços científico-tecnológicos do século XX, que aumentaram indiscutivelmente a eficiência dos diagnósticos, dos medicamentos, das técnicas cirúrgicas etc. O sonho da permanência ganhou um reforço com as melhorias trazidas pela medicina, com o aumento da expectativa de vida, com a possibilidade de haver cura para todas as doenças, mesmo o câncer ou a Aids. Enfim, soa como um despropósito falar de morte a quem tem as descobertas da ciência a seu favor. Afinal, se existem meios de prolongar a vida útil do ser humano, de manter-se jovem, de atrasar o envelhecimento, de viver mais de 100 anos, por que pensar na finitude?
É um paradoxo: a valorização da vida e a ilusão de eterna beleza e jovialidade trazidas pela vida moderna acabam gerando, por meio do apego a tudo isso, muito mais tristeza e sofrimento pelo fim inevitável da existência do que felicidade pelo mais de vida que proporcionam.
O mundo ocidental transformou a morte em tabu: ela costuma ser ocultada das crianças e banida das conversas cotidianas. Tudo aquilo que possa lembrá-la – a enfermidade, a velhice, a decrepitude – é escamoteado. Os doentes morrem no hospital, longe dos olhos – e, não raro, do coração – de seus amigos e parentes. E os rituais de luto são cada vez mais rápidos e pragmáticos. O medo natural que todo ser humano sente diante da própria finitude vira pânico. E mesmo a morte natural – não causada, por exemplo, pela tremenda violência que a cada dia assola os cidadãos no Brasil – acaba virando sinônimo de aniquilamento sumário, de abreviamento. O que, no mais das vezes, não corresponde à realidade por se tratar apenas de uma vida que chegou naturalmente ao fim, de uma existência que simplesmente expirou.
“Partimos de idéias preconcebidas sobre a morte, formadas a partir da nossa personalidade, da educação familiar e do ambiente sociocultural e religioso em que vivemos”, diz a psicóloga Bel Cesar, do Centro de Dharma da Paz, em São Paulo, e autora de Morrer Não Se Improvisa. Tais imagens são rótulos que muitas vezes não correspondem à experiência humana e que acabam alimentando fantasias amedrontadoras. “Refletir sobre a morte pode torná-la mais familiar e, portanto, menos ameaçadora”, diz.
O primeiro passo para conviver melhor com a idéia da morte é esquecer aquela imagem medieval, um tanto tétrica, de um esqueleto coberto com uma capa preta carregando uma foice afiada na mão. Talvez uma imagem melhor para a morte seja imaginá-la como o fim de uma festa muito bacana: você já sabia que ela acabaria, que ela teria que acabar, em algum momento. E, pensando bem, talvez não seja de todo mal que a festa termine. Você agüentaria dançar na pista para sempre? Por melhor que seja a música, tem uma hora que seu corpo e sua mente pedem descanso. E aí, talvez, seja o momento mesmo de sair da pista, serenamente, sem traumas, e dar lugar a quem está chegando à festa cheio de gás.
Bel propõe um exercício de meditação, inspirado nas práticas budistas: repita a palavra “morte”, de olhos fechados, inúmeras vezes. “Surgirão pensamentos, imagens e sentimentos muitas vezes antagônicos. Mas, se você continuar essa experiência de mergulhar até onde a palavra ‘morte’ o levar, verá que algo dentro de você mudará positivamente”, diz ela.
O medo da morte é um sentimento inerente ao processo de desenvolvimento humano. Aparece na infância, a partir das primeiras experiências de perda. E tem várias facetas: trata-se de um medo do desconhecido, somado ao medo da própria extinção, da ruptura da teia afetiva, da solidão e do sofrimento. “O medo da morte é fundador da cultura”, diz a socioantropóloga Luce Des Aulniers, responsável pela disciplina de Estudos Sobre a Morte, da Universidade de Quebec, em Montreal, Canadá. “Esse medo funciona como pivô e como motor de todas as civilizações. A partir do desejo de perenidade, se desenvolvem as instituições, as crenças, as ciências, as artes, as técnicas e mesmo as organizações políticas e econômicas.”
Esse é o lado, digamos, vital da morte. “O medo da morte nos força a viver – a nos relacionarmos, a procriarmos, a criarmos, a construirmos coisas que nos transcendam”, diz Luce. Na ilusão da imortalidade, o ser humano acredita que suas obras sejam permanentes e garantam que ele não seja esquecido. Cada um adapta, à sua própria maneira, a máxima “plantar uma árvore, escrever um livro e fazer um filho”. Isso ocorre porque, para o nosso inconsciente, a morte nunca é possível nem admissível quando se trata de nós mesmos. “A idéia da não-existência provoca tal desconforto que a mente humana acaba criando alguns mecanismos de defesa para fugir dessa realidade”, diz o psiquiatra e psicanalista Roosevelt Smeke Cassorla, da Sociedade Brasileira de Psicanálise, em São Paulo. A negação e a repressão da idéia de morte são exemplos desses artifícios.
Nada disso é novidade. Desde os tempos mais remotos, os homens já enxergavam a morte como elemento antagônico à vida – e não como parte integrante e inseparável dela. Talvez fosse mais fácil aceitá-la como fato natural quando ela acontecia aos borbotões, quando a expectativa de vida das pessoas era de 35 anos. Mas o estranhamento e o terror sempre existiram. As pinturas encontradas nas paredes de cavernas como Lascaux e Chauvert, na França, revelam o incômodo que a morte provocava no homem de 30 000 anos atrás. Os episódios alegres, como as caçadas, eram retratados em cores vivas, usando óxido de ferro (alaranjado) ou calcário amarelo. As imagens fúnebres, por sua vez, eram pintadas com cores escuras, com carvão.
O antagonismo se mantém dentro de cada um de nós, no jogo constante entre Eros, o deus grego do amor, e Tanatos, o deus da morte, para usar uma imagem cunhada por Sigmund Freud, fundador da psicanálise. As forças da vida, representadas por Eros, estimulariam o crescimento, a integração, a autoproteção e a sobrevivência. As forças da morte, representadas por Tanatos, alimentariam os instintos destrutivos e as atitudes de auto-sabotagem, por exemplo. Da conciliação dessas forças contraditórias, surgiria o equilíbrio e o vigor emocional necessários para viver.
No entanto, o medo de morrer pode gerar um apego desmedido a elementos cotidianos e um conseqüente desespero diante da possibilidade de vir a “perder tudo” com a morte – a companhia dos amigos, o carro novo, os imóveis, o status social, os projetos não realizados. No budismo, assim como na tradição cristã, o desapego é condição essencial para uma “boa morte”. “Normalmente assumimos que precisamos dominar alguma coisa para que ela nos traga felicidade. E nos perguntamos: como é possível saborear alguma coisa se não podemos possuí-la?”, escreve Sogyal Rinpoche, em seu O Livro Tibetano do Viver e do Morrer. “Mas, na morte, não podemos levar nada conosco.” Nem bens, nem diplomas, nem o sucesso. Eis aqui outro paradoxo: para viver bem, sem o terror e o tormento da idéia do fim, é preciso cultivar um certo desapego em relação à vida.
Em outras palavras: para experimentar a “boa morte” e morrer serenamente – em oposição a viver atarantado pela iminência da “cadavérica” e assim morrer sofrendo – é preciso absorver a idéia de que, como quase tudo neste mundo, também nós somos impermanentes.
A vida é como um contrato que estabelece a própria vigência em uma das cláusulas. Ou seja, basta estar vivo para estar sujeito às leis da existência, que determinam o seu próprio término. Lutar contra esse fato inelutável é garantia de dor. Ao contrário, aceitar a transitoriedade da condição humana – que se aplica a você, a mim e a mais seis bilhões de indivíduos – ajuda a aliviar o sofrimento que a idéia da morte costuma trazer. Você não pode mudar o fato de que vai acabar um dia. Mas você pode mudar o modo como se relaciona com esse fato. Em certas ordens religiosas católicas, os monges, ao se encontrarem nos corredores do mosteiro, costumam dizer uns aos outros: “Memento mori”, uma expressão latina que significa “lembre-se de que vai morrer”. A saudação – que é o contraponto de “Carpe diem” (“aproveite o dia”) – funciona como um exercício espiritual de aceitação gradual e diária da morte, vendo-a como uma conseqüência da própria vida e também de preparação para o momento em que ela acontecer.
O contrário disso é o culto ao ego, ao “pequeno eu” que há dentro de cada um de nós, manifestado na não-aceitação do curso natural dos acontecimentos, quando ele não ocorre como gostaríamos. E que está presente no indivíduo que tenta se colocar sempre acima do todo a que pertence. Ao não conseguir fazê-lo, esse “eu” sofre exagerada e desnecessariamente para aceitar a parte que lhe cabe. Na vida, quanto mais você está centrado em si mesmo, sem compartilhar suas alegrias e suas frustrações com os outros, mais você sofre com a ausência de solidariedade, com o isolamento que impõe a si mesmo, com a falsa idéia de que está desamparado. Na morte, acontece a mesma coisa. Quanto menos você compartilha a sua dor – e o sofrimento é um dos elos fundamentais da humanidade –, mais insuportável ela se torna.
As perdas que você acumula ao longo da vida podem tanto potencializar o seu medo da morte quanto ensiná-lo a conviver melhor com a finitude. “Vivemos pequenas perdas todos os dias. Uma separação, uma demissão, a morte de um amigo, a notícia de uma doença incurável”, diz a psicóloga Maria Helena Bromberg, coordenadora do Laboratório de Estudos e Intervenções sobre Luto (Lelu), da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo. “Essas experiências cotidianas de morte nos ajudam a entender que nada dura para sempre. Inclusive nós, em nossa natureza mortal.”
Uma história antiga ajuda a entender melhor esse processo de pequenas aprendizagens – e como muitos de nós o ignoram. Um dia, há muito tempo, um homem resolveu fazer um trato com a Morte. Prometeu a ela que não ofereceria resistência quando sua hora chegasse. Mas pediu, em troca, que fosse avisado com antecedência porque queria ter tempo suficiente para terminar todas as suas tarefas. O acordo foi feito. Tempos depois, houve um acidente grave na cidade e muitos amigos do homem morreram. Anos mais tarde, um vizinho próximo faleceu. Em seguida, foi a vez de um tio. Até que o homem ficou doente e, em alguns meses, encontrou-se com a Morte. Ela tinha vindo buscá-lo. Revoltado, reclamou: “Eu pedi que você me avisasse quando viria e não recebi um sinal!” Ao que a Morte respondeu: “A morte dos seus amigos, do seu vizinho, do seu tio não bastaram?”
Para quem busca na filosofia maneiras de lidar melhor com a morte, as reflexões finais do filósofo grego Sócrates – condenado a tomar cicuta, um veneno letal –, realizadas no século V a.C., representam um excelente exercício de aceitação. “Porque morrer é uma ou outra destas duas coisas. Ou o morto não tem absolutamente nenhuma existência, nenhuma consciência do que quer que seja. Ou, como se diz, a morte é precisamente uma mudança de existência e, para a alma, uma migração deste lugar para outro”, afirmou Sócrates. Em outras palavras: para quem não acredita na continuação da vida, a morte é o nada, é a ausência completa de angústias e desesperos, é o fim das aflições. E para quem acredita na continuação da vida, a morte é a passagem desta existência para outra melhor. De qualquer modo, a dor estaria na vida e não na morte.
Quando chegou o momento de beber o veneno, Sócrates disse a seus discípulos, numa última lição: “Mas já é hora de irmos: eu para a morte e vocês para viverem. Mas quem vai para melhor sorte é segredo, exceto para Deus.”
A morte é um assunto tão complexo que sequer há uma concordância entre os cientistas quanto sua definição. No campo filosófico, essa discussão fica ainda mais sinuosa. “Apesar de considerarmos a morte como um evento biologicamente irreversível, ela não pode ser determinada exclusivamente pelo critério biológico, pois envolve também questões ontológicas e filosóficas”, afirma o patologista forense Marcos de Almeida, professor de Medicina Legal e Bioética da Universidade Federal de São Paulo. Alma e consciência são sinônimos? Existe uma alma imortal? Se sim, para onde ela vai quando morremos? Sem respostas definitivas da ciência, o homem busca, nas crenças religiosas, explicações para o fenômeno da morte. Para uns, trata-se de uma passagem, uma transição desta vida para outra, mais plena e mais feliz. Para outros, é o momento máximo de iluminação, uma forma de libertação do sofrimento.
Há ainda aqueles para quem morrer é simplesmente deixar de existir – como se fôssemos uma lâmpada que se apaga, sem qualquer possibilidade de transcendência.
“Pesquisas demonstram que pessoas com forte grau de envolvimento religioso, independente da crença, geralmente têm menos medo da morte”, afirma a psicóloga Maria Júlia Kovácz, coordenadora do Laboratório de Estudos sobre a Morte (LEM) da USP e autora de Morte e Desenvolvimento Humano. “A fé ajuda a superar a ansiedade em relação à idéia de finitude”, diz ela. Para o psicanalista Roosevelt Cassorla, “na religião o indivíduo convive melhor com a finitude porque lá encontra certezas sobre por que vive, por que morre e o que acontece após a morte.”
Se há uma outra vida que se segue à morte, existiria então uma continuidade da mente ou do espírito. “Viver em função dessa continuidade nos torna mais responsáveis pelas conseqüências dos nossos atos”, diz a psicóloga Bel Cesar. “O fruto apodrece, cai no chão, mas deixa a semente que dará vida a outro fruto. Assim também conosco.” A visão espiritual da morte implica desapego. Afinal, é também por meio da aceitação da impermanência humana que a religião ajuda a suavizar o sofrimento causado pela finitude. Por outro lado, a idéia de transcendência, do indivíduo que vence a morte, paradoxalmente embute uma aspiração à perenidade, ao não admitir que o sujeito chegue a um fim e ao propor que ele perdure em algum outro lugar, existindo de alguma outra maneira.
Em oposição à visão espiritualista da morte, há a tradição materialista ocidental, que surgiu na Antigüidade e depois foi retomada pelos filósofos do Iluminismo, a partir do século XVIII, para a qual a morte é o fim total e absoluto. Nada mais do que a interrupção de um processo neurofisiológico, de um mero evento biológico. Essa concepção, mais tarde lapidada pelos existencialistas, como o francês Jean-Paul Sartre, funda muito da nossa visão de que morrer é um fracasso, um escândalo, uma idéia inconcebível com a qual é impossível lidar e inútil tentar conviver. “Morrer é um absurdo”, escreveu o filósofo existencialista Arthur Schopenhauer (1788-1860). A morte não cabe na idéia cartesiana de vida – para a qual tudo poderia ser medido, compreendido, planejado. A finitude quebra a ilusão iluminista e antropocêntrica de que o homem poderia controlar tudo por meio da sua razão. A possibilidade de não estar mais aqui amanhã não cabe nesse jeito de entender o mundo.
O Ocidente, em seu esforço por não admitir a morte, está há pelo menos 30 anos obcecado pela idéia do jovem como metáfora de vida saudável. O envelhecimento, que também pode ser saudável, é visto sempre como decrepitude – e a morte é vista sempre como a epítome disso. “Há uma negação muito clara da finitude. Sobretudo porque os valores da sociedade de massa e de consumo são antagônicos à idéia de morte: o fetichismo da juventude eterna, os ideais de progresso, a acumulação de bens, a busca da imortalidade”, diz Olgária Feres Matos, professora do Departamento de Filosofia da Universidade de São Paulo. A sociedade ocidental vive um presente perpétuo, imediato. “Não há nem a visão de um futuro nem a evocação de um passado. Por isso, a morte não é admitida como uma experiência humana aceitável”, afirma Olgária. O resultado é uma sociedade atormentada, que busca inutilmente a serenidade e a felicidade não no autoconhecimento, mas em fugas da realidade indiscutível de que um dia iremos deixar de existir.
“Atualmente se vive muito mal. As pessoas, hipnotizadas por falsas necessidades, não têm uma vida emocional rica. E morre-se de modo ainda pior”, diz o psicanalista Roosevelt Cassorla. Muitas vezes, morre-se sozinho, na assepsia gelada dos hospitais, experimentando um dos medos mais primitivos do ser humano: a solidão. Até o luto é suprimido – uma exigência implícita para que a dor seja contida, pois os sinais de morte não podem transparecer aos que ficaram.
“Gastamos nossos dias tentando aproveitar a vida e chegamos ao momento da morte totalmente despreparados”, afirma o filósofo Basílio Pawlowicz, da Associação Palas Athena, um centro de estudos especializado em temas ligados à espiritualidade, em São Paulo. “Se você não disse o que queria dizer, não amou o quanto poderia amar, não tentou aquilo que desejava tentar, logicamente morrerá angustiado, com a sensação de que a vida se foi e tudo ficou pela metade.”
Mesmo no mundo ocidental, no entanto, sobrevivem tradições que, ao festejar a morte, celebram a vida. O “Dia dos Mortos”, no México, é um exemplo disso. “Ainda existem aldeias que desenterram os mortos nesse dia. Trata-se de um costume indígena milenar. As refeições são feitas no cemitério e as crianças ganham doces e bombons em forma de caveiras”, diz o historiador Leandro Karnal, professor de História da América na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). “No interior do país, sobrevive a prática de conversar com os mortos para colocá-los a par do que aconteceu durante o ano.” As famílias preparam altares para seus falecidos e neles colocam os objetos de predileção do parente morto: livros, cigarros, comidas, fotografias.
A atitude de festejar a morte também está presente na cultura japonesa. “Povoado do Moinho”, o último episódio do filme Sonhos (1992), do diretor japonês Akira Kurosawa, exibe o confronto entre a antiga concepção de morte, expressa nos ritos funerários do vilarejo, e a nova, ocidentalizada, representada por um forasteiro que assiste à cerimônia. O cortejo segue, alegre, pelas ruas do povoado. Crianças, jovens e adultos cantam e dançam durante todo o trajeto do enterro. Eles celebram a morte de uma das mulheres mais velhas da aldeia. O clima de festa surpreende o forasteiro, acostumado – como nós – à atmosfera sombria de boa parte da liturgia funerária ocidental. Um velhinho centenário, então, explica ao rapaz que é uma honra encontrar a morte depois de uma existência tão plena como a daquela mulher. Por isso, tal fato merece comemoração. A história mostra como o fato de morrer pode ser encarado com serenidade e satisfação, como uma homenagem à própria vida que terminou ali.
A morte já foi vista de modo mais familiar pelo Ocidente. E não faz tanto tempo assim. Até meados do século passado, era costume morrer em casa, cercado por parentes. “A família reunia-se em volta do leito para ouvir a última palavra daquele que estava morrendo”, afirma o historiador Eduardo Basto de Albuquerque, da Universidade Estadual Paulista, em Rio Claro. “Era um momento de despedida.” Não se ocultava das crianças a morte como se faz atualmente. O velório também era, na maioria das vezes, realizado em casa – tradição que ainda sobrevive em algumas cidades do interior do Brasil. “Existiam comidas típicas para a ocasião. Os parentes preparavam alguns pratos para receber os conhecidos que participavam do enterro. Havia, inclusive, cânticos e orações especiais para o momento”, diz Eduardo.
Com a morte tendo sido transferida para a impessoalidade dos hospitais, perdemos a noção da importância dos rituais funerários, que conferem um sentido ao sofrimento e à morte. A expulsão da morte da nossa intimidade, privando aquele que está prestes a morrer da nossa ternura e da nossa solidariedade nos momentos finais, é uma metáfora da negação da finitude que operamos em nossas próprias vidas. “Os rituais de morte estão presentes em todas as sociedades do planeta. Servem para a compreensão ‘social’ do fenômeno: ajudam a digerir o impacto provocado pela perda do outro e funcionam como fator de agregação daquela sociedade”, diz o antropólogo Guillermo Ruben, da Unicamp.
“Os rituais seculares foram esvaziados de sentimentos e significado”, escreveu o sociólogo alemão Nobert Elias, na arguta análise da experiência de morte nos dias de hoje, presente em A Solidão dos Moribundos. “O crescente tabu da civilização em relação à expressão de sentimentos espontâneos e fortes trava suas línguas e mãos. E os viventes podem, de maneira semiconsciente, sentir que a morte é contagiosa e ameaçadora; afastam-se involuntariamente dos moribundos”, afirmou. “Mas, para os íntimos que se vão, um gesto de afeição é talvez a maior ajuda, ao lado do alívio da dor física, que os que ficam podem proporcionar.”
O temor do “contágio” pela morte explica a solidão e a frieza das unidades de terapia intensiva, onde, muitas vezes, os doentes terminais morrem sem a possibilidade de dizer uma última palavra aos que amam e sem ninguém que lhe ofereça conforto espiritual. Claro que morrer assim dá muito medo. Estabelece-se aí um círculo vicioso: temos pânico da morte porque ela nos parece horrível e a tornamos muito mais horrível do que poderia ser porque nos afastamos dela – e de quem morre. O escritor budista Sogyal Rinpoche, autor de O Livro Tibetano do Viver e do Morrer, espantou-se quando visitou o Ocidente pela primeira vez, na década de 1970, e constatou a insensibilidade do atendimento aos doentes terminais. “O que me perturbou profundamente, e ainda continua a perturbar, é a quase inexistência de auxílio espiritual que há na cultura moderna para aqueles que vão morrer”, escreveu ele. “Cuidado espiritual não é luxo para poucos; é direito essencial de todo ser humano.”
No início dos anos 70, iniciou-se um movimento de humanização da medicina, principalmente no campo do atendimento aos pacientes terminais, que veio a se contrapor à frieza ainda dominante dos hospitais modernos. A enfermeira britânica Cicely Saunders inovou ao propor um atendimento multiprofissional aos pacientes portadores de câncer avançado, em locais chamados hospices. Nesses abrigos, o doente conta com os cuidados médicos e com a proximidade da família. Da equipe multiprofissional fazem parte também psicólogos e sacerdotes de diferentes religiões, prontos a oferecer assistência psicológica e espiritual. O “movimento hospice” incentivou a criação das unidades de cuidados paliativos, que funcionam ligadas aos hospitais, e do homecare, o atendimento domiciliar a pacientes terminais. A idéia é simples: tão fundamental quanto ter uma boa vida é gozar de uma morte mais humana, mais envolta em serenidade e ternura.
Eis o conceito, ainda tímido no meio médico mas bastante pertinente, de ortotanásia – a morte digna, sem abreviações desnecessárias e sem sofrimentos adicionais.
No Brasil, o pioneiro na divulgação dos cuidados paliativos foi o médico Marco Tullio de Assis Figueiredo, professor da Universidade Federal de São Paulo, antiga Escola Paulista de Medicina. Além de ter criado dois cursos voltados aos estudantes da área de saúde – um sobre Tanatologia (o estudo da morte) e outro sobre Cuidados Paliativos –, Marco Tullio implantou uma Unidade de Cuidados Paliativos no Hospital São Paulo. “Os estudantes de Medicina, em geral, nada aprendem em seus cursos sobre a morte e a dimensão do processo de morrer”, diz ele, que é sócio-fundador da Associação Internacional para Hospices e Cuidados Paliativos. “Por isso, vemos médicos tentando manter a vida do paciente a qualquer preço, mesmo que isso implique em mais sofrimento para o doente.” Tal prática é conhecida como distanásia, conceito que significa o prolongamento da agonia na tentativa de adiar a morte e de conseguir uma sobrevida sem qualquer qualidade – em oposição à ortotanásia.
A equipe multiprofissional de Marco Tullio também prevê o atendimento domiciliar. “Faço o possível para que meus pacientes morram em casa, próximos dos familiares. Procuramos, assim, resgatar as noções de humanidade e dignidade na morte que a medicina contemporânea perdeu”, afirma ele. Outras unidades de cuidados paliativos estão sendo criadas em diversas regiões do Brasil, mas ainda existe resistência, mesmo entre os médicos, em falar de morte.
Num esforço para reaproximar o tema do cotidiano de crianças, adolescentes, adultos e idosos, a equipe do Laboratório de Estudos sobre a Morte, da USP, preparou uma trilogia de vídeos chamada Falando de Morte. Cada episódio é dedicado a uma fase da vida. E a morte é vista como uma das etapas da existência. O objetivo é estimular discussões sobre o assunto na escola, na família, nos hospitais. “Falar da morte é transformá-la em aliada, conselheira, em uma presença natural”, afirma Ingrid Esslinger, integrante da equipe. “Lidar com ela de modo saudável significa ter mais realizações, finalizar mais tarefas e pedir mais perdões ao longo da vida. Só assim se vive de modo mais pleno e se pode morrer mais serenamente, rompendo com o hábito de deixar certas decisões para amanhã, depois de amanhã e assim por diante.”
Na filosofia oriental, existem práticas específicas de preparação para a morte. A principal delas é a meditação, que tem o objetivo de domar a mente, a ansiedade e as emoções negativas sempre – mas especialmente no momento em que a pessoa se aproxima da morte. A maior tranqüilidade dos orientais em relação à finitude se expressa também no maior respeito em relação aos velhos. As pessoas que se encaminham para o final da vida são respeitadas, incensadas. E, não raro, têm suas existências festejadas. Não são tornadas invisíveis e indesejáveis, como ocorre com freqüência no mundo ocidental.
Uma das imagens utilizadas na meditação para caracterizar os instantes finais da existência é a de uma bela atriz sentada em frente ao espelho. O último espetáculo está prestes a começar. Ela retoca a maquiagem e repassa a sua fala antes de pisar no palco pela última vez. Está preparada para a apresentação derradeira. Esse é o objetivo da meditação: adquirir a capacidade de manter a mente tranqüila e o espírito sereno no momento da morte, independente de quando e de como ela aconteça.
Reconcilie-se com a morte. Não por morbidez, não para se esquecer de viver, não porque seja bom deixar de existir. Mas simplesmente porque ela vai acontecer e não somente com você – mas com todos os que andaram, andam ou venham a andar sobre a Terra. A você e a mim, portanto, resta apenas aprender a conviver com ela. Encará-la de frente, compreendê-la, admiti-la. Em vez de escamoteá-la, negá-la, escondê-la. E, quem sabe, assim, sofrer menos com a visita que ela nos fará um dia e com os eventuais sinais da sua presença que ela já tenha plantado ao nosso redor. Desejo uma excelente vida para você, leitor. E uma boa morte.

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Enfrentando a morte de seu filho


fonte:grupocasulo
A importância da Educação para a Morte 
“ Quando alguém de quem eu gosto(…) desaparece do ângulo de visão com que o observava e da esfera de contato que me permitia tocar-lhe, quando deixo de escutar a sua voz e contar com a sua presença, é que eu verdadeiramente me apercebo do vazio arrasador que fica, do silêncio que me queima, das lágrimas que se soltam na solidão que me invade, da memória que rasga o espaço dorido da mente incomodada, da tristeza sombria que parece me arrebatar a alma, da insignificância das nossas impertinências e discussões, do quanto o aprecio e do muito que ficou por lhe dizer, ou por fazer… só então eu consigo intimamente compreender o que esse ser humano significa para mim e, eventualmente, o quanto eu realmente o amo!” ( texto retirado do livro O Desafio da Morte, Editorial Notícias, 1999, pág. 162).
  Morte. Palavra curta,fria,dura…Realidade dolorosa, tão difícil de enfrentar! É comum dizer-se que da morte nada se pode dizer (uma das razões apontadas é porque nunca ninguém voltou) para relatar. Cada um(a) de vós sabe na sua mente, e sente no seu coração, que não é assim. Por isso comecei este texto com algumas palavras que escrevi no livro citado. Por me parecerem aqui adequadas. São palavras sentidas, feitas de dor, sofrimento e lágrimas mas, também, de descoberta, de alento e de amor profundo.
  No seu percurso, quem não se deparou já com situações de morte de pessoas ou, até, com a eminência da sua própria morte? Seremos nós preparados, desde a infância, para lidar com estas experiências? Infelizmente, em geral, nem a família, nem a escola, os colegas ou os amigos, nos preparam para olhar de frente a morte. Então, quando ela um dia inevitavelmente nos visita, encontra-nos desprevenidos e impreparados. Nós somos “ensinados” a reconhecer o prazer, a conviver com as coisas agradáveis, a labutar pela “felicidade” mas, não somos educados para a morte nem, tão pouco, para o excelso sentido da vida. Neste contexto, é muitíssimo relevante o papel desempenhado pela Associação “A Nossa Âncora”, que eu aqui enalteço.
  Recebi há pouco o n° 12 da “Amarra” e, mais uma vez, fiquei impressionado com cada um dos testemunhos aí incluídos, com a sua sinceridade, sensatez, força expressiva e sentido amoroso. Eu sou agora pai de um lindo menino e,se tentar imaginar o que representaria para mim a sua morte, penso que me sentiria no mínimo destroçado. Eis um dos pontos que aqui vou, sucintamente abordar: é normal ficarmos muito tristes e emocionalmente arrasados com a morte de alguém que nos é muito próximo ( até o próprio Cristo, na sua face humana, chorou com a morte de Lázaro). O maior desafio surge depois (caso não tenhamos refletido sobre isso anteriormente), em perguntas como: e agora? O que fazer com o que sinto? Como reagir? Como estar com outra pessoas se não quero ver ninguém?
  É preciso afirmar bem alto: em primeiro lugar, é importante que quem passou por uma experiência de morte, sinta que pode deixar fluir a tristeza, chorar se houver vontade para isso, mostrar a sua revolta… exprimir a sua dor e o seu luto… sem ser criticado, silenciado, maltratado ou afastado (familiar e socialmente). Assim preveniremos traumas – psicológicos e sociológicos – que acabam, inevitavelmente, por ter uma repercussão física – a que chamamos doença. O sofrimento não é vergonhoso; ao invés, constitui, invariavelmente, uma oportunidade de aprendizagem. Precisamos aprender a escutar, criar laços de proximidade e de intimidade. Quanto vale um simples sorriso, um dar a mão, um abraço fraterno! Em muitos momentos, mais importante do que dizer alguma coisa, é preciso “estar lá” e, até através do olhar ou mesmo da postura mais simples e altruísta, mostrarmos que estamos disponíveis (para o modo como a outra pessoa quiser comunicar).
  Depois, passada a fase em que as emoções afloram abruptamente, é necessário entender o significado que estas ocultam (acerca de nós e do outro), ajudar a transmutar a tristeza, compreender o que é a morte e alcançar a serenidade. Qualquer pessoa pode aprender e auxiliar outrem a crescer. É vital que trabalhemos, conjuntamente, num plano de educação para a morte, assim como se tenta educar para a vida.
  Tudo é relativo e tudo se transforma, ciclicamente. Existe uma continuidade no tempo (que a morte parece negar), bem como entre a matéria e a energia, e entre o físico e o espiritual. Tudo o que existe, são diferentes formas de energia, mais ou menos sutis, expressáveis ou não em estruturas mais densas e visíveis. O que só é possível pela presença de um mediador entre os dois polos (assim unificados): a consciência. Eis algo que nos distingue como seres humanos – a capacidade de autoconsciência e de trabalhar, criativamente, com a inteligência.
  A morte, como a vida, é uma presença constante. Nós podemos continuar a gostar de alguém ainda que não o vejamos durante muitos anos. A morte não nos impede de amar nem de sonhar. O que é fugaz e forçado desaparece. Mas o que é forte e verdadeiro… como pode deixar de ser imortal? Não estamos separados daqueles que amamos. Conseguirá alguém negar que as emoções e as ideias que “apalpa”, não são, em si mesmas, algo de substancial e real?
  A morte pode nos levar a autoreflexão, tornar-nos mais fortes e corajosos. Se “fizermos girar o mundo a nossa volta”, esquecemos o quão limitados, pequenos e, às vezes, mesquinhos, somos. Mas poderemos ser grandes em lucidez, altruísmo, bondade e empenhamento. Se a culpa, o sofrimento, a dor, a morte são situações tantas vezes inevitáveis ou inalteráveis, no dia-a-dia, porque não aceitá-las, pensar e aprender com elas, quando estamos bem? Assim como aprendemos a ler, a caminhar, a nadar, trabalhar. Caso contrário, elas irão aterrorizar-nos e retrair-nos, tornando-se difícil entendê-las. Porque não falar natural e tranquilamente da morte, das atitudes a ter e do modo de agir, individual e socialmente, sem máscaras, na realidade?
  A consciência da morte ajuda-nos a valorizar a vida, a integrar a beleza magnificente da nossa preciosa existência. E proceder, em relação a cada coisa e a cada ser, sem adiamentos, respeitosamente, e sempre da forma que pensamos ser a mais adequada. Cada momento, por mais ínfimo que pareça, é único, irrepetível e inolvidável! E cada ser humano é também único, insubstituível e incomparável! Podemos sacralizar o mais possível cada momento. Podemos expressar, o melhor possível o que pensamos e sentimos, a cada ser humano que nos é próximo.
  Uma vivência (educativa) da morte, poderá levar a uma vida mais calma, intensa, tolerável, realmente alegre e digna, plena de sentido e solidária com todos os seres. Mais cedo ou mais tarde, temos que optar entre educar para a morte, para a simplicidade, para a autenticidade ou, então, educar na ignorância da morte, para a “felicidade” fátua e para a mentira.
  Entre o nascer e o morrer, aquém e além destes polos, existe o viver. É fundamental ajudarmos todo ser humano, começando pelas crianças, a descobrir e a enriquecer o seu fantástico mundo interior com vivências que tornem menos duras e menos só a hora da morte.
“ Para que as crianças nasçam como seres humanos e vivam como pessoas, antes que as matem ou que se matem como seres sensíveis e inteligentes”, como disse o Profº João Santos. Para que exista verdadeira paz, para que se respeite a vida e as crianças se tornem adultas responsáveis e esclarecidas. Eis o sentido em que mais necessitamos de cooperar e trabalhar: na educação. E o que é educar senão uma forma de amar?
Abílio de Oliveira
Texto retirado da revista A Amarra do grupo A Nossa Ancora 

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Como Você está utilizando seu tempo?

O tempo…
 
Como diz o ditado: “Nunca deixe para amanhã o que pode fazer hoje”, pois o tempo passa depressa; urge… pede, sugere!
 
Pede que você faça, acredite, que lute por seus sonhos, pelos seus ideais. Instiga que você busque constantemente a felicidade e a harmonia em meio a esta vida tao frenética que tentamos administrar e que nos reconciliemos conosco e com os outros.
Tempo Dipinto di Vladimir Volegov
 
O tempo…
 
Tenta nos mostrar através dos sinais, que a vida para todos é feita de ciclos, de altos e baixos, de ganhos e perdas; e embora as coisas aconteçam, o tempo vai continuar nos compelindo à solução de nossas questões, de nossos conflitos, da superação de antigas querelas.
 
A cada manhã, quando o sol desponta, nos é dado um novo dia, uma nova oportunidade de refletir, para mudar… 
 
É momento de reconciliação, de novas propostas, de dar carinho a si mesmo, de se perceber como pessoa em constante processo, em devir. Nada para, tudo está em constante mudança, acompanhe o passo…no seu ritmo vibracional.
 
Inspire-se, escute sua voz interior.
 
O tempo…
 
Como você  está aproveitando o seu tempo?
 
No passar das luas, é preciso intuir o que realmente importa, o que realmente tem valor e isto é sempre de ordem pessoal. Estabeleça suas prioridades dentro de sua proposta de vida. 
 
HOJE é o dia de agir.
 
Para refletir:
 
O que nos traz felicidade  são coisas simples.
 
Portanto, ame, abrace, agradeça, escute as ondas do mar, doe a si mesmo alguns minutos do seu tempo a reflexão sobre sua caminhada aqui. De o prazer de estar consigo mesmo, de se sentir inteiro, na sua própria presença, em completude. 
 
Tem pessoas que vivem presas ao passado, 
outras vivem se projetando no futuro. 
 
A vida é hoje, agora e não se repete nunca. 
 
Ultrapasse fases pendentes, se presentifique, deixe-se fluir em momentos de completude com sua própria e eterna companhia. 
 
E entao: como voce está utilizando o seu tempo?
 
Amanhã pode ser tarde demais…
 
Hoje é o dia, portanto, Viva agora!


Soraya Rodrigues de Aragão
fonte: alquimia da vida