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sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Laços e Lutos



Sobre dores solitárias
(Teresa Gouvea)

E, nos dias de dor tamanha,
por favor, me dê apenas ouvidos,
não fale das suas dores, não fale das notícias,
não fale do mundo lá fora,
não me traga receitas para dores únicas,
me empreste seus ouvidos para a escuta,
seu coração generoso para estacionar os relógios,
me convide para um café,
puxe uma cadeira confortável,
me sirva tempo e atenção...
os dias passaram, quase todo mundo foi embora,
fiquei só, o lugar vago permaneceu apenas no meu quintal,
sim, as pessoas voltaram para suas miudezas cotidianas,
ainda não sabem dessas saudades particulares,
despedidas lentas, dias silenciosos, noites insones...
(Teresa Gouvea)

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Com Medo de Ser Feliz


5 de agosto de 2012
por Flávio Gikovate
O encontro amoroso pleno é o sonho da maioria das pessoas que tenho conhecido. E como são poucas as que chegam lá! Será por coincidência? Seriam as dificuldades externas – obstáculos de todo tipo – que impediriam a realização do amor?
Não acredito em nada disso. Penso que existe um “fator antiamor” presente em nossa mente.
Trata-se do medo, que é derivado de várias fontes. A mais óbvia delas é a relacionada com a dependência. Sim, porque é absolutamente impossível amar sem depender, sem ficar na mão do ser amado. Se ele fizer mau uso disso, acabará nos impondo grande sofrimento e dor.
É por isso que muitas pessoas preferem renunciar à entrega amorosa. Preferem ser amadas em vez de amar. Pode parecer esperteza, mas na realidade é covardia.
Além da dependência, há vários medos relacionados à experiência do amor. Vou me dedicar a mais um, talvez mais importante que os outros. É o medo da felicidade.
Nada faz uma pessoa tão feliz quanto a realização amorosa. Quando estamos ao lado do amado, a sensação é de plenitude, de paz. O tempo poderia parar naquele ponto, pois todos os nossos desejos teriam sido satisfeitos.
No entanto, logo depois da euforia surge a inquietação, acompanhada de um nervosismo vago e indefinido. Parece que alguma desgraça está a caminho, aproximando-se a passos largos. Temos a impressão de que é impossível preservar tamanha felicidade. Não adianta nem mesmo seguir os rituais supersticiosos: bater na madeira, fazer figa… Aliás, tais atitudes derivam justamente da incredulidade que nos domina quando as coisas vão bem demais em qualquer setor da vida.
Deixando de lado as importantes questões teóricas relacionadas à existência desse temor, podemos dizer que o medo da felicidade tem como base o receio de sua futura perda. Quanto mais contentes e realizados nos sentimos, tanto mais provável nos parece o fim desse “estado de graça”.
Segundo um estranho raciocínio, as chances de ocorrerem coisas dolorosas e frustrantes aumentam muito quando estamos felizes. O perigo cresce proporcionalmente à alegria. Dessa forma, à sensação de plenitude vai se acoplando o pânico.
Então o que fazemos? Afastamo-nos deliberadamente da felicidade. Cometemos bobagens de todo tipo: arrumamos um modo de magoar a pessoa amada, de inventar problemas que não existem ou exageramos a importância dos pequenos obstáculos.
Escolhemos parceiros inadequados, prejudicando às vezes outras áreas importantes da vida: saúde, trabalho, finanças. Para reduzir os riscos de uma hipotética tragédia, procuramos um jeito de apagar nossa alegria. Enfim, criamos uma dor menor com o objetivo de nos proteger de uma suposta dor maior.
O medo de perder o que se alcançou existe em todos nós. Porém, gostaria de registrar com ênfase que a felicidade não aumenta nem diminui a chance de fatos negativos acontecerem. Trata-se apenas de um processo emocional muito forte, mas que não corresponde à verdade. Felicidade não atrai tragédias! É só uma impressão psíquica.
O que fazer para nos livrarmos dessa vertigem simbólica que torna a queda inevitável? Como sair do impasse e ter forças para enfrentar o amor?
Só há uma saída, já que não se conhece a “cura” do medo da felicidade. É preciso diminuir o medo da dor. Assim, ganharemos coragem para lidar com situações que geram alegria e prazer.
Perder o receio de sofrer é necessário até porque a felicidade poderá de fato acabar. Não tem cabimento, porém, deixar de experimentá-la, pensando apenas nessa eventualidade.
Todo indivíduo que andar a cavalo estará sujeito a cair. Só terá certeza de evitar acidentes quem nunca montou. Isso, repito, é covardia e não esperteza.
Reconhecer em si forças suficientes para suportar a queda e ter energias para se reerguer mostra coragem e serenidade. Uma pessoa é forte quando sabe vencer a dor.
Trata-se de um requisito básico para o sucesso em todas as áreas da vida, inclusive no amor. Ninguém gosta de sofrer, mas não é moralismo religioso dizer que superar as frustrações é a conquista mais importante para quem quer ser feliz.
Você deseja a realização de seus sonhos? Então, tem de correr o risco de cair e se sentir capaz de sobreviver à dor de amor!

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Vivenciar um luto profundo por muito tempo é sinal de transtorno?

Anne Schomaker exibe foto dela com seu marido, em Nova York
foto de 
Karsten Moran/The New York Times


fonte: The New York Times
Ela cuidou do marido durante os últimos oito anos da vida dele, quando ficou cego, teve câncer e problemas cardíacos. Depois que ele morreu em 2002, ela vendeu a casa em Long Island que os dois dividiam e tanto amavam, pois o lugar guardava muitas memórias. Depois disso, se mudou para sua casa de campo, no interior de Nova York.
Os amigos acharam que Anne Schomaker estava lidando bem com a perda, recorda. "Eu fazia trabalho voluntário, pra sair de casa e fazer alguma coisa, para preencher as lacunas. Eu tinha muitos interesses". Ela viajou e até tentou encontrar um novo namorado.
"Mas eu não estava nada bem", afirmou Anne, de 73 anos. "Tinha surtos terríveis de tristeza e desânimo. Sentia muita saudade do meu marido."
Mesmo depois de fazer terapia, o que ajudou um pouco, ela tinha pesadelos e não suportava ouvir as árias das óperas prediletas do casal. "A dor simplesmente não passava", contou.
A morte de um ente querido muitas vezes traz consigo uma tristeza profunda. Entretanto, geralmente o luto mais profundo vai desaparecendo à medida que os meses vão passando, e as pessoas começam a alternar entre a tristeza e a capacidade de redescobrir os prazeres da vida.
O que destacava o sofrimento de Anne era sua duração. O luto fazia parte de sua vida há nove anos quando ela viu um anúncio da Universidade de Columbia no qual os pesquisadores que haviam desenvolvido um tratamento para o "luto com complicações" buscavam participantes para um estudo.
Talvez essa abordagem possa ajudar, pensou Anne.
O luto prolongado ou com complicações pode atingir qualquer pessoa, mas é especialmente problemático entre os idosos, já que eles passam por tantas perdas – cônjuges, os pais, irmãos, amigos. "O luto é resultado da perda. Pessoas com mais de 65 enfrentam perdas muito maiores", afirmou a Dra. Katherine Shear, psiquiatra e líder do estudo na Universidade de Columbia.
Em um artigo publicado na revista The New England Journal of Medicine este ano, Katherine listou diversos sintomas característicos do luto com complicações: saudades intensas, ocorrência preocupante de pensamentos e memórias, além da incapacidade de aceitar a perda e imaginar o futuro sem a pessoa que morreu.
Com frequência, os enlutados que apresentam esses sintomas acreditam que se tivessem feito algo diferente, poderiam ter evitado a morte do ente querido. Mais severo e prolongado, quando comparado às reações típicas, o luto com complicações impede o funcionamento adequado do indivíduo.
"Adaptar-se à perda é uma parte importante do luto", afirmou Katherine, diretora do Centro de Pesquisa do Luto com Complicações na Faculdade de Serviço Social da Universidade de Columbia. "Alguma coisa atrapalha a adaptação das pessoas que sofrem do luto com complicações. Alguma coisa impede o curso natural da recuperação".
Esse luto prolongado é comum? Um estudo epidemiológico envolvendo 2.500 pessoas, realizado na Alemanha em 2009, afirma que a proporção total é de cerca de sete por cento, chegando a nove por cento entre as pessoas com mais de 61.
George A. Bonanno, diretor do Laboratório de Perda, Trauma e Emoção do Teachers College, na Universidade de Columbia, afirmou que o volume real deve estar mais próximo de 10 a 15 por cento.
Bonanno, autor do livro "The Other Side of Sadness: What the New Science of Bereavement Tells Us About Life After Loss" (O outro lado da tristeza: O que a nova ciência do luto nos conta sobre a vida após a perda), argumenta que a adaptação é a reação típica após a morte de entes queridos. Ainda assim, destaca, "sempre vemos um grupo de pessoas incapaz de se recuperar".
O problema parece ser mais provável quando a morte é repentina ou violenta; quando a pessoa que morreu é um cônjuge, namorado ou filho; e quando o paciente tem histórico de tendência à depressão, ansiedade e uso de substâncias químicas.
A definição desse tipo de luto é motivo de discordância entre alguns profissionais da área. Quais critérios distinguem o luto com complicações da depressão ou da ansiedade? Quando o luto normal passa a ser longo demais? Os pesquisadores discordam até mesmo do nome da condição.
Na última versão de seu Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, a Associação Psiquiátrica Americana se negou a classificar o luto com complicações como um Transtorno Mental, incluindo ao invés disso o "transtorno persistente complexo relacionado ao luto" na lista de temas que exigem estudo posterior.
A quinta edição do Manual, publicada em 2013, estabelece o limite de 12 meses para considerar que os sintomas do luto intenso sejam considerados um transtorno, embora Katherine e outros pesquisadores proponham um limite de apenas seis meses.
Alguns especialistas argumentam que as evidências não são suficientes para assegurar uma distinção clara entre um processo de luto mais demorado que o normal e um distúrbio mental. "A psiquiatria precisa mesmo rotular emoções humanas perfeitamente normais como transtornos?", questionou Jerome C. Wakefield, professor de Serviço Social e Psiquiatria na Universidade de Nova York, durante uma entrevista.
Ao diagnosticar o luto com complicações apenas seis meses depois de uma morte, afirmou, "muitas pessoas normais vão receber tratamentos desnecessários", incluindo medicamentos.
Katherine também se preocupa com a "patologização" de emoções normais. Mas quando uma mulher é incapaz de sair de casa ou de atender o telefone quatro anos depois da morte de um filho adulto, como foi o caso de uma paciente, alguma coisa obviamente deu errado.
"Se você se preocupa com o que está sentido, se não se importa mais com a vida e se as pessoas ao seu redor dizem para você parar de se fechar, por que não procurar ajuda?", questionou ela.
Em um estudo clínico, a terapia para combater o luto com complicações, desenvolvida por seu centro, demonstrou uma maior eficácia entre os idosos, quando comparada a psicoterapia interpessoal.
Os envolvidos, incluindo Anne Schomaker, receberam uma escala de afirmações que mensuravam a reação à perda, indo de "Eu penso tanto sobre essa pessoa que às vezes é difícil fazer as coisas do dia a dia" e "Eu acho que a vida é vazia sem a pessoa que morreu". As notas mais altas eram um indicativo do luto com complicação.
Cerca de metade dos 151 envolvidos (média de idade: 66 anos) havia perdido um cônjuge ou parceiro, mais de um quarto havia perdido o pai ou a mãe. Mais de três anos haviam se passado, em média, desde as mortes. A maior parte dos envolvidos relatou que havia considerado o suicídio.
Eles foram aleatoriamente divididos entre 16 sessões semanais de terapia de luto com complicações -- focadas especificamente em sintomas de luto, incorporando memórias, fotografias e gravações -- e psicoterapia interpessoal.
Ambos os tratamentos ajudaram, mas no grupo que recebeu a terapia de luto com complicações, mais de 70 por cento dos pacientes se sentiu "melhor" ou "muito melhor" em relação à gravidade dos sintomas, comparados a 32 por cento dos envolvidos no grupo de psicoterapia padrão. Um estudo mais amplo realizado em quatro lugares que ainda não foi publicado revelou um grau de eficácia similar, afirmou Katherine.
Para que o método se torne mais comum, o Centro de Luto com Complicações publicou um manual e oferece workshops de treinamento para terapeutas; os membros da equipe tiram dúvidas e respondem perguntas de pacientes e terapeutas de todo o país.
Darlyn Reardon, de Ross Township na Pensilvânia (EUA), por exemplo, buscou a terapia de luto com complicações no Centro Médico da Universidade de Pittsburgh, em 2011. Depois que seu marido, com quem era casada há 40 anos, morreu de câncer, "foi como se eu também tivesse morrido", contou.
Sete anos se passaram e "eu não cuidava mais de mim. Não ia ao médico e parei de ir à igreja. Nós tínhamos um grupo de amigos, mas me afastei deles. Me afastei de tudo".
Darlyn, de 72 anos, sempre sentirá falta do marido, John, que era bombeiro. Mas agora ela consegue se divertir ao assistir um filme, comer com a prima, ficar com seu pug de estimação, chamado Lovey, ou passar um tempo em companhia dos netos adolescentes.
Anne também se sente recuperada. Voluntária, frequentadora de museus e com uma vida social agitada, ela é grata pela terapia de luto com complicações que recebeu.
"Isso faz a gente pensar sobre a perda de outra maneira. O tratamento nos encoraja a seguir adiante, porque há muita felicidade no nosso caminho."

domingo, 6 de setembro de 2015

Mães em luto

Saiu o livro Mães em Luto! 


O livro é fruto do trabalho de pesquisa e de extensão das Professoras Doutoras Maria Virginia Filomena Cremasco e Joanneliese de Lucas Freitas junto aos alunos de graduação e pós-graduação do Departamento de Psicologia da Universidade Federal do Paraná com a participação e a colaboração da comunidade, por intermédio do grupo de ajuda mútua “Amigos Solidários na Dor do Luto”. O estudo desvela as facetas da realidade do luto materno, seus tabus e novas possibilidades de sentido que podem inesperadamente se abrir diante de tamanha dor.
A obra apresenta a experiência do luto materno a partir do olhar da psicanálise e da psicologia fenomenológico-existencial. São dois olhares que, apesar de diferentes, contribuem de forma suplementar para a compreensão de um fenômeno tão complexo.
Este trabalho abre espaço para que o sofrimento das mães em luto possa ser ouvido onde a morte e o luto são considerados como um tabu. Refletir sobre o enlutamento é não apenas uma tentativa de compreensão deste fenômeno do ponto de vista teórico, mas, também, um empreendimento que oportuniza a compreensão desta experiência para além de olhares patologizantes, no qual a sua expressão pode possibilitar que os sentidos dessa vivência, tão marcante e arrebatadora, possam ser, também, uma possibilidade de transformação.

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