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sexta-feira, 31 de agosto de 2012

A dor do luto



O luto como já dito, carrega em si a dor, viver é estar em constante luto e elaboração do mesmo. Essa elaboração é a ponte que nos leva da dor ao prazer. Luto é aprendizagem, é experiência. O luto nos torna humanos, que sabemos, somos mortais. portanto, a morte é nossa fiel amiga e não podemos fugir dessa fidelidade. Ela pode ser ludibriada, se postergada, atrasada, mas nunca deixará de vir ao nosso encontro, como disse ela é fiel e cumpre o que promete, cedo ou tarde. Ela nunca deixa de estar presente, para nos mostrar como num espelho, nosso corpo a todo tempo desnudado pelo real. O real é a própria morte, são as perdas, os fracassos, as decepções, as frustrações, as amputações do desejo. Entretanto, o real nos pega mesmo a contra gosto, e por vezes nos mostra exatamente o contrário, que tudo tem um fim, que tudo isso não passa de um conto de fadas. O castelo de cartas cai por terra. Dor, sofrimento, luto.

A elaboração do luto é a aceitação da realidade tal como ela é, nua e crua. É aprender a viver com a ausência, com uma perda, buscando algo novo que nos vá preencher. Nunca é claro, o mesmo preenchimento, apenas um novo. O luto é da morte, não da vida. O que morre são partes de nós, o todo continua vivo. Assim como, a cada dia milhares de células morrem em nosso corpo, porém, milhares nascem para manter o todo nas melhores condições possíveis, e pelo maior tempo possível.


Gratidão na morte

Diante da morte do outro nos entristecemos, sofremos e choramos, não pelo morto, mas por nós mesmos, pela falta que ele nos fará. Se pensarmos que a morte é o nada, é o vazio absoluto, pelo o que choramos?  Se pensarmos no vazio que a morte trouxe, pelo o que choramos? Para a primeira questão talvez não haja solução, pelo fato de não termos acesso. Para a segunda, a simples aceitação de que um vazio foi deixado, porque o outro ocupava sim um espaço dentro de nós, mas apesar disso, continuamos vivos. E o que nos conforta, é que o outro teve seu instante na eternidade e fez a diferença enquanto existia. Mas que o nosso instante ainda não acabou, e clama por ser bem aproveitado.
É sábio aquele que elicia lembranças felizes do que foi. É sábio e ao mesmo tempo feliz, aquele que agradece o que, ou quem o influenciou para estar onde está. Tudo o que não é, um dia pode ter sido, e por isso, fez parte de nossa vida. Todas as nossas perdas, mortes, fracassos, frustrações e decepções, fazem parte deste hall a ser agradecido.
Tudo é uma questão de escolha: o sofrimento da perda do que um dia foi, o pesar por aquilo que nunca aconteceu, ou, a lembrança feliz do que foi, do amor que por um tempo preencheu de sentido nosso viver. À que se ter gratidão pelo passado. Nem a morte, nem qualquer outra possibilidade que potencialmente pode nos enlutar, é capaz de anular o que já aconteceu, o que vivemos. A gratidão nos faz regozijarmos com doces lembranças, nos liberta do que está por vir e ilumina o que está sendo. Claro está, que não queremos ressuscitar o passado, nem tão pouco anular o sofrimento do luto. A gratidão é o remédio que pode cicatrizar as feridas abertas pela vida, pelas perdas da vida.
A elaboração do luto não é a extinção do sofrimento, nem tão pouco a gratidão se prestaria a isto. “Trata-se de passar da dor atroz da perda, à doçura da lembrança”, dizia Sponville. Ou seja, a própria gratidão, “que bom que você existiu em minha vida”, “que bom eu ter ganhado esse presente”, “que bom eu ter te amado e tu me amado”. Elaborar o luto: aceitar o real e continuar, viver apesar de tudo. Gratidão: lembranças doces, alegrias e amor.

Referências Bibliográficas

FRANKL, V. E. Psicoterapia e sentido da vida. São Paulo, Editora Quadrante, 1989.
SÊNECA. Sobre a brevidade da vida. São Paulo. Nova Alexandria, 1993.
SPONVILLE, A. C. Bom dia, angústia! São Paulo, Martins Fontes, 1997.
__________, Pequeno Tratado das Grandes Virtudes, São Paulo, Martins Fontes, 2000.
 Artigo publicado na Revista Psicologia Brasil
Nº 15 - Novembro de 2004.
 *Odair José Comin, Psicólogo, Hipnoterapeuta e Escritor 


Para ler na íntegra essa matéria acesse o link

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Superação pela solidariedade


CIDADANIA
Projetos criados com base em tragédias familiares mostram que ajudar quem precisa pode amenizar as dores do luto


Débora Weber tinha 22 anos quando sofreu um acidente de carro na BR-116 no limite entre os municípios de Mandirituba e Fazenda Rio Grande e morreu, no Dia das Mães do ano passado. A família, que administra um centro de formação de condutores no primeiro município, nunca descobriu o que realmente provocou a colisão, mas sabia que não queria enfrentar a dor da perda em silêncio. Da manifestação por segurança na rodovia surgiu a vontade de criar um projeto maior, que combatesse todas as formas de morte trágica, e o desejo de ajudar os moradores carentes da região. Em agosto do ano passado, a família organizou o primeiro Dia da Esperança, com serviços gratuitos de recreação, cidadania e bem-estar. O evento recebeu 2,5 mil pessoas e contou com 400 voluntários.
Assim como a iniciativa dos parentes de Débora, outros projetos surgiram como superação de uma dor ou trauma. A forma de reagir ao trágico e ines­perado mos­­tra que é dos momentos de maior fragilidade que podem surgir as manifestações de solidariedade.

A mãe da estudante, a empresária Rosilene Weber, de 45 anos, é instrutora teórica na autoescola da família e conta que ainda não consegue entrar numa sala para falar sobre direção defensiva. Mas os dias de Rosilene não são menos agitados por causa disso. Logo após a morte da filha, que estava no último ano de Engenharia Florestal na Universidade Federal do Paraná (UFPR), um casal faleceu na mesma rodovia, na ponte sobre o Rio Iguaçu. Rosilene e sua família organizaram então um protesto no local, com a participação de aproximadamente mil pessoas.
Como já fazia palestras educativas sobre trânsito em Mandirituba, a família Weber resolveu ampliar o foco de atuação. Passaram a buscar combater não apenas as imprudências ao volante, mas todos os tipos de morte violenta, por meio do Movimento Grito pela Vida. Uma das principais ações do grupo, que congrega outras famílias de vítimas, é justamente o Dia da Esperança. “A Débora não suportava injustiça, comprava briga com quem agredia idosos, crianças. A própria inspiração desse dia veio dela e resolvemos fazer perto do seu aniversário, dia 27 de agosto”, diz a mãe.
Outro exemplo
Quem também encontrou seu lado solidário após passar por uma situação difícil foi Zelinda de Bona, 75 anos, uma comerciante aposentada que hoje coordena o Grupo Amigos Solidários na Dor do Luto. Em 1994 Zelinda perdeu seu neto Saulo, com 14 anos, vítima de um acidente de trânsito. A necessidade de dar apoio à filha foi mais importante que sua dor e serviu como principal incentivo para superar a tristeza. “Você tem duas opções para sua vida quando falece um ente querido: ou você é uma vítima ou um sobrevivente”, diz.
Cinco anos após a morte de Saulo, Zelinda foi para o grupo dos Amigos Solidários. Ligado à UFPR, o projeto oferece apoio a pessoas em luto por meio de terapias em grupo. “Sempre trabalhei com voluntariado, mas nada foi tão gratificante quanto estar à frente desse grupo. Faz 5 anos que estou na direção e acho que não estaria mais aqui se não fosse por isso”, afirma.
Iniciativas dão novo sentido à vida
Embora associado apenas à morte, o luto, segundo o psicólogo e psicoterapeuta Dionisio Banaszewski, se refere a uma elaboração sobre diversas perdas. Um divórcio, uma demissão ou até o rebaixamento do time do coração podem ser considerados lutos, pois proporcionam sentimentos de tristeza, impotência, raiva e insegurança. “Na nossa cultura não somos preparados para a morte, só para a vida, por isso temos dificuldades enormes de lidar com esse tipo de perda”, explica.
A psicóloga clínica Cris­tiane Verbiski de An­drade completa: “Quando perdemos um ente querido, iniciamos um processo de questionamento a respeito do sentido da vida. Nesse momento, alguns se fecham no seu sofrimento, no seu luto; outros procuram retomar de alguma forma o sentido da existência.”
Dentro dessa busca por uma motivação para viver é que surgem trabalhos como o de Rosilene Weber e Zelinda de Bona. “A pessoa passa a se sentir capaz de novo. A partir do momento em que ela pode fazer algo pelo outro, isso é prazeroso, e não só para quem sofreu uma perda dessas. As coisas passam a fazer sentido e muda o olhar sobre a vida”, explica o também psicólogo e psicoterapeuta Tonio Luna.
Segundo Cristiane, olhar para o sofrimento alheio ameniza a dor e faz com que as pessoas percebam que não são as únicas enlutadas. “Quando conseguimos intervir de alguma forma no sentimento do outro, podemos compartilhar essa retomada pela vida. Passamos a entender que a morte é mais uma etapa da existência.”

Amigos Solidários
O Grupo Amigos Solidários na Dor do Luto se reúne todas as segundas-feiras, das 14h30 às 17 horas, no prédio histórico da UFPR (sala 118, Departamento de Psicologia). Mais informações: 9113-4262, 3252 5016 ou pelo e-mail: zelindadebona@hotmail.com

Evento
2.º Dia da Esperança será em 25 de agosto
O 2º Dia da Esperança está agendado para o dia 25 de agosto no Parque Municipal Ângelo Zeglin Palú, em Mandirituba, das 10 às 17 horas. Com o intuito de despertar o voluntariado em quem perdeu um ente querido e oferecer serviços gratuitos a comunidades carentes, a expectativa é atender cerca de 5 mil pessoas neste ano.
Haverá ações de saúde (com cálculo do peso ideal, orientações de exercícios físicos, realização de eletrocardiograma e coleta do preventivo do câncer uterino), de cidadania (com orientação jurídica, consulta sobre situação do CPF e de pontos e multas na carteira de habilitação), cultura e lazer (com brinquedos e oficinas para as crianças) e beleza (corte de cabelo, hidratação facial e maquiagem).
As pessoas que quiserem trabalhar como voluntárias podem entrar em contato pelo e-mailgritopelavida@yahoo.com.br ou pelo 9992-0904.

Gazeta do Povo 16.08.12 caderno Vida e Cidadania 

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Blog Páginas Escolhidas

Queridos Amigos,
publicamos aqui a recente postagem do Blog Páginas Escolhidas, de nosso querido amigo Nazir, onde carinhosamente apresenta os ASDL para seus queridos leitores.
Abaixo, confiram o que ele escreveu sobre o trabalho dos Amigos e de ZElinda: 

No último sábado deste mês de julho de 2012, aboletei-me em frente ao aparelho de televisão para assistir a mais um depoimento dado por Zelinda, relacionado ao grupo de ajuda,que ela coordena, há já  oito anos, e  cujo nome dá o título a estes comentários.  Como se tratava de uma entrevista gravada, que a emissora(*) iria reproduzir, pudemos assistir juntos,  ela para conferir a própria postura diante das câmaras e microfones e eu, para  simplesmente assistir pela primeira vez.

            Ao iniciar-se a apresentação pela entrevistadora, Profª Ana Flávia Pegozzo Fedato e tendo diante de mim, imagens e sons perfeitos dos depoimentos prestados pela Zelinda e pela companheira de grupo, Suzana de Oliveira Pimenta, esta psicóloga e mestranda da UFPR, quase não acreditei que estava vivendo um momento como aquele. Ali, na comodidade de uma das salas da residência, podíamos assistir, como se no ambiente da emissora estivéssemos, todos os passos da entrevista e tendo ao meu lado a própria entrevistada. E bendisse o privilégio de ainda estar por aqui, em pleno  século vinte e um, vivendo tão maravilhosas experiências, depois de jornadear a maior parte de minha vida física pelo século vinte.

            Alternando-se nas respostas às perguntas da entrevistadora, Zelinda e Suzana foram compondo o quadro de atividades do grupo, de maneira precisa, ambas falando com muita segurança. Zelinda, historiando o seu ingresso e participação no grupo e a posterior coordenação, Suzana enfocando os problemas que, cada um dos participantes, diante das perdas, tem de enfrentar e resolver com a ajuda do grupo e dos profissionais da área, psicólogos como ela, colaborando nos trabalhos. E ao assistir a gravação da própria entrevista, no ponto em que se referia aos motivos  de seu ingresso e coordenação,  que levaram-na a entregar-se de corpo e alma à tarefa abençoada de amenizar as dores de tantos enlutados, Zelinda, ao mencionar o neto Saulo, falecido aos 14 anos num acidente em Morretes, não conseguiu conter as lágrimas. Naquele momento, como tem acontecido desde que nos tornamos companheiros, ofereci-lhe a mão amiga até que o momento de profunda emoção passasse, repetindo com ela o que dela recebi inúmeras vezes em meus momentos difíceis.

Agora a explicação prometida: trata-se de um grupo que tem por objetivo reunir pessoas que sofrem com a ausência de entes queridos que     faleceram  e que têm nas reuniões um apoio importantíssimo para suportar e superar o momento de profunda tristeza. Importantíssimo ressaltar que muitas das integrantes do grupo, após superarem os períodos de dor e de assenarem a alma, gratas pelo auxílio recebido, permanecem e se entregam às tarefas de também ajudar  às novas que vão chegando. É graças a essa permanência que faz dos Amigos Solidários na Dor do Luto uma verdadeira legião que mistura ex-asssistidos a integrantes permanentes, sempre prontos a arregaçar as mangas e lançar-se ao trabalho,  graças ao qual as iniciativas sob a coordenação de Zelinda são sempre levadas a bom termo.

            Zelinda, desde que abraçou a causa e tornou-se coordenadora do grupo, trabalha incansavelmente no amparo aos que procuram um lenitivo para “a dor que não tem nome”. Irriquieta, no melhor sentido do termo, não limita a sua atividade ao trabalho principal que são as reuniões, ao atendimento telefônico a dezenas de pessoas que ligam ansiosas por serem ouvidas. . Ela vem, já há alguns anos, sempre com a ajuda das voluntárias, promovendo o Natal dos carrinheiros que consiste em arrecadar gêneros e utensílios, incluindo conservas preparadas por ela mesma, para serem distribuídas aos catadores de papel. Essa nova frente de trabalho voluntário, aberta pela Zelinda conta já quatro anos. No último Natal, um fato ocorrido na distribuição merece registro: ao entregar a uma das famílias a cesta básica com alimentos e guloseimas, ouviu de um menino a manifestação do desejo de receber um brinquedo  , insistindo nisso e recusando outras ofertas. Como não dispunha de nada que atendesse aos desejos do menino, Zelinda regressou do trabalho de entrega com a intenção de atendê-lo. Adquiriu uma bola e um carrinho e daí a tarefa mais difícil. Localizar a família e o menino. Saímos de carro, penetramos no bairro onde sabíamos que a família morava, pergunta aqui, pergunta ali, até que, localizados a família e o menino, veio então a alegria incontida de  ver o contentamento do pequeno de posse do tão desejado presente.          Mas o “alvoroço” da nossa querida personagem não fica só nos fatos relatados. Ela descobriu, na leitura de um blog, que lá em Morretes, no lugar chamado Canhembora, existe uma escola municipal, onde os alunos, a maioria oriundos de famílias pobres do lugar, recebem de uma professora abnegada chamada Anency, muito mais do que o ensino regular de uma escola. Zelinda manifestou-me o desejo de conhecer a Escola e a professora e, quando se abriu  a  oportunidade levei-a para o primeiro contacto. Ela se encantou, e imediatamente colocou o seu dinamismo em ação. Como o tempo era de proximidade da Páscoa ela mobilizou-se para proporcionar uma festinha com a distribuição de guloseimas para as crianças e um kit de gêneros destinados às famílias das crianças para o almoço comemorativo na casa de cada uma. Posteriormente, mobilizando doadores amigos, Zelinda propiciou a cada criança  da escola, uniforme e  calçado.        Juntei-me a ela nessas atividades, frequento o grupo não com a regularidade que seria desejável mas,  fazendo presença constante e, desse modo, substituindo as atividades de natureza assistencial e administrativa que exercia na Casa Espírita em Morretes. Lá, onde mantenho residência, continuo presente na instituição integrando um grupo de estudos o que me enseja um contacto semanal com os companheiros que trabalham na Casa e que agora são responsáveis pelo funcionamento.

            Ao encerrar mais este capítulo, parabenizo a Zelinda e sua companheira  Suzana pela entrevista  e com um abraço aos meus pacientes leitores(as), despeço-me. Até a próxima. Prof. Nazir.
(*) Emissora: TV Comunitária de Curitiba.  Programa: Gestão Pública em       debate.  Responsabilidade: Curso Superior Tecnológico de Gestão Pública, Centro Universitário Internacional Olinter.



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Para ler mais histórias e saber de sua trajetória, confiram seu blog:

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

A viagem de Priamo





A duríssima jornada para trazer de volta o corpo de um filho

Telefones jamais deveriam  tocar certas horas. Mas tocam. Filhos jamais deveriam partir antes que já estivéssemos a postos, à espera deles, no lugar demarcado por nossa fé ou esperança. Mesmo assim, eles partem. Essas duas verdades me colheram feito uma avalanche de tristeza enquanto eu caminhava, num fim de tarde de sábado e sol ralo, pelas ruas do centro de Belo Horizonte. Atendi o celular. Do outro lado da linha, a voz chorosa de Geni, minha mulher, abriu as comportas do pesadelo: “Zé, você precisa voltar pra São Paulo’. ela disse, tentando, desesperada e inutilmente, manter uma nesga de calma. Sua frase seguinte, no entanto, me atingiu com o impacto de um meteoro. “O Paulinho morreu, meu amor, e você vai ter de ir a Londres buscá-lo.’ Uma sombra gigantesca encapsulou o meu espírito.
Desabei no choro, sentado ao meiofio. Senti-me ludibriado pelo destino. Por que ele consentira que um amor de 28 anos, vívido e intenso, fosse guilhotinado assim, justamente quando eu e Paulo parecíamos estar finalmente acertando nossos relógios afetivos? Por que comigo? Por que agora? Em suma: as infindáveis perguntas e especulações ressentidas que são feitas sempre que a dor só é menor do que nossa própria impotência. Regressei a São Paulo nessa mesma noite, no carro de Val, tio querido de Paulo, meu ex-cunhado e morador de Belo Horizonte. Partimos com os primeiros azuis da aurora. Ao longo do trajeto, fui aos poucos me recompondo. Apesar da tristeza, uma lucidez e uma serenidade consistentes foram me envolvendo feito um manto suave. Chegamos a São Paulo no final da manhã.
Chorei muito ao reencontrar Geni e Pedro, meu caçula. Vi quão grande era o desalento estampado em suas faces. Geni, uma segunda mãe de Paulo. Pedro em seu batismo de morte. Tomei uma ducha rápida, comi algo e, a caminho do aeroporto, fiz uma escala na nossa vila Bela Vista, para, com um pesar imenso, informar minha mãe da partida de seu neto. Dona Dida, sempre tão sólida, desabou. Paulo, sua mulher Anna e o filho Rodrigo eram seus vizinhos. Também moravam numa das seis casas da vila.
Com sua juventude e, principalmente, com Rodrigo, eles coloriam a rotina tediosa de minha mãe. Foi doloroso ver de relance o sobradinho ocre com as suas portas e janelas azuis fechadas. Desviei rapidamente o olhar e segui para Cumbica. Foi no trajeto para o aeroporto que um pensamento luminoso me fisgou. Percebi  que havia naquela viagem um senso de missão quase  sagrado: trazer meu filho de  volta aos braços da família e de todos que o amavam. Era  a derradeira homenagem que eu poderia lhe prestar. Lembrei-me, então, de uma daspassagens mais pungentes da inigualável lliada, de Homero. Após matar Heitor, príncipe e herói troiano, o grego Aquiles arrastou o seu corpo diante das muralhas da cidade e recusou-se a devolvê-lo à família. Foi então que Príamo, o rei de Troia e pai de Heitor, trocou o seu manto real pelos trajes de um mendigo, deixou a segurança das muralhas e foi sozinho ao acampamento grego em busca dos despojos de Heitor. “Vim aqui, humildemente, implorar-lhe que devolva o corpo de meu filho’: disse Príamo a Aquiles. “Sua humildade me comove”, respondeu-lhe o grego. “Pode levá-lo, pois quem tem um pai com essa coragem merece todo o meu respeito”. Autossugestão ou fé, não importa. O certo é que, após me lembrar dessa história, me senti fortalecido.
Parti para Londres com a clara sensação de que Deus segurava minha mão. Nada disso, obviamente, me poupou dos ritos e procedimentos penosos que me aguardavam na capital inglesa. Mas, com toda a certeza, uma nesga de sentido em meio à total ausência dele mitigou bastante a minha dor. A assistência do patrão de Paulo e sócio na operação brasileira da produtora Hungry Man (na qual Paulo era um dos diretores de comerciais) revelou-se outro bálsamo durante esse meu périplo amargo. Fui aos poucos reconstruindo os últimos dias de meu filho. Paulo passara, de terça a sexta, escolhendo locações na cidade e o elenco do filme – para o lançamento mundial do game Fita street soccer. No sábado de manhã, como não atendesse o telefone, teve a porta de seu quarto aberta pelos funcionários do hotel e foi encontrado inconsciente na cama. Imediatamente chamados, os paramédicos tentaram reanimá-lo durante todo o trajeto. Sem sucesso. Paulo foi declarado morto no Royal London Hospital, em Whitechapel, um distrito londrino junto à City, o coração financeiro da cidade.
No dia de minha chegada, fiz duas coisas. Por ser muçulmano, primeiro fui à grande Mesquita de Londres, um templo imponente cravado nas bordas do Hyde Park. Lá fiz minhas orações matinais. Mais fortalecido, fui nessa mesma manhã identificar o corpo de Paulo no necrotério do hospital. Era um lugar sóbrio e nem um pouco tétrico. A visão de meu rapaz numa maca, no entanto, me desnorteou. Derramei, então, aquelas a que, em seu poema “Pátria minha”, Vinícius de Moraes refere-se como “longas lágrimas amargas”. Segurei as mãozinhas já frias de meu menino. Depois, num impulso irresistível, abri os seus olhos e vi, pela última vez, o seu azul cristalino. Fiquei feliz por ver que sua beleza e brilho não haviam se dissipado. Mas triste ao saber que a primeira autópsia não fora conclusiva. Só no dia seguinte um segundo exame revelou a causa mortis. Paulo tivera uma isquemia coronariana (falta de oxigenação do músculo cardíaco) associada a um trombo (coágulo que obstruiu de vez sua artéria). Resumindo: um infarto. Paulo seguiu, nesse quesito, os passos de meu pai e de meu irmão Beto, confirmando o frágil histórico cardíaco que paira sobre minha família paterna. Restaram como conforto a certeza de sua morte ter sido muito rápida e a de que ele não sofreu praticamente nada, pois o colapso o deixou inconsciente antes que seu óbito se consumasse.
Os gregos tinham um Deus da morte súbita. Uma bênção para quem parte. Uma patada de urso no peito de quem fica. O alívio definitivo só veio no fim da manhã de quinta-feira, véspera de meu voo de volta ao Brasil. Só após a segunda autópsia, essa conclusiva, a funerária pôde retirar o corpo, a fim de prepará-lo para a viagem, que faria no mesmo avião que eu, logo mais à noite. Pude ver Paulo no final da manhã, já preparado. Estiquei meu casaco no chão e orei junto a ele, agradecendo a Deus por tudo ter dado certo. Segurei, então, sua mão esquerda e, alisando seus cabelos junto à testa, já ligeiramente grisalhos, chorei muito enquanto o beijava. Depois vi que minhas lágrimas haviam borrado levemente a sua maquiagem.
A prova de fogo final foi preparar a mala de meu menino. Como tudo que havia em seu quarto havia sido levado, na manhã de sua morte, pela polícia londrina, em busca de alguma evidência, suas roupas e demais pertences (que retirei no distrito policial) estavam todos remexidos. Dobrei cada uma das peças com ternura, salpicando várias delas com as minhas lágrimas. Elas misturavam tristeza e pesar ao alívio de ver encerrada a jornada mais difícil de minha vida.
Por volta das 22 horas de quinta-feira, o avião decolou do aeroporto londrino de Heathrow rumo a São Paulo. Eu estava exausto, mas satisfeito por saber que Paulo seguia comigo na mesma aeronave. Eu sabia muito bem que minha longa e triste travessia estava apenas começando.
Enquanto o avião sobrevoava o estuário do Rio Tâmisa, salpicado por luzinhas de navios de guerra e mercantes, respirei aliviado. Minha viagem de Príamo chegara ao final. Estamos indo de volta pra casa.

matéria publicada na REvista Época de 30.07.12

sexta-feira, 3 de agosto de 2012





Como ter conversas difíceis com seus filhos

O mal, a morte, o tempo. Nesta crônica, o escritor e pai José Ruy Gandra aponta uma saída para as conversas mais difíceis que precisamos ter com nossos filhos.
José Ruy Gandra em 22.08.2011

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(Foto;)
O escritor e pai José Ruy Gandra, autor de Coração de Pai - Histórias sobre a Arte de Criar Filhos (Livros de Safra), transmite seu ambicioso legado a Paulo e Pedro: sabedoria para viver bem e intensamente.
A Pedro e Paulo
Talvez por ter chegado aos 50 anos, esse outonozinho da alma de dias quentes e noites frias, muitas coisas dão sinais de ter clareado na minha cabeça irrequieta. Gostaria que meus filhos soubessem disso. Soubessem que, tão logo nasceram, se tornaram o sentido, a prioridade absoluta e a principal fonte de alegria de minha vida. Queria que perdoassem meus tropeços, incertezas e imprevidência. E que aceitassem meus desejos e votos a seguir como um presente singelo que, sem saber, vim fabricando até aqui a cada um de meus dias.
Entre tantas outras coisas que, como pai, lhes desejo, gostaria que Paulo e Pedro descobrissem que o infinito é uma palavra séria. Que certas estrelas ficam tão longe nos confins do Universo que, no momento em que as vemos, a luz delas já se apagou há muito, muito tempo. Muito além do que conseguimos enxergar, elas já morreram. Mas continuam e continuarão brilhando, céu afora, sabe-se lá por quantos milhões de anos ainda.
Considerem, filhos, que nesse infindável vazio flutuante, nosso planetinha gira, banhado pelos raios do sol. E que nesse planetinha - e, por enquanto, ao que se saiba, apenas nele - a vida se entrelaça de bilhões de formas imagináveis. Como, talvez, em nenhum outro lugar de toda essa vastidão misteriosa que nos circunda.
Nunca se esqueçam de que essa explosão de vida, a natureza, é tão fascinante quanto cruel. Pode ser a paisagem irretocável que nos comove - e também a fúria que, num piscar de olhos, a devasta. São os filhotes com sua doçura cativante e frágil - mas também criaturas que devoram implacavelmente umas às outras. Na natureza, a curto, médio ou longo prazos, depende, toda forma de existência vive ao relento. Feito as estrelas, estão condenadas a um dia deixar de brilhar. Tudo passa. Tudo precisa passar. Não tem jeito. É assim.
Que essa aparente fatalidade, filhos, não os assuste. Ao contrário. Tomara que ela os faça perceber quanto nós, seres humanos, somos privilegiados. Por podermos contemplar a criação e a evolução sentados num camarote. Por estarmos no topo de uma cadeia alimentar, uma vantagem que, na pior das hipóteses e na imensa maioria dos casos, nos poupa da condição de presas.
Em compensação, somos os piores predadores de nós mesmos. Mas desfrutamos a bênção de, bem ou mal, compreender o mundo que nos cerca. E a de, mesmo que aos trancos e barrancos, evoluir. Um dia tenho certeza de que vocês perceberão quanta grandeza e quanta miséria resultam dessa nossa supremacia biológica. Nada disso, porém, nos desvia do próprio destino. Um dia, como tudo, feito uma bandeirinha que o vento faz desprender de seu mastro, também nós passaremos.
Espero que, sempre que se defrontarem com essa verdade, vocês sigam em frente. Tenham em mente que, cedo ou tarde, o tempo dissipa até a mais entranhada tristeza. Por isso, filhos, não se entreguem jamais à amargura. Como tudo, a dor que os colher também passará. Portanto, não percam com ela mais do que o tempo estritamente necessário. Invistam sempre mais na esperança que na desilusão. Mais na confiança que no temor. E, seja lá como for, perseverem em seus caminhos.
Aliás, filhos, a cada oportunidade que tiverem, agradeçam. A cada manhã que despertarem, pensem no fato de que todas as suas moléculas permanecem agrupadas. Que as células de seus corpos continuam funcionando como devem. Agradeçam, rapazes. Brindem por esse milagre cotidiano. Cada dia é uma dádiva - e saber vivê-lo sem lentidão nem pressa é uma arte valiosa.
Paulo. Pedro. Haja o que houver, lembrem-se de que carregam nas veias o mesmo sangue. Não permitam que a vida, com suas mesquinharias, atribulações e voracidade, os afaste. Nunca, Paulo. Nunca, Pedro. Poucas coisas conseguem ser tão profundas quanto o amor de um irmão. Ombro algum é mais amigo. Mantenham, em seus corações, um lugar reservado para o outro. Descubram- se, amparem-se e fortifiquem-se reciprocamente.
Sejam previdentes, mas não deixem de realizar os seus sonhos. E nunca se considerem imunes a nada. Tudo, absolutamente tudo nesta vida é possível. Alegrias extremas. As dores mais lancinantes. Agradeçam aquilo que o destino lhes reservar. Os bons momentos alegram a alma. Os ruins ajudam a lapidá-la. Ambos um dia acabam ficando para trás e cada qual traz as próprias lições. Persigam sempre o discernimento. É ele que lhes permitirá essa fotossíntese renovadora que transforma lágrimas em risos. E em luz a obscuridade.
Meus amados: vivam atentos ao que diz o coração. Ele conhece os caminhos, mesmo que desconheça o destino. Bebam do riozinho de suas vidas sem medo. Como tudo, montanhas, impérios, nosso planeta, suas águas um dia também passarão. Mas o que importa é que, agora, neste momento, elas correm bem diante de seus olhos abertos. São suas. Estão ali para que vocês, todo santo dia, possam saciar a sede. Bebam da existência, meus filhos. E, sempre que a barra da vida pesar, lembrem- se, por favor, das estrelas que já se apagaram. Reparem como elas ainda brilham no céu.



José Ruy Gandra quando escreveu este texto, ainda não tinha perdido o seu filho Paulo. No livro, Coração de pai, narra em uma de suas passagens, a duríssima jornada para trazer de volta o corpo de seu filho que faleceu em Londres em janeiro deste ano.