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sexta-feira, 29 de maio de 2015

Reflexões sobre dar e receber por Márcia de Lucena Saraceni


“Aprender é descobrir aquilo que você já sabe. Fazer é demonstrar que você sabe.
Ensinar é lembrar aos outros que eles sabem tanto quanto você.
Vocês são todos aprendizes, fazedores e professores”
Richard Bach, no livro Ilusões

Um círculo. Certamente, em algum momento, você já deu as mãos, fazendo um círculo, com outras pessoas, mesmo que para brincar de roda. Você prestou atenção às palmas da sua mão ao segurar a mão da pessoa que está à sua direita e à sua esquerda? As palmas de suas mãos voltam-se, ambas para cima ou para baixo? Ou uma mão está voltada para cima e outra para baixo?  Na maioria das vezes, não prestamos atenção a esse detalhe e, quero tomar esta imagem como ponto de partida para falar sobre o tema deste post: dar e receber.
O círculo é uma forma perfeita, onde dois pontos se encontram formando um elo, uma corrente, uma união; onde todos podem ver e ser vistos, onde ninguém está à frente ou atrás. No círculo, não existe quem sabe mais e quem sabe menos… Todos têm a sua sabedoria e experiência de vida, que é única. O círculo simboliza o dar e receber contínuo em nossas vidas: enquanto estou dando com uma mão, estou recebendo com a outra.
É por isso que, ao formarmos um círculo, devemos dar as mãos da seguinte forma: a palma da mão direita fica voltada para baixo e a da esquerda voltada para cima. A mão direita representa nossa força, nossa capacidade de ação no mundo, o fazer. E, quando nos sentimos fortes, podemos sempre estender nossa mão e ajudar o outro. A mão esquerda, é a mão do coração, representa o nosso lado frágil e, quando estamos fragilizados, é importante todo o apoio, palavra e mão amiga que recebemos.
Dar e receber. Tem pessoas que sabem dar, mas não sabem receber e vice-versa. Tem pessoas que dão esperando receber algo em troca, tem pessoas que recebem e nada dão. Tem pessoas com medo de dar e lhes faltar, tem pessoas que estão sempre dando e, nunca lhes falta nada, parece que estão sempre em estado de abundância e gratidão.
Onde será que está o ponto de equilíbrio entre dar e receber?
O ponto de equilíbrio pode ser o amor incondicional. Quando nos ligamos no amor a outro ser humano, algo sutil e precioso pode acontecer a energia flui e não tem mais importância o dar o receber, pois elas passam a fazer parte de um só movimento, que é o movimento da entrega ao fluxo… Nos ligamos à grande energia que rege o universo… Passamos a conhecer a medida das coisas e a saber ouvir as próprias necessidades e as necessidades dos outros, sem contabilizar, sem cobrar… Passamos a entender profundamente cada momento e cada pessoa, assim como são. E aprendemos que dar é receber, receber é dar.
Quero finalizar com uma estória adaptada de um conto de Hermano Hesse:
“José e Daniel foram dois renomados curandeiros que viveram em tempos bíblicos. Ambos eram muito eficazes, ainda que trabalhassem de maneiras e com estilos diferentes. Ainda que contemporâneos, nunca tiveram um encontro e se consideravam mutuamente rivais. Foi assim durante anos, até que José, o mais jovem, adoeceu espiritualmente. Desesperado e sentindo-se incapaz de curar-se a si mesmo, partiu em peregrinação buscando a ajuda de Daniel. Durante seu percurso, descansando em um oásis durante a noite, iniciou uma conversa com outro viajante que, ao escutar o propósito de sua viagem, ofereceu-se como guia para ajudá-lo em sua busca por Daniel. Partiram juntos e, no meio de sua longa expedição, o homem mais velho revelou sua identidade. Ele era Daniel, a quem José procurava. Ato contínuo, passado o assombro de José, Daniel o conduziu até sua casa, convidando-o a permanecer ali. No princípio, diante do pedido de Daniel, José foi seu servente. Logo aprendiz e, finalmente, um colega de igual hierarquia. Assim viveram e trabalharam juntos muitos anos. Anos depois, velho e doente, Daniel pediu a José que escutasse uma confissão. Começou recordando seu encontro no oásis quando José, doente, viajou em busca de sua ajuda e como José havia considerado milagroso aquele encontro. Agora, enfrentando sua própria morte, Daniel quebrou o silêncio de tantos anos confessando que, para ele, também foi milagroso. Ele também, naquela época, havia caído em um sombrio desespero, sentindo-se vazio espiritualmente e incapaz de curar a si mesmo. Aquela noite do encontro, ele havia iniciado sua própria viagem em busca da ajuda do famoso curandeiro chamado José.”
Pense nisso…
Bons ventos lhe soprem o que precisa para ser feliz!

sexta-feira, 22 de maio de 2015

“A felicidade está nas coisas simples da vida.”

Jornalista Náira Malze Entrevistando Angelita Scárdua – Psicóloga da Felicidade

Psicóloga diz que a felicidade está no autoconhecimento e na maneira como nos relacionamos com o mundo.

A felicidade, sempre desejada e cantada em verso e prosa, é mais do que um objetivo na vida da psicóloga Angelita Corrêa Scárdua. É o tema sobre o qual ela faz pesquisas. Seguindo a linha da psicologia positiva – não por acaso chamada também de psicologia da felicidade. Nesses estudos, Angelita chegou a várias conclusões. Uma delas é de que o brasileiro não é tão feliz quanto se imagina. Outra é que a felicidade depende mais das relações que estabelecemos e menos do quanto temos na conta bancária para gastar.

O que é psicologia positiva?
É uma abordagem psicológica americana criada nos anos 80, pelo psicólogo Martin Seligman. Essa linha dedica-se a estudar a construção de pensamentos positivos, e o que se pode fazer para ter experiências e emoções saudáveis; e a vida, mais feliz. Por isso também é chamada de psicologia da felicidade.

Na prática o que quer dizer?
Para a psicologia positiva, mesmo que você tenha aprendido a ter uma visão negativa da vida, não está condenado a ser um adulto infeliz. Não importa quantos anos você tenha. É possível mudar a forma de perceber o mundo e a sei mesmo.

O que isso tinha a ver com a sua pesquisa?
Eu já participava de uma pesquisa de neurociências sobre desenvolvimento, emoção e percepção, tinha finalidades com a teoria de Jung (Carl Jung, psiquiatra que defende que o sujeito se desenvolve até o fim da vida)e, juntando à psicologia positiva, fui investigar o imaginário cultural brasileiro sobre o que é ser brasileiro. Há o mito de que ele é feliz, mas nós identificamos que o brasileiro não acredita que possa mudar a própria vida. Em vez disso, atribui essa responsabilidade a algo ou alguém externo como provedor dessa felicidade.

Mas o brasileiro não se enxerga com positividade?
Quando é perguntado sobre o que é bom no país, ele se refere à natureza – praias, clima, mulheres… ou seja, a idéia é que, o que temos de positivo não foi construído, mas dado. Quando a pergunta é o que pode mudar o país, aparece uma contradição: a crença na educação. Quer dizer, o que temos de positivo não é construído. Já o necessário para mudar requer esforço pessoal,mas não é valorizado. Isso leva as pessoas a buscarem as alternativas mais cômodas. E, claro, atrapalha a felicidade.

Então o brasileiro não é feliz?
Aqui, e nas culturas latinas, é comum confundir alegria com felicidade. São coisas diferentes. A alegria é o estado emocional- afetivo de uma satisfação momentânea, como a festa de casamento ou comprar o carro dos sonhos.

E felicidade?
É um estado no qual você se sente de bem consigo mesmo e realizado com o que tem. É comum pensar que uma pessoa feliz não tem sofrimento,mas não é verdade. A diferença está em funcionar positivamente e entender que problemas são temporários e superáveis.

Qual a relação de felicidade com qualidade de vida?
Por vivermos numa sociedade consumista, há a fantasia de que o consumo traz felicidade. E aí quando se fala em qualidade de vida- e na pessoa ter lazer, ter uma alimentação saudável, se exercitar, fazer todos os check-ups é comum associar qualidade a um certo padrão socioeconômico.E, riqueza à felicidade. Mas todas as pesquisas mostram que não existe relação direta entre riqueza e felicidade.

Mas a qualidade de vida pode variar com a riqueza?
Sim, ela é variável. Para uma pessoa, pode significar pagar o melhor restaurante da cidade.Para outra,subir a laje e improvisar uma churrasqueira. A qualidade de vida varia em função das suas expectativas de vida. A questão é: se eu me imponho tarefas que me sobrecarregam, vou romper com a qualidade de vida. E sem qualidade, a felicidade fica difícil.

Por que é tão difícil sair do discurso e incorporar qualidade no dia a dia?
Por causa do imediatismo, tendemos a associar satisfação a consumo. Então, se não estou bem, é porque falta algo que pode ser consumido e que me traz uma satisfação temporária , mas imediata . Adotar um padrão assim demonstra profunda imaturidade psicológica e a capacidade de postergar a satisfação. Ou seja, de entender que o prazer vem depois de certo esforço. E a qualidade de vida depende disso.

A falta de tempo é uma justificativa para essa imaturidade?
Sim, dar desculpas por sua falta de tempo passa a idéia de uma pessoa com a agenda cheia de muitos compromissos. E alguém com esse perfil na nossa sociedade é valorizado. Pega bem dizer “eu não tenho tempo”. É uma desculpa padrão, mas na verdade tempo é uma questão de prioridade.

E é realmente possível se dedicar com qualidade a todas as áreas da vida?
Sim. Acontece que por conta dessa percepção imediatista, muitos não estão dispostos a fazer um compromisso consigo mesmo pela felicidade. Por exemplo, quem está infeliz no casamento, se parar e avaliar o que está errado, percebe que precisa mudar alguns aspectos. E que dá trabalho, leva tempo. Mas a maioria não tem maturidade para se comprometer, investir a longo prazo e busca uma saída imediata. Pode ser uma amante, uma cirurgia plástica, o trabalho…

Mas investir no casamento aumenta a chance de ser feliz?
Muito. Todas as pesquisas de felicidade comprovam isso. Numa relação estável em que haja cumplicidade, companheirismo, afinidade e intimidade, a pessoa se sente livre para se expressar integralmente. E tem a certeza de que será amada independente de quem seja. Isso é fundamental para a felicidade.

Você atende principalmente a pessoas na meia idade. Nessa faixa etária, a busca pela felicidade é mais urgente?
É. Jung traz a idéia que, a partir dos 35 anos, vivenciamos um processo psicológico que seria o ápice do desenvolvimento humano. É a metanóia ou “crise da meia idade”, quando a pessoa faz uma avaliação de tudo que viveu e passa a se perguntar se valeu a pena. Isso pode gerar um conflito intenso. E, junto das marcas do tempo no corpo, mostra que a vida tem um prazo. É um momento crucial, hora de nos realizarmos como seres humanos.

Como uma segunda chance?
Sim, o momento de resgatar quem é você, o que quer, o que busca. E não o que o país ou a igreja ou a sociedade determinaram. A decisão implica em rupturas e perdas e por isso gera uma crise. Por isso nem todos escolhem o caminho da felicidade, porque o caminho da felicidade é o de ser você mesmo, mas isso tem um preço.

Hoje, ao mesmo tempo em que se buscam avanços para o futuro, fala-se em resgatar valores simples. Como explicar essa contradição?
Mesmo com a desigualdade gerada pelo capitalismo, nunca se teve tanto acesso a tantas coisas como hoje. Saúde, moradia férias, bens de consumo. Ao mesmo tempo, nunca os índices de felicidade foram tão mornos. Para se ter uma idéia, pesquisas dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha mostraram que, nesses países, hoje se consome cinco vezes mais, mas o índice de felicidade está estagnado, desde a década de 50.

Por quê?
Com tantas promessas da tecnologia e da ciência, por um momento acreditamos que conseguir controlar o corpo, as doenças, o envelhecimento, morar em casas superconfortáveis e dirigir carros velozes nos tornaria felizes. Mas pensar assim é focar na nossa porção animal, preocupada com a sobrevivência da espécie.

E a outra porção?
O ser humano tem um lado que anseia pela divindade e por transcender a condição animal de trabalhar-reproduzir-sobreviver. Ele quer enlevo, satisfação, leveza,o que não é contemplado pela ciência, porque o que satisfaz são coisas muito simples. Como uma flor, o pôr-do-sol, aquele sentimento de que a vida pode ser mágica em alguns momentos. É a beleza da vida, a essência. A sensação de que a vida é mais que apenas sobreviver. Isso é dado pelas coisas simples da vida.

Posso dizer que elas promovem a felicidade?
Sim, coisas simples como ter uma vida estável, amigos de verdade, tomar um banho de chuva. Ter prazer pela vida. Ter uma atividade que traz satisfação e a sensação de que você  faz algo por um mundo melhor. É acreditar em algo melhor que a vida cotidiana, por isso a espiritualidade é tão importante para a felicidade. São coisas simples que nos dão a sensação de que a vida pode ser leve, mesmo nos momentos mais difíceis.

Mas mesmo as coisas simples podem ser confundidas pelo consumismo?
Podem. Com a falta de sentido nas coisas materiais, a gente resgata lembranças felizes, por exemplo, na casa da avó tomando leite com café quentinho, na caneca de esmalte, enquanto está chovendo. Muitas pessoas tentam recuperar isso comprando canequinhas, porque devido a valores consumistas, a gente de novo acredita que pode comprar a felicidade, adotando determinados comportamentos, como uma fórmula. Contudo a felicidade não está na canequinha de esmalte, mas na sensação de estar protegido, guardado ,amado. Porque no fim das contas, a principal fonte de felicidade e de infelicidade está nas relações que estabelecemos com as outras pessoas e com o mundo.


“Não existe felicidade se você não for capaz de reconhecer quem você é e o que é importante para si mesmo.”

fonte: aqui

sábado, 16 de maio de 2015

Força em dobro

fonte: gazeta do povo

Perder um filho de forma violenta, outro ainda bebê e enfrentar um câncer. A enfermeira Cleonice Goudart (foto acima), 48 anos, passou por essas situações e conseguiu manter-se otimista para poder criar suas outras duas filhas:

"Acho que nunca tive depressão porque não me fechei, procurei as pessoas. Comecei a frequentar lugares beneficentes, como o Pequeno Cotolengo e o Lar Luz Nascente". Cleonice Goudart, 48 anos, que perdeu dois filhos e venceu um câncer, mas conseguiu se manter otimista. Foto: Letícia Akemi / Gazeta do Povo
“Acho que nunca tive depressão porque não me fechei, procurei as pessoas. Comecei a frequentar lugares beneficentes, como o Pequeno Cotolengo e o Lar Luz Nascente”. Cleonice Goudart, 48 anos, que perdeu dois filhos e venceu um câncer, mas conseguiu se manter otimista. Foto: Letícia Akemi / Gazeta do Povo
“Há oito anos perdi meu filho, Dario Luís, assassinado por um amigo que tinha ciúmes da namorada. Ele tinha 21 anos e deixou uma filha que hoje tem 11 anos. Era carinhoso, popular entre os amigos, nunca tinha se envolvido em brigas. Antes disso, meu primeiro filho faleceu, aos cinco meses, no Mato Grosso. Foi uma reação a uma vacina, outras crianças morreram. Lembro que sofri muito, mas eu era uma criança. Tinha 15 anos e nenhuma noção do que estava perdendo. Dario foi meu terceiro filho e nos dávamos muito bem, pois eu o criava sozinha. Ele trabalhava de cozinheiro em um restaurante de comida mineira. Não era de estudar, mas queria cursar Gastronomia. Não deu tempo.
No dia em que ele foi morto, passei mal no serviço; parece que mãe pressente. À noite, antes de ele sair para buscar a filha nos avós, estava garoando e perguntei se não seria melhor ir no dia seguinte. Pedi um beijo e ele deu, brincando que eu estava carente. Quando vieram me falar que haviam atirado no Dario na frente de casa, corri e vi o agasalho clarinho que ele estava usando empapado de sangue. Ele disse “mãe…”. Foi a última coisa que falou. Senti uma dor de cabeça grande, me levaram ao hospital e quando voltei para casa, de manhã cedo, o corpo tinha chegado para o velório. Não lembro do enterro, estava um zumbi por causa dos calmantes. Cheguei em casa, dormi e quando acordei, perguntei à minha filha se era verdade. Ela disse que infelizmente era.
O rapaz que matou o meu filho não ficou preso mais do que alguns meses, por ser réu primário. Mas não consigo pensar em destino pior do que ser um assassino e sua família e vizinhos saberem disso. Fui ao júri e cheguei a questionar o juiz sobre o que faria se um colega desse uma sentença parecida sobre a morte de um filho dele e ele apenas sacudiu a cabeça. Foi quando percebi que teria que achar um jeito de superar essa dor, que nada traria meu filho de volta. Acho que nunca tive depressão porque não me fechei, procurei as pessoas. Comecei a frequentar lugares beneficentes, como o Pequeno Cotolengo e o Lar Luz Nascente, em Fazenda Rio Grande. Sinto-me bem com isso. Ameniza a dor e a falta que Dario sempre fará. Não só eu perdi um filho, muitas perdem todos os dias.
O meu filho morreu em maio de 2007 e em agosto tive uma hemorragia. Meu útero se rompeu do nada. Uma psicóloga me disse que o corpo reage ao sentimento que guardamos. O câncer de mama, descobri em 2012. Tive um abscesso, foi como se o organismo o rejeitasse. Fiz cirurgia para tirar parte do seio e radioterapia por um ano. Está tudo bem. Acredito na psicóloga, mas penso que se eu tivesse gritado e chorado muito, dependeria até hoje de antidepressivos. Preferi do meu jeito. Quem conversa comigo ou com minhas filhas não nota que tivemos essa perda. Não deixamos que destruísse o que nós tínhamos”.



sábado, 9 de maio de 2015

Reflexão para o dia das mães


O mundo não é maternal

É bom ter mãe quando se é criança, e também é bom quando se é adulto. Quando se é adolescente a gente pensa que viveria melhor sem ela, mas é um erro de cálculo. Mãe é bom em qualquer idade. Sem ela, ficamos órfãos de tudo, já que o mundo lá fora não é nem um pouco maternal conosco.
O mundo não se importa se estamos desagasalhados e passando fome. Não liga se virarmos a noite na rua, não dá a mínima se estamos acompanhados por maus elementos. O mundo quer defender o seu, não o nosso.
Mãe também quer que a gente tenha boa aparência, mas está mais preocupada com a nossa limpeza interna: não quer que a gente se drogue, que a gente fume, que a gente beba.
O mundo nos olha superficialmente. Não consegue enxergar através. Não detecta nossa tristeza, nosso queixo que treme, nosso abatimento. O mundo não tira nossa febre, não penteia nosso cabelo, não oferece um pedaço de bolo feito em casa.
O mundo, quando não concorda com a gente, nos pune, nos rotula, nos exclui. O mundo não tem doçura, não tem paciência, não pára para nos ouvir. O mundo pergunta quantos eletrodomésticos temos em casa e qual é o nosso grau de instrução, mas não sabe nada dos nossos medos de infância, das nossas notas no colégio, de como foi duro arranjar o primeiro emprego.
Mãe é de outro mundo. É emocionalmente incorreta: exclusivista, parcial, metida, brigona, insistente, dramática, chega a ser até corruptível se oferecermos em troca alguma atenção. Sofre no lugar da gente, se preocupa com detalhes e tenta adivinhar todas as nossas vontades, enquanto que o mundo propriamente dito exige eficiência máxima, seleciona os mais bem-dotados e cobra caro pelo seu tempo.
Mãe é de graça!

Martha Medeiros

sábado, 2 de maio de 2015

"Mães Para Sempre" – a dor da perda de um filho

por Camila 
Fundadora da comunidade do Facebook “Mães Para Sempre” conta sobre a dor de perder um filho.
A recente morte do filho do governador Geraldo Alckmin, Thomaz Alckmin, e do menino de dez anos Eduardo de Jesus Ferreira, levantaram um assunto importante e pouco falado, o luto da perda de um filho. Uma reportagem do UOL trouxe depoimentos de pais e psicólogos sobre a possibilidade de superar essa dor, colocando como pontos importantes a participação no ritual de despedida, como decidir sobre questões envolvendo velório, enterro ou cremação, e a manutenção dos pertences do filho por um determinado período.
A utilização da internet como forma de processar o luto é um importante aliado e foi um dos caminhos escolhidos por Amanda Tinoco, de 37 anos, com a criação da comunidade no Facebook “Mães Para Sempre”. Seu filho único Gabriel, de 16 anos, morreu em janeiro de 2014, atropelado por um ônibus. Há uma certa ironia do destino pois de certa forma foi a vida online que o levou ao local do acidente.
Ele buscava conquistar um portal do game Ingress do Google. É um aplicativo baixado no celular do tipo “Jogo Móvel de Realidade Aumentada”. Ele é baseado na conquista desses portais, que são objetos físicos espalhados pela cidade, como estátuas, monumentos, prédios ou loja específicas. O jogador deve sair andando pela cidade em busca desses portais e por esse motivo divulga-se o combate ao sedentarismo como um de seus aspectos positivos. Gabriel viu que havia perto da sua casa, um portal muito importante, um chafariz com o nome de “Chafariz dos Anjos”, e saiu animado em conquistá-lo e assim ajudar seu time. Ele foi encontrado com o celular nas mãos e a tela do jogo acesa. Distraiu-se conforme caminhava, olhando para baixo focado na tela no telefone, e acabou atravessando o percurso do ônibus. O game tem uma segunda fase que deve ser feita de carro e não mais a pé. Gabriel morreu exatamente na frente do tal chafariz.
Confira a entrevista, abaixo.
 Você se ressente com o game Ingress pela morte de seu filho?
Tenho pavor desse jogo e acho que ele pode ser extremamente perigoso. O Gabriel, por exemplo, era um adolescente viciado em games, inclusive de estratégias e conquistas, só que no mundo virtual. O Ingress traz esse “mundo” para a vida real, mas aqui os “agentes” só possuem uma vida, entende? Não tem como salvar o jogo, não há “continue” nem vidas extras… é game over mesmo. Fiquei sabendo que nos Estados Unidos há grupos de pessoas que montam guarita em frente aos portais para vigiá-los, e já houve brigas reais entre as equipes. Acho que para os “gamers” da geração atual, esse tipo de jogo é mais do que uma distração, é um compromisso, um desafio, uma missão. Eu diria até uma ideologia. Por isso se torna tão perigoso misturar os mundos virtual e o real. Lamento tanto não ter tido tempo para prever os perigos desse jogo. Gabriel o jogou pela primeira vez no domingo, e pela segunda vez na segunda-feira, na ocasião do acidente. Pena que sou uma “formiguinha” tão pequena. Não fosse isso, iria abrir um mega processo contra a Google.
Você vê diferenças entre a dor da perda de um ano atrás, quando seu filho morreu, e a de hoje?
Sim… Quando Gabriel morreu eu fiquei em estado de choque. Nunca imaginei que ele pudesse morrer. Eu já tinha imaginado a morte de todo mundo ao meu redor, a dele nunca. Para mim ele era imortal. Pegar o atestado de óbito e o laudo cadavérico foram ações completamente surreais.
Acho que nossa sociedade é extremamente despreparada para lidar com a morte e isso foi muito ruim para mim. Eu nunca ter imaginado que meu filho poderia morrer acabou comigo. Nunca falei com o Gabriel sobre a morte, nem sei o que ele pensava do assunto e acho importante que isso seja conversado, como algo normal, porque é um fato, todo mundo vai morrer. Isso precisa estar claro.
Eu gosto de dizer que é preciso desmitificar a morte porque ela faz parte da vida. A impermanência faz parte da vida. E esse conceito é real. Hoje estamos, amanhã não estamos. Hoje eu estou falando com você e amanhã a gente não sabe se poderemos nos falar ou não. O luto me trouxe essa consciência.
Um dos primeiros livros que li quando o Gabriel morreu foi o “Livro Tibetano do Viver e do Morrer” e eu acho que esse livro deveria ser abordado nas escolas e discutido com os pais. Eu teria aproveitado melhor o tempo com o Gabriel.
Mas há altos e baixos no processo do luto. Já passei pela fase do entorpecimento (choque), da negação e acho que agora estou passando pela fase da raiva. É um processo inconstante, não segue uma linha reta. Há dois meses atrás eu estava muito melhor do que estou hoje.
Por que seu luto piorou?
Quando fez um ano da morte dele, em janeiro, preparamos uma homenagem. Falamos da vida do Gabriel, eu fiz um livro com os poemas que ele escreveu. Ele escrevia os poemas numa folha de caderno, arrancava e dava para as pessoas, então eu só tinha os poemas que ele publicou no blog. Todo mundo vestiu uma camiseta com sua imagem. Seguimos um roteiro. O pai dele é músico e tem um coral que cantou músicas do Legião Urbana, uma das bandas prediletas do Gabriel. Falamos sobre a morte fazer parte da vida e que é preciso encarar a morte e deixar de vê-la como um tabu.
Falei também da doação de órgãos, uma causa que desejo me empenhar, porque não autorizei algumas das doações por pura falta de informação. Mas saber que ele salvou algumas vidas me deixa em paz. Quando se está na fila da doação não é uma questão de viver melhor, é de viver ou não.
Uma frase que eu disse durante a homenagem que tem me acompanhado muito é que se eu soubesse que eu iria perdê-lo com 16 anos, eu ainda sim teria feito tudo de novo. Teria mesmo. Tudo valeu a pena.
Logo depois da homenagem, eu fiquei bem. Parecia que estava pronta e tinha de certa forma superado o luto e que o Gabriel estava vivo dentro de mim. Pensei que eu tinha conseguido encerrar um ciclo. Mas, recentemente, eu tive que desmontar o quarto dele, porque estávamos fazendo uma obra aqui em casa. Não fazia mais sentido deixar o quarto intacto. Quando eu tive que descaracterizar tudo, fiquei acabada. Retrocedi muito, talvez por ter reconhecido a imutabilidade da perda. A entrevista que nós teríamos tido antes disso seria completamente diferente.
Como você entrou em contato com a terapia de luto?
Eu busquei ajuda porque não tinha a menor noção de como continuar vivendo sem ele. Ele era o centro da minha vida. É como se tivessem arrancado meu coração fora. Se eu não tivesse fé em Deus, eu teria me matado, porque eu não conseguiria viver sem ele. Mas Deus me diz que eu não tenho direito de me matar. Não tenho nenhuma religião, mas tenho fé em Deus.
Busquei ajuda no núcleo de apoio do Detran, que oferece suporte às famílias das vítimas de trânsito. Lá eu encontrei uma mãe, que também tinha perdido uma filha, que me indicou a Dra. Adriana Thomaz, que tem uma terapia fundamentada em ressignificação. A empresa onde eu trabalho, a Embratel, pagou o tratamento e o faço até hoje. Me agarrei a ele com todas as minhas forças. Minha rotina foi ler, me esforçar para ir trabalhar e fazer terapia. Foi muito difícil voltar ao trabalho depois dos cinco dias úteis de licença permitidos. Só consegui trabalhar de verdade depois de alguns meses.
Como sua comunidade no Facebook te ajudou/ajuda a lidar com esse luto?
Em princípio, quando a comunidade não existia, eu ficava postando mensagens sobre a minha dor e sobre o Gabriel na minha página pessoal do Facebook. Comecei a achar que eu estava sendo inconveniente com meus amigos. Ai eu pesquisei sobre grupos de luto e vi que havia iniciativas de comunidades e blogs, como a  “Mães Sem Nome”, “Mães de Anjos”, “Mães Enlutadas”, “Mães Coragem”, etc.
Eu achava que pelo Gabriel ter morrido, eu não era mais mãe. Conversando com a minha terapeuta, descobri que eu continuo sendo mãe. Daí juntei essa questão da maternidade permanente com minha vontade de compartilhar meus sentimentos e criei a “Mães Para Sempre”. Foi ai que eu descobri que existe um mundo a parte, que é uma sociedade de mães que perderam seus filhos, que cresce a cada dia.
Dedicar horas do meu tempo na preparação de posts e em conversas com outras “Mães Para Sempre” faz com que eu me sinta bem, de alguma forma, diante de tanta dor e saudade. Falamos a mesma língua e compartilhamos os mesmos sentimentos. Por isso temos paciência, compaixão e solidariedade umas com as outras. Minha comunidade, assim como muitas outras que existem, é um recanto de acolhimento, amor e respeito aos nossos sofridos corações de mães.
É possível conviver com a dor do luto?
Talvez seja falta de opção. Mas pensando bem, acho que é possível sim, por causa do amor que a gente tem por eles. Se me oferecessem a oportunidade de acabar com a minha dor, mas para isso eu teria que esquecer tudo o que a gente viveu, todas as memórias, eu não toparia. Aceito ter que viver com a dor em prol dos 16 anos de lembranças que eu tenho.
O que te conforta?
O que me conforta é a minha fé e a esperança no reencontro. Não tenho uma religião específica, mas acho que existe a vida após a morte. Eu acredito que o Gabriel está vivo em algum plano. Mas se você me perguntar se eu sou espírita ou se acredito em reencarnação, vou te responder que eu não sei. Mas acredito que a vida não acaba aqui e sinto no meu coração que haverá um reencontro. Sonho com isso. Fiz um post em que a mãe fala para o filho: um dia você vai me pegar pela mão e vai me dizer: vem mãe, agora é para sempre. Esse post foi muito curtido, porque acredito que é o sonho de muitas mães, é o que sustenta muitas de nós.
O que te irrita?
Uma coisa que eu não gosto é não me deixarem falar dele. E isso é um tabu. Algumas pessoas ficam sem graça, receosas, quando eu falo no Gabriel. Eu preciso falar dele e tenho vontade de contar as histórias que temos juntos, mas percebi que as pessoas ficam constrangidas. É uma pena porque a gente gosta de falar deles… porque para a gente eles continuam vivos. As memórias que temos são muitos reais, não acabou. Quando eu falo do Gabriel lá no trabalho, fica todo mundo em silêncio. Eu até entendo, mas não precisava.
Tem alguma frase, ou expressão, que te acompanha?
Sim, tenho. É uma frase muito conhecida de todos por estar contida na oração mais popular do mundo – O Pai Nosso: “Pai, Seja Feita a Vossa Vontade, assim na Terra como no Céu”.
O que você diria para alguém que acabou de perder um filho?
Você pode sofrer, chorar, falar, calar, etc, afinal seu filho morreu. Respeite seus sentimentos, seu tempo, seus limites. Aprendi que devemos viver com coerência íntima durante o luto. Não se pode abrir mão do luto para agradar ninguém. Respeite-se. Reserve um tempo só para você. Haverá dias em que você só conseguirá respirar, e tudo bem. Procure viver um dia de cada vez; tenha fé no que é sagrado para você. Pense que o amor entre pais e filhos transcende a barreira da morte e lembre-se de que você não deixou de ser mãe, ou pai. Você o será para sempre.
fonte: aqui

meu filho continua vivo