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sexta-feira, 27 de junho de 2014

Partida e chegada


Quando observamos, da praia, um veleiro a afastar-se da costa navegando mar adentro, impelido pela brisa matinal, estamos diante de um espetáculo de beleza rara. O barco, impulsionado pela força dos ventos, vai ganhando o mar azul e nos parece cada vez menor. Não demora muito e só podemos contemplar um pequeno ponto branco na linha remota e indecisa, onde o mar e o céu se encontram.
Quem observa o veleiro sumir da linha do horizonte, certamente exclamará: “já se foi”. Terá sumido? Evaporado? Não, apenas o perdemos de vista. O barco continua do mesmo tamanho e com a mesma capacidade que tinha quando estava próximo de nós. Continua tão capaz quanto antes de levar ao porto de destino as cargas recebidas. O veleiro não evaporou, apenas não o podemos mais ver.
Mas ele continua o mesmo. E talvez, no exato instante em que alguém diz “já se foi”, haverá outras vozes, mais além, a afirmar: “lá vem o veleiro”. Assim é a morte.
Quando o veleiro parte, levando a preciosa carga de um amor que nos foi caro, e o vemos sumir na linha que separa o visível do invisível. O ser que amamos continua o mesmo, suas conquistas persistem dentro do mistério divino. Nada se perde, a não ser o corpo físico de que não mais necessita. E é assim que, no mesmo instante em que dizemos: “já se foi”, no além, outro alguém dirá: “já está chegando”.Chegou ao destino levando consigo as aquisições feitas durante a vida.
Na vida, cada um leva sua carga de vícios e virtudes, de afetos e desafetos, até que se resolva por desfazer-se do que julgar necessário. A vida é feita de partidas e chegadas. De idas e vindas. Assim, o que para uns parece ser a partida, para outros é a chegada.
(Parábola contada pelo rabino Henry Sobel por  ocasião da morte do governador Mário Covas.)
Fonte: Sala de Espera
      

sexta-feira, 20 de junho de 2014

DIGA O NOME DELA Francisco Goldman


Em 2005, o escritor e professor norte-americano Francisco Goldman se casou com Aura Estrada, uma jovem e promissora estudante de literatura. Pouco antes de o casamento completar dois anos, durante as férias numa praia do México, Aura quebrou o pescoço após ser tragada por uma onda.
Responsabilizado pela morte de Aura e mortificado pela culpa, Francisco entregou-se ao desespero. Passava os dias sem rumo, bebendo e flertando com a catatonia, a depressão, o suicídio. Para vencer a crise, escreveu Diga o nome dela, um romance sobre o amor e a dor da perda.
Viúvo, o autor começou a colecionar tudo que podia sobre a mulher: seus diários, suas roupas, a bolsa que levara à praia no dia fatídico, o xampu que ela costumava usar. Qualquer objeto relacionado a Aura tornava-se uma forma de montar um quebra-cabeça de lembranças.
Da infância da garota e sua adolescência na cidade do México até os estudos na Universidade de Columbia, dos dias de recém-casados em Nova York às viagens pelo México e pela Europa, a história de Aura é recuperada em detalhes pontuados de tristeza e saudades. Sempre pelo prisma das anotações e textos inacabados de Aura, Goldman elabora a ausência e tenta se adaptar à solidão.
Diga o nome dela é uma história sobre o luto - uma mostra pungente de que só com a organização da memória é possível driblar a falta de sentido e reafirmar o desejo de seguir adiante.


“Uma obra-prima da narrativa.” - Colm Tóibín, The Guardian 
“Uma elegia a uma jovem brilhante e à infinita força do amor.” - Junot Diaz,New York Magazine
Javier Lira Otero/AFP
fonte: companhia das letras

sexta-feira, 13 de junho de 2014

SAÚDE MENTAL



Fui convidado a fazer uma preleção sobre saúde mental. Os que me convidaram supuseram que eu, na qualidade de psicanalista, deveria ser um especialista no assunto. E eu também pensei. Tanto que aceitei. Mas foi só parar para pensar para me arrepender. Percebi que nada sabia. Eu me explico.
Comecei o meu pensamento fazendo uma lista das pessoas que, do meu ponto de vista, tiveram uma vida mental rica e excitante, pessoas cujos livros e obras são alimento para a minha alma. Nietzsche, Fernando Pessoa, van Gogh, Wittgenstein, Cecília Meireles, Maikóvski. E logo me assustei. Nietzsche ficou louco. Fernando Pessoa era dado à bebida. van Gogh se matou. Wittgenstein se alegrou ao saber que iria morrer em breve: não suportava mais viver com tanta angústia. Cecília Meireles sofria de uma suave depressão crônica. Maiakóvski suicidou.
Essas eram pessoas lúcidas e profundas que continuarão a ser pão para os vivos muito depois de nós termos sido completamente esquecidos.
Mas será que tinham saúde mental? Saúde mental, essa condição em que as idéias se comportam bem, sempre iguais, previsíveis, sem surpresas, obedientes ao comando do dever, todas as coisas nos seus lugares, como soldados em ordem unida, jamais permitindo que o corpo falte ao trabalho, ou que faça algo inesperado, nem é preciso dar uma volta ao mundo num barco a vela, basta fazer o que fez a Shirley Valentine (se ainda não viu, veja o filme!), ou ter um amor proibido ou, mais perigoso que tudo isso, que tenha a coragem de pensar o que nunca pensou. Pensar é coisa muito perigosa...
Não, saúde mental elas não tinham. Eram lúcidas demais para isso. Elas sabiam que o mundo é controlado pelos loucos e idiotas de gravata. Sendo donos do poder, os loucos passam a ser os protótipos da saúde mental. É claro que nenhuma mamãe consciente quererá que o seu filho seja como van Gogh ou Maiakóvski. O desejável é que seja executivo de grande empresa, na pior das hipóteses funcionário do Banco do Brasil ou da CPFL. Preferível ser elefante ou tartaruga a ser borboleta ou condor. Claro que nenhum dos nomes que citei sobreviveria aos testes psicológicos a que teria de se submeter se fosse pedir emprego. Mas nunca ouvi falar de político que tivesse stress ou depressão, com excessão do Suplicy. Andam sempre fortes e certos de si mesmos, em passeatas pelas ruas da cidade, distribuindo sorrisos e certezas.
Sinto que meus pensamentos podem parecer pensamentos de louco e por isso apresso-me aos devidos esclarecimentos.
Nós somos muito parecidos com computadores. O funcionamento dos computadores, como todo mundo sabe, requer a interação de duas partes. Uma delas se chama hardware, literalmente coisa dura e a outra se denomina software, coisa mole. A hardware é constituída por todas as coisas sólidas com que o aparelho é feito. A software é constituída por entidades espirituais - símbolos, que formam os programas e são gravados nos disquetes.
Nós também temos um hardware e um software. O hardware são os nervos, o cérebro, os neurônios, tudo aquilo que compõe o sistema nervoso. O software é constituído por uma série de programas que ficam gravados na memória. Do mesmo jeito como nos computadores, o que fica na memória são símbolos, entidades levíssimas, dir-se-ia mesmo espirituais, sendo que o programa mais importante é linguagem.
Um computador pode enlouquecer por defeitos no hardware ou por defeitos no software. Nós também. Quando o nosso hardware fica louco há que se chamar psiquiatras e neurologistas, que virão com suas poções químicas e bisturis consertar o que se estragou. Quando o problema está no software, entretanto, poções e bisturis não funcionam. Não se conserta um programa com chave de fenda. Porque o software é feito de símbolos, somente símbolos podem entrar dentro dele. Assim, para se lidar com o software há que se fazer uso de símbolos. Por isso, quem trata das perturbações do software humano nunca se vale de recursos físicos para tal. Suas ferramentas são palavras, e eles podem ser poetas, humoristas, palhaços, escritores, gurus, amigos e até mesmo psicanalistas.
Acontece, entretanto, que esse computador que é o corpo humano tem uma peculiaridade que o diferencia dos outros: o seu hardware, o corpo, é sensível às coisas que o seu software produz. Pois não é isso que acontece conosco? Ouvimos uma música e choramos. Lemos os poemas eróticos do Drummond e o corpo fica excitado.
Imagine um aparelho de som. Imagine que o toca-discos e acessórios, o software, tenha a capacidade de ouvir a música que ele toca, e de se comover. Imagine mais, que a beleza é tão grande que o hardware não a comporta, e se arrebenta de emoção! Pois foi isso que aconteceu com aquelas pessoas que citei, no princípio: a música que saía do seu software era tão bonita que o seu hardware não suportou.
A beleza pode fazer mal à saúde mental. Sábias, portanto, são as empresas estatais, que têm retratos dos governadores e presidentes espalhados por todos os lados: eles estão lá para exorcizar a beleza e para produzir o suave estado de insensibilidade necessário ao bom trabalho.
Dadas essas reflexões científicas sobre a saúde mental, vai aqui uma receita que, se seguida à risca, garantirá que ninguém será afetado pelas perturbações que afetaram os senhores que citei no início, evitando assim o triste fim que tiveram.
Opte por um software modesto. Evite as coisas belas e comoventes. Cuidado com a música. Brahms e Mahler são especialmente perigosos. Já o roque pode ser tomado à vontade, sem contra indicações. Quanto às leituras, evite aquelas que fazem pensar. Há uma vasta literatura especializada em impedir o pensamento.  Os jornais têm o mesmo efeito. Devem ser lidos diariamente. Como eles publicam diariamente sempre a mesma coisa com nomes e caras diferentes, fica garantido que o nosso software pensará sempre coisas iguais. A saúde mental é um estômago que entra em convulsão sempre que lhe é servido um prato diferente. Por isso que as pessoas de boa saúde mental têm sempre as mesmas idéias. Essa cotidiana ingestão do banal é condição necessária para a produção da dormência da inteligência ligada à saúde mental. 

Seguindo esta receita você terá uma vida tranquila, embora banal. Mas como você cultivou a insensibilidade, você não perceberá o quão banal ela é. E, ao invés de ter o fim que tiveram os senhores que mencionei, você se aposentará para, então, realizar os seus sonhos. Infelizmente, entretanto, quando chegar tal momento, você já não mais saberá como eles eram.

(Provavelmente escrito em 1994)

Rubem Alves
fonte:http://www.rubemalves.com.br/10mais_10.php

sexta-feira, 6 de junho de 2014

A vida passa em uma fração de segundos...



Há momentos na vida que temos que abrir mão de tudo que fazia sentido, das nossas verdades e do que reputávamos como sendo os nossos valores. Constatamos que eles se tornaram inúteis ao nosso crescimento, já fazem parte do passado e a vida, não se detém olhando para trás, antes, caminha para a frente, em busca de novos acontecimentos. 

Há momentos na vida que todas as vigas mestras que asseguravam a nossa sustentação vêm abaixo e a casa cai, independente da nossa tácita recusa ou inaceitação. 

Há momentos na vida que ficamos sem saber para onde ir, que nada consegue nos alegrar, motivar ou seduzir e, em compasso de espera, vamos assistindo a fragmentação das nossas estruturas, agora transformadas em quimeras. 

Nestes momentos ( que têm o peso de uma eternidade), nada nem ninguém pode fazer nada por nós ... estamos definitivamente vazios e sós. 

Em meio à dor, esmiuçamos o que sobrou de nós, remexemos entre os escombros e descobrimos que algo ainda não morreu. 

Tênue e frágil, lá está uma pequena centelha de esperança, aguardando uma virada do destino, que certamente nos surpreenderá com novas alegrias ... e com tantos outros desatinos. 


Fátima Irene Pinto 
fonte: grupo casulo