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sexta-feira, 19 de agosto de 2016

como ajudar um filho a encarar a morte


Quando ocorre uma morte na família, tanto os pais como outros parentes e amigos muitas vezes não sabem o que dizer ou fazer para ajudar os filhos a encarar o que aconteceu. No entanto, os filhos precisam dos adultos para ajudá-los a encarar a morte. Considere algumas das perguntas que se costumam fazer sobre como ajudar os filhos a entender a morte.
Como explicar a morte aos filhos? O importante é explicar o assunto em termos simples. Seja também veraz. Não hesite em usar palavras reais, tais como “morto” e “morte”. Por exemplo, poderá sentar-se com o filho, tomá-lo nos braços e dizer: “Aconteceu uma coisa muito, muito triste. Papai ficou bem doente duma enfermidade que poucas pessoas contraem [ou outro fato verídico do caso], e morreu. Ninguém tem culpa de que ele morreu. Vamos sentir muita falta dele, porque o amávamos, e ele amava a nós.” Todavia, pode ser útil explicar que o filho, ou o pai ou a mãe, não vão morrer também só porque às vezes ficam doentes.
Anime-os a fazer perguntas. ‘O que significa estar morto?’ talvez perguntem. Você poderia responder assim: “‘Estar morto’ significa que o corpo parou de funcionar e não pode mais fazer nada daquilo que costumava fazer — não pode falar, nem ver ou ouvir, e não pode sentir nada.” O pai ou a mãe que crê na promessa bíblica da ressurreição pode aproveitar esta oportunidade para explicar que Jeová Deus se lembra do falecido e pode trazê-lo de volta à vida no futuro Paraíso terrestre. (Lucas 23:43; João 5:28, 29) — Veja a parte “Uma esperança certa para os mortos”.
Há algo que não devia mencionar? Não ajuda nada dizer que o falecido foi fazer uma longa viagem. O que mais preocupa a criança é o medo de ficar abandonada, especialmente quando o pai ou a mãe morreu. Dizer-lhe que a pessoa falecida foi fazer uma longa viagem pode apenas reforçar o sentimento de abandono da criança e ela pode raciocinar: ‘Vovó foi embora e nem mesmo se despediu!’ Tenha também cuidado, com crianças pequenas, quanto a dizer que a pessoa falecida foi dormir. As crianças tendem a tomar as coisas de forma bem literal. Se a criança associar o sono com a morte, isso poderá resultar em ela ter medo de ir dormir à noite.
Devem as crianças assistir a serviços fúnebres? Os pais precisam levar em conta os sentimentos dos filhos. Se eles não quiserem ir, não os obrigue, nem os faça de algum modo sentir-se culpados por não irem. Se quiserem ir, dê-lhes uma descrição pormenorizada do que vai acontecer, inclusive se haverá um caixão, e se este estará aberto ou fechado. Explique também que talvez vejam muita gente chorando, por estarem tristes. Novamente, deixe que façam perguntas. E assegure-lhes que eles poderão ir embora, se for preciso.
Como reagem as crianças à morte? As crianças muitas vezes se sentem responsáveis pela morte de um ente querido. Visto que a criança, numa ou noutra ocasião, talvez se tenha zangado com a pessoa que morreu, ela pode chegar a crer que as ideias ou palavras zangadas causaram a morte. Você talvez tenha de dar-lhe algum consolo: ‘Suas ideias e palavras não fazem as pessoas adoecer, e não fazem as pessoas morrer.’ Uma criança pequena talvez precise ser repetidas vezes tranquilizada assim.
Deve esconder dos filhos o pesar que sente? Chorar diante dos filhos é tanto normal como saudável. Além disso, é quase impossível esconder completamente seus sentimentos dos filhos; eles têm a tendência de ser muito observadores e muitas vezes percebem que algo está errado. Se você for sincero a respeito do seu pesar eles saberão que é normal sentir pesar e às vezes demonstrar os sentimentos.
fonte: http://wol.jw.org/pt/wol/d/r5/lp-t/1101994004#h=30

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

A DOR E O CHOQUE DA MORTE SÚBITA

Conheça impactos desta perda e caminhos para se adaptar à nova realidade

por Celia Lima

Não existem lutos fáceis. Mesmo quando uma pessoa fica doente por um longo período antes de morrer, no momento em que ela se vai é que a perda é concretizada. Um profundo sentimento de impotência toma conta dos que ficam, mesmo que a interrupção do sofrimento seja entendida como benéfica, tanto para o doente quanto para os familiares. Os sentimentos que acometem quem fica vão desde a culpa até a raiva, passando pelos fantasmas do abandono, da rejeição, do inconformismo. São muitas asfacetas do luto.
Mas saber da possibilidade da morte, seja por doença, por internação prolongada, porque assistimos a lenta partida de nossos velhinhos que simplesmente adoecem pois precisam morrer um dia, ou porque acompanhamos a evolução de uma metástase ou de outras doenças degenerativas que não têm cura, faz com que a pergunta "quando?" esteja mais presente e, assim, vamos nos preparando para a despedida.
Na doença, por mais paradoxal que possa parecer, temos a feliz possibilidade de ajustar coisas que ficaram pelo meio do caminho. Podemos dissolver as mágoas, declarar um amor que nunca foi dito, dedicar nosso tempo e nossos cuidados para amenizar a dor e o sofrimento de quem está doente e este, por sua vez, em suas reflexões, pode manifestar igualmente seu amor, passar por processos de compreensão e descobrir que não vale a pena continuar magoado com aquele filho ou com aquela mãe, tendo então a oportunidade de refazer seus sentimentos e recobrar a paz dentro de si.
A morte é inevitável, mas o fato de alguém morrer pode ser emocionalmente mais suave ou menos doloroso, quanto mais as pessoas envolvidas com o processo tiverem consciência da importância de dar ao doente um amparo amoroso diante de seus medos e de suas dúvidas frente à jornada que está por vir. E certamente, nesse processo, quem está passando pela perda também busca amparo, seja nos médicos, na religião, nos amigos ou nos parentes.
Chamamos de "luto antecipatório" o processo de luto que ocorre antes da morte, tanto pelo doente que vai perdendo gradativamente sua vida social, profissional e pessoal, além do viço corporal que antes tinha - vivendo assim um luto de si mesmo - quanto pelos familiares que acompanham esse findar. A expressão dos sentimentos nessa fase é fundamental no processo de elaboração do luto após a morte. Não apenas o enfermo merece cuidados afetivos especiais, mas também o cuidador principal que, muitas vezes, abdica de sua vida para prestar cuidados e, ao final, sente-se esvaziado.

QUANDO A MORTE VEM SEM AVISAR

Embora tenha-se a sensação, em casos de doença prolongada, de que a morte foi inesperada, a perda por morte súbita toma outros matizes: não há preparo, não há tempo para reflexão, para despedidas, para o perdão, para declarar o amor. Cai-se num funil de incredulidade ao presenciar ou ao receber a notícia do falecimento repentino de uma pessoa querida e muitos sentimentos desencontrados vão se transformando em perguntas, normalmente sem respostas num primeiro momento: "por quê?", "por que isso aconteceu comigo? Com ele?", "por que você fez isso comigo?", "onde você está?", "o que eu fiz de errado?", "onde eu estava que não impedi que isso acontecesse?".
A negação do fato é muito recorrente nos primeiros dias e até semanas. Muitas pessoas têm dentro de si a certeza de que a qualquer momento seu familiar querido vai entrar pela porta e então se certificará de que tudo não passou de um pesadelo."A negação do fato é muito recorrente nos primeiros dias e até semanas. Muitas pessoas têm dentro de si a certeza de que a qualquer momento seu familiar querido vai entrar pela porta e então se certificará de que tudo não passou de um pesadelo."
Muitos quadros de ansiedade podem se instalar nesses momentos, pois se a espera é real, por um lado, por outro existe um conflito interno muito intenso entre a expectativa do reencontro e a aceitação do fato.
Quem perde uma pessoa querida de forma abrupta sente um imenso vazio e constantemente uma grande culpa. Fica por muito tempo refazendo a história com aquela pessoa, se consumindo em tudo aquilo que poderia ter sido diferente, tendo a sensação de que não fez o bastante por ela e busca dentro de si uma forma de reparar aquilo que entende por erros cometidos. É como uma hipnose, e nesses casos o processo do luto pode ser mais traumático. Não é raro que o enlutado ande de um lado para outro chamando pela pessoa querida ou vá a lugares que ela gostava de estar, na esperança vazia do reencontro.
Mas nada disso pode ser considerado um problema. A dor intensa que acompanha a perda permite todas as manifestações. Porém, pode-se atravessar esse período de forma mais branda, e o que vou citar é importante para quem sofre mais diretamente a perda e para os amigos e familiares que estão amparando o enlutado.
Em primeiro lugar, a dor é inevitável. Chorar, chamar pela pessoa que se foi, lembrar-se dela a todo instante e desejar longos períodos de recolhimento não apenas é normal, como faz parte do processo. Também é parte do processo perder um pouco a concentração, sonhar com frequência com a pessoa e não saber como ocupar o espaço físico que agora ficou maior. Mas é preciso respeitar os próprios tempos... cada um vive essa dor à sua maneira. Tudo pode também vir acompanhado de raiva, não apenas de quem se foi sem avisar, como essa raiva também pode se voltar contra si mesmo. Por isso, é importante estar atento a todos os sentimentos, pois muitas vezes algumas pessoas mais fragilizadas podem, na ânsia de se livrarem da dor intensa, se desconectar da realidade ou, ao contrário, buscar alento ou refúgio na bebida ou outros tipos de droga, adiando assim o processo do luto. Mais cedo ou mais tarde elas vão ter que se confrontar com a perda.
Falar sobre a perda é muito importante, falar sobre a dor que se está sentindo é muito bom também. Buscar o apoio emocional e afetivo da família e dos amigos é fundamental e existe ainda outra forma de superar a perda entre seus iguais em sentimentos, que são grupos de apoio formados por pessoas que estão vivendo a mesma situação. Não sentir-se sozinho nesses momentos é fundamental, reconhecer que você não é o único a sentir o que está sentindo. O isolamento social deve ser evitado ao máximo e a busca por convívio social vai aos poucos promovendo a retomada das atividades da vida do enlutado. É preciso voltar ao trabalho, aos estudos, à família... porque você está aqui.

FÉ PARA ENFRENTAR A DOR

A fé não ajuda a cessar a dor, mas sim a enfrentá-la. Cada um tem suas crenças, sua religião ou sua forma particular de expressar a fé. O exercício de sua crença religiosa é mais um apoio importante para atravessar a fase do luto. A fé conforta e acolhe. As pessoas que têm algum tipo de crença de que a vida não termina com a morte física, por exemplo, encontram nesse pensamento a esperança do reencontro e aliviam o coração. Entendem que esse afastamento é temporário e que em algum momento no tempo - tanto para os que acreditam que quem se foi mergulhou num sono profundo, tanto para os que creem que a vida espiritual é desperta e ativa - voltarão a se encontrar, a se abraçar e a conversar. Não importa qual seja a sua crença, a fé faz com que, de alguma forma, quem fica se sinta conectado com quem se foi."Não importa qual seja a sua crença, a fé faz com que, de alguma forma, quem fica se sinta conectado com quem se foi."
Além disso, cada um pode escolher formas de entrar em contato com a memória de seu amado. Ir ao cemitério ou ao local onde as cinzas foram depositadas, em caso de cremação, ou mesmo escolher um canto da casa para colocar uma foto e depositar flores pode promover um encontro íntimo de almas que alivia a saudade. Ir ao templo para buscar o silêncio e o recolhimento necessários para fazer essa conexão é outra alternativa salutar.
É importante ter consciência de que o tempo é um aliado, ele se encarrega de nos acomodar à nova realidade. Aos amigos e familiares dos enlutados, deixo a sugestão de ficarem atentos ao comportamento deles. A maior parte das pessoas que perdem alguém de forma repentina consegue se ajustar à nova realidade. Entretanto, outras passam um período além do esperado sem conseguir superar a perda, o que pode também estar ligado à forma como ocorreu o falecimento. Mortes por acidente, violência ou suicídio, que remetem a imagens impactantes, podem ser complicadores na vivência do luto. Entre os possíveis sintomas do enlutado que merecem atenção, estão os seguintes:
  • Reviver de forma intensa e recorrente o momento da morte ou da notícia da morte, seja através de sons, percepções, imagens ou sonhos; evitar qualquer situação, lugar, pessoas ou eventos que lembrem o ocorrido; insônia; irritabilidade; perda prolongada de concentração e sobressaltos exagerados. Esses são sintomas que fazem parte do que chamamos de Estresse Pós-Traumático.
  • Reclusão e alienação; autocomiseração; desinteresse por coisas, fatos ou pessoas importantes; inapetência; desinteresse pela higiene e cuidados do próprio corpo; comportamento ou ideias suicidas. Esses sintomas fazem parte de Depressão Profunda.
Nos casos citados acima, é fundamental que o enlutado receba ajuda profissional, não apenas recorrendo a medicamentos que o redirecionem à realidade, mas também buscando apoio psicoterapêutico, de preferência envolvendo toda a família. Existem várias formas de abordar e ajudar a vivenciar o processo de luto, e ter um espaço adequado para expressar os sentimentos e facilitar a despedida é de extrema importância nos casos de luto complicado.


EXERCÍCIO QUE AJUDA A ACEITAR A MORTE

A vida tem um ciclo, todos vamos morrer um dia. Pensar a morte é fundamentalmente pensar a vida. Mas quando a morte chega é que nos lembramos que talvez tenhamos dado muita importância ao que não era tão importante e pouca importância ao que deveríamos ter dado atenção.
Proponho, então, um breve exercício de reflexão: imagine que você saiba quando vai morrer. O que gostaria de fazer? Quem gostaria de encontrar? De quem gostaria de se despedir? Com quem desejaria fazer as pazes? A quem gostaria de declarar seu amor? A quem gostaria de agradecer? Que desejo de alguém gostaria de satisfazer? Que desejo seu gostaria de realizar?
Mas a morte repentina não manda aviso. Ela simplesmente acontece e não há nada que possamos fazer. Ou melhor, há: podemos trabalhar em nosso dia a dia para resolver nossas mágoas com pessoas importantes, podemos demonstrar gratidão pelos pequenos e grandes gestos que tiveram por nós, podemos dedicar mais tempo aos nossos pais e nossos filhos, podemos visitar pessoas queridas, podemos declarar e demonstrar nossa afeição por todos à nossa volta. Por que não há nada mais gratificante do que saber que não deixamos coisas por fazer ou dizer quando perdemos alguém, que todo o amor possível foi vivido ou declarado.
Mas não se impressione caso não tenha se dado conta de que todos vamos morrer, pois você pode começar a refletir a respeito disso e modificar muitas coisas em seu comportamento diante das pessoas que ama e em sua escala de valores. Também não se impressione caso já tenha perdido alguém repentinamente. Sempre haverá formas de reeditarmos a história em nossos corações.
fonte:http://www.personare.com.br/a-dor-e-o-choque-da-morte-subita-m4965

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

A dor de quem carrega a lembrança do suicídio de um ente querido

Do UOL, em São Paulo
Segundo dados da OMS (Organização Mundial da Saúde), no mundo, a cada 40 segundos, uma pessoa se suicida. Ainda assim, quase não se fala sobre o tema. "É um tabu. Tanto a sociedade quanto os sobreviventes do suicídio
 têm dificuldade em falar do assunto. Tirar a própria vida é um contrassenso em relação a tudo o que normalmente buscamos em nossa existência", explica a psicóloga Valéria Tinoco, do Instituto Quatro Estações, especializado em luto, em São Paulo.
Quem enfrenta a perda costuma ter culpa, vergonha, fracasso e até raiva. “É importante que o enlutado entenda que o suicida estava adoecido emocionalmente e que procure encontrar um significado para o que aconteceu”, diz a especialista. Veja, a seguir, três depoimentos de pessoas que perderam entes queridos para o suicídio:
André Durão/UOL

imagem: André Durão/UOLKátia Maria de Fátima Arantes, 58, aposentada, Rio de Janeiro (RJ)

"Meu filho Daniel tinha 25 anos quando se matou, em casa, com um tiro, no dia 23 de agosto de 2001. Morávamos eu, meu marido (hoje ex), minha filha de 15 anos e minha avó de 88 anos. O Daniel era fruto de um casamento anterior, mas foi criado pelo meu segundo marido, pois o pai biológico dele sempre foi ausente. Éramos uma família feliz. Daniel, no entanto, já havia tentado o suicídio antes, ingerindo remédios. Apesar de ser deprimido desde a infância, estava passando por acompanhamento com uma psicóloga e uma psiquiatra. Além disso, era recém-formado em Psicologia na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). Isso nos dava uma falsa tranquilidade. Na hora em que meu marido ligou para avisar o que tinha acontecido, tive forças para tomar um calmante e consegui chegar em casa. Meu corpo ficou sem coordenação, como se eu tivesse tido um AVC. Do meu emocional, não sobrou nada. Nessa situação, você não encontra saída, pois a morte é a única coisa que não tem volta. Nos primeiros meses, às vezes, eu dava com a cabeça na parede de tanto desespero. Tive muito apoio dos meus irmãos, do meu cunhado, dos professores e dos colegas do curso de Direito que eu fazia. Eles não deixaram que eu trancasse a faculdade e me formei no final de 2001. Minha filha amadureceu dez anos em um com a perda e o trauma. Foi ela que encontrou o irmão após o acontecido. Hoje, depois de mais de 14 anos, tenho momentos de alegria, mas a angústia da falta nunca passou. Perder um filho
 é perder a continuidade da sua família, perder todos os descendentes que poderiam vir, é perder o futuro, os netos e os bisnetos. Acho que o tabu a respeito do suicídio começa quando se fala em doença mental. No entanto, são problemas que acontecem em quase todas as famílias."

Júlio César de Moura Nunes, 25, motoboy, Extremoz (RN)

"Meu irmão Paulo Vitor se matou quando tinha 25 anos. Era casado e trabalhava como técnico em informática. Foi no dia 1º de julho de 2009. Sabíamos que ele tinha depressão, mas já havia sido tratado. Um dia, ele saiu de moto como se fosse trabalhar. No meio do caminho, ligou para minha mãe e meu pai chorando, avisando que ia pular da ponte Milton Navarro (atração turística de Natal, sobre o rio Potengi). Ligou também para a polícia, avisando onde deixaria a moto e o capacete. Soube pela minha cunhada, que era mulher dele na época. Fiquei desnorteado, sem saber o que fazer. Andava pela casa e ficava pensando nos meus pais. Acho que todo mundo se sentiu um pouco culpado. Por que deixamos ele sair? Ele era estudioso e trabalhador. Cursou Filosofia na UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte). Vivia me dando conselhos: não beba demais, não use drogas, estude, tenha um trabalho. Hoje, não sou muito de falar sobre isso, pois é doloroso. Lembro dele e tenho muita saudade, pois ele cuidava de mim. Na virada do ano, minha mãe estava aqui em casa e, quando me abraçou para desejar feliz Ano-Novo, falou: 'Tenho tanta saudade do seu irmão'. Disse para ela ter um pouco de paciência, pois, um dia, todos vamos nos encontrar de novo."
André Durão/UOL

imagem: André Durão/UOLPatricia Fanteza, 44, empresária, Rio de Janeiro (RJ)

"Perdi meu pai, Jorge, há 20 anos, quando ele tinha 52 e eu, 24. Ele foi até a casa da mãe dele, que havia falecido uns seis meses antes, ligou o gás do forno e fechou a cozinha. Ele era uma pessoa amorosa, presente, benquista por todos. Não era aparentemente depressivo, mas não falava muito sobre as próprias emoções, era reservado. Em 1995, me casei e fui morar em Santa Catarina. Três dias depois, recebi por telefone a informação de que ele tinha falecido. Por algum motivo, pude sentir isso. Meu ex-marido atendeu e perguntei para ele: ‘Meu pai morreu, não?’. Depois, soube pela minha mãe que, três dias antes do suicídio, ele estava mais recolhido, deitado e sem vontade de sair do quarto. Na noite em que tirou a própria vida, chegou a ligar para dois tios meus. Um deles era mais próximo, mas não pôde atendê-lo naquele momento. Jamais saberemos se a ligação era um pedido de ajuda. Eu me lembro de que, no início, tinha vergonha de falar a verdade na cidade pequena onde morava. Dizia que meu pai teve um infarto fulminante. Chorava dia e noite, foi muito difícil aceitar. Um dia, meu ex-marido falou: ‘O que posso fazer para não te ver triste desse jeito?’. E eu respondi: ‘Só queria dez minutos com meu pai, para dar um beijo nele e abraçá-lo’. Nesse dia, fui dormir chorando e sonhei com ele. Cerca de um ano depois, em uma noite de tristeza profunda, vi na TV uma propaganda do CVV (Centro de Valorização da Vida), entidade que oferece serviço gratuito de apoio emocional, feito por voluntários. Liguei e foi um alívio. Finalmente, falava com alguém que me ouvia de maneira neutra, carinhosa e respeitosa, sem me vitimizar, nem julgar. Alguns dias depois, voltei para o Rio e acabei me tornando voluntária também."