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terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Luto em Situação de Crises, Desastres e Tragédias

Luis Gonçalves/AgenciaPreview


Por Rodrigo Luz.

Mortes por violência ou que envolvem uma grande quantidade de vítimas (Dillenberger, 1992; Horowitz, 1976) têm sido objeto de muitas pesquisas. Todos mostram um grande risco para a saúde mental, como no caso da pesquisa de Dillenberger (1992, apud. Parkes, 1998), que utilizou uma série de métodos padronizados para acompanhar o luto de viúvas que perderam seus maridos em condições violentas, encontrando resultados elevadíssimos com respeito aos problemas psicológicos. Em casos que são envolvidas quantidades imensas de pessoas, o luto tende a ser complicado por fortes sentimentos de raiva e culpa. Parkes (1998) lembra que a decepção com o poder das autoridades que devem manter a segurança e a ordem pode gerar uma série de temores. Algumas mortes violentas, "mas não todas, são resultantes da ação humana, causando reações de raiva e culpa muito compreensíveis" (Parkes, 1998). No entanto, há fatores de risco que ameaçam o bom encaminhamento do luto: a combinação de morte repentina, inesperada, horrível e precoce, com toda a raiva e suspeita que a seguem, mais a lentidão do processo legal, que geralmente leva a uma sentença banal em comparação com a magnitude da perda, podem levar a família ao estresse e deixar de apoiar os seus membros, gerando problemas psicológicos que podem ser persistentes ou duradouros. Tais consequências colocam as pessoas em um ciclo vicioso que perpetua os problemas. Raphael (1986) dedicou-se a estudar os desastres, na perspectiva de que "perdas múltiplas e simultâneas são mais traumáticas do que as perdas isoladas". Além dos efeitos das perdas múltiplas, os desastres podem minar as redes de apoio social que comumente acionaríamos, e mesmo os que podem oferecer apoio encontram-se em risco para a sua saúde mental. Aqueles que testemunharam as mortes, de uma forma ou de outra, têm mais risco de desenvolver transtornos que podem complicar o luto. Há uma série de determinantes para o processo e para o resultado do luto, que podem ser estudadas a fundo em Parkes (1998 e 2009). Na tragédia de Santa Catarina, na qual morreram muitos jovens, quem está à frente da organização desse grupo de profissionais de saúde voluntários? O que podemos e devemos pensar sobre as necessidades agora? É necessário que existem pessoas experimentadas por lá. Que mantenham-se inteiras, atentas e sejam comandadas por alguém que saiba o que está fazendo... O percurso demanda uma formação capacitada para essa abordagem... Lidar com uma tragédia de grandes proporções demanda uma abordagem muito diferente da que fazemos com o luto normal, uma vez que o estresse, a sensação de destruição, de vida sem valor são muito mais intensas, e o mundo presumido pode ter sido amplamente quebrado (Parkes, 2009). Concepções básicas entram em jogo: o mundo pode parecer um local inseguro para ser vivido. E a longo prazo??? As pessoas continuarão precisando de apoio psicológico, mesmo depois que a mídia deixar de focalizar a questão com a mesma ênfase. Consideramos muito importante o trabalho da imprensa, na busca de divulgar informações confirmadas, de modo a não alimentar rumores que tanto mal causam às famílias enlutadas e desorganizam os esforços de reconstrução, por parte do poder público. Um grande problema que percebemos, na atividade da imprensa, é o escancaramento de imagens fortes, repetidas à exaustão, sem considerar os efeitos que tais imagens produzem nas subjetividades... Através das transmissões dos programas televisivos e dos diversos meios de comunicação instantânea, a morte tornou-se companheira diária de crianças, adultos e idosos, caracterizando-se como invasora e sem limites. A morte interdita e a morte escancarada coexistem “porque o escancaramento da morte não permite espaço para a sua elaboração, devido à rapidez da sua propagação, somando-se a todas as distorções percebidas nos meios de comunicação” (KOVÁCS, 2009). Kovács (2003) exemplifica a morte escancarada em duas situações: a morte violenta das ruas, os acidentes e os homicídios; a morte veiculada nos órgãos de comunicação, mais especificamente pela TV . A morte violenta nas ruas está aumentando significativamente, com altos índices de homicídios e de acidentes que envolvem, sobremaneira, os jovens. É escancarada, sim, “porque ocorre na frente de qualquer pessoa, sem máscaras ou anteparos” (KOVÁCS, 2003). Todos a veem, inclusive as crianças. Geralmente, é muito violenta, como as chacinas e os latrocínios. Essa qualidade de ser escancarada não permite proteção, não há espaço para previsibilidade, e torna a todos vulneráveis. Nesta maneira de estar com a morte, “não há humanidade, mas apenas sensação de vulnerabilidade e de vida sem valor, sem sentido” (KOVÁCS, 2003). Entre as modalidades de mortes escancaradas, encontram-se as tragédias naturais, as guerras, os sequestros seguidos de homicídio, entre outras. A morte veiculada nos órgãos de comunicação está nos noticiários, nos programas de auditório, nas novelas, nos filmes e nos desenhos animados. É a morte que invade os lares e as instituições a qualquer hora, sendo assistida por todos. O que a torna escancarada são as cenas chocantes, mostradas e repetidas à exaustão, sem contar o texto que as acompanha, principalmente na mesma hora que ocorre o acidente ou desastre – texto, na maioria das vezes, que “não oferece espaço para reflexão por ser excessivamente superficial” (KOVÁCS, 2003). E o que é mais grave: após a enxurrada emocional “segue-se uma notícia sobre amenidades, como os comentários futebolísticos ou culinários” (ibidem). Neste caso como em muitos, a morte escancarada convive com a morte interdita: ao mesmo tempo em que a morte entra em nossos lares, mesmo sem ter sido convidada, ninguém fala sobre ela, dando preferência a assuntos menos intensos, como o futebol. Até agora, os comentários, na Televisão, demoraram-se nas questões organizacionais e na busca de responsáveis pelas mortes... Os riscos para o acidente foram amplamente contabilizados e muitas possibilidades para o que tenha ocorrido por levantadas. Penso que o foco do problema foi desviado e, agora, outras coisas precisam ser debatidas. Coisas mais essenciais e mais importantes. Afinal, é a solidariedade que deve nos mover. É através dela que nos colocamos em um estado de prontidão para ajudar o outro. Mas, agir com responsabilidade é ética, nesse momento, é fundamental... O que inclui uma abordagem baseada em evidências, com uma formação competente e adequada.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Sentimos muito...


A todos os familiares e amigos das vítimas de Santa Maria, nosso apoio, sincero sentimento e profundo pesar…
ASDL e Zelinda de Bona


sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Vida



Deus costuma usar a solidão Para nos ensinar sobre a convivência. Às vezes, usa a raiva para que possamos Compreender o infinito valor da paz. Outras vezes usa o tédio, quando quer nos mostrar a importância da aventura e do abandono. Deus costuma usar o silêncio para nos ensinar sobre a responsabilidade do que dizemos. Às vezes usa o cansaço, para que possamos Compreender o valor do despertar. Outras vezes usa a doença, quando quer Nos mostrar a importância da saúde. Deus costuma usar o fogo, para nos ensinar a andar sobre a água. Às vezes, usa a terra, para que possamos Compreender o valor do ar. Outras vezes usa a morte, quando quer Nos mostrar a importância da vida. 


Paulo Coelho

domingo, 20 de janeiro de 2013

Saudade...



Saudade é o que vamos sentir quando deixarmos esta casa e esta cidade. Saudade é a vontade do coração enxergar o que os olhos não vêem. Mas quero te mostrar o lado bom disso. Saudade, ao contrário do que muitos vão te dizer, não é sentimento triste. Ele pode ser alegre. Só sente saudades quem tem coisa boa para recordar. Nós temos. A saudade não subtrai, ela acrescenta ao presente flashes de momentos felizes que julgávamos passados. Saudade não é perda. É ganho quando preenche com emoções as horas vazias de brincadeira e sorrisos. Saudade não é um nada batendo dentro do peito. É uma máquina de projetar cenas na tela do nosso pensamento. O difícil da saudade é que ela não encontra remédio no futuro. Saudade é como televisão. Chega uma hora que é bom a gente se desligar dela para fazer outra coisa.
Isabel Clemente é editora de ÉPOCA no Rio de Janeiro.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

RELÓGIO DO CORAÇÃO





Há tempos em nossa vida que contam de forma diferente. 
Há semanas que duraram anos, como há anos que não contaram um dia. 
Há paixões que foram eternas, como há amigos que passaram céleres, apesar do calendário mostrar que eles ficaram por anos em nossas agendas. 
Há amores não realizados que deixaram olhares de meses, e beijos não dados que até hoje esperam o desfecho. 
Há trabalhos que nos tomaram décadas de nosso tempo na terra, mas que nossa memória insiste em contá-los como semanas. 
Há casamentos que, ao olhar para trás, mal preenchem os feriados das folhinhas. 
Há tristezas que nos paralisaram por meses, mas que hoje, passados os dias difíceis, mal guardamos lembranças de horas. 
Há eventos que marcaram, e que duram para sempre, 
o nascimento do filho, a morte do pai, a viagem inesquecível, um sonho realizado. 
Estes têm a duração que nos ensina o significado da palavra “eternidade”. 
Já viajei para a mesma cidade uma centena de vezes, e na maioria das vezes o tempo transcorrido foi o mesmo. 
Mas conforme meu espírito, houve viagem que não teve fim até hoje, como há percurso que nem me lembro de ter feito, tão feliz eu estava na ocasião. 
O relógio do coração – hoje eu descubro - bate noutra freqüência daquele que carrego no pulso. 
Marca um tempo diferente, de emoções que perduram e que mostram o verdadeiro tempo da gente. 
Por este relógio, velhice é coisa de quem não conseguiu esticar o tempo que temos no mundo. 
É olhar as rugas e não perceber a maturidade. 
É pensar antes naquilo que não foi feito, ao invés de se alegrar e sorrir com as lembranças da vida. 
Pense nisso. 
E consulte sempre o relógio do coração: 
Ele te mostrará o verdadeiro tempo do mundo. 


                                                                                                                             Alexandre Pelegi

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Uma janela...



A Arte de Ser Feliz 


Houve um tempo em que minha janela se abria sobre uma cidade que parecia ser feita de giz. 
Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco. 

Era uma época de estiagem, de terra esfarelada, e o jardim parecia morto. 
Mas todas as manhãs vinha um pobre com um balde, e, em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas. 
Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse. 
E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz. 

Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor. 
Outras vezes encontro nuvens espessas. 
Avisto crianças que vão para a escola. 
Pardais que pulam pelo muro. 
Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais. 
Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar. 
Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lope de Vega. 
Às vezes, um galo canta. 
Às vezes, um avião passa. 
Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino. 
E eu me sinto completamente feliz. 

Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas, 
que estão diante de cada janela, 
uns dizem que essas coisas não existem, 
outros que só existem diante das minhas janelas, 
e outros, finalmente, 
que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim. 


Cecília Meireles