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quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012





Elegia do amigo morto

“Foram-se os bons, os ternos, os belos, mas eu não me conformo”, foi o que, citando livremente, lembro-me que disse que uma poeta americana, Sarah Teasdale, que estudei nos tempos da faculdade. Recentemente foi reeditado um livro meu sobre o assunto, O Lado Fatal, e comecei a receber e-mails de leitores que passaram por essa dura, incompreensível experiência: alguém que amamos, ou conhecíamos, deixou de existir. Não ouviremos seu passo no corredor, sua voz ao telefone, não teremos longas conversas, não nos reuniremos em grupos de amigos, não contaremos façanhas ou fofocas ou queixas, não trocaremos e-mails. O endereço eletrônico inútil ainda nos espreita no computador, o que fazer? Deletar como se a gente deletasse uma vida? 

Esta coluna é uma homenagem, não só a um velho amigo que se foi recentemente, como todas as pessoas queridas que perdi. Homenagens não trazem ninguém de volta, mas talvez ajudem a nós, os que ficamos, a curtir mais, e melhor o que temos por perto, em lampejos de silêncio e contemplação (ato heróico na cortesia destes tempos loucos e fascinantes,mas a gente consegue). 

A morte, intrusa indesejada sobre a qual tanto se fala, se pensa, se escreve, foi personagem de alguns dos meus livros e causa de algumas incuráveis dores. Ela não pede licença: sem bater, escancara num repelão porta ou janela, entra num salto, com suas vestes cheirando a mofo e seus olhos de gato escuro. Às vezes pega quem mais amamos. E aí não tem remédio, não tem descanso, não tem nada senão dor – apesar da nossa natural dificuldade de lidar com ela, a dor é necessária nesses primeiros tempos. É preciso chegar ao fundo desse poço escuro para poder sair dele, ou ao menos ter a cabeça á tona d água. Presenças bondosas, conforto de alguma palavra amiga, saber que os outros estão aí, que ajudam também nas coisas práticas, nos fazem sobreviver. Mas não queiram que a gente sofra, mesmo nessa cultura nossa do barulho e da agitação, em que no segundo dia já querem que a gente passe o batom e saia às compras. Não por maldade, mas por essa aflição que nos ataca diante do sofrimento alheio em parte porque ele é uma ameaça à nossa vidinha bem-posta: seremos os próximos? 

Mas quero homenagear um amigo querido meu, de meu marido, de minha família, que morreu há poucos dias. O nome não importa, quem o sempre conheceu saberá. Sua idade não importa, a tristeza é sempre a mesma. Qual seria a hora certa para morrer? Minha mãe morreu aos 90 anos, há quase dez anos ausente desse nosso mundo, arrebatada pelo cruel Alzheimer. Fazia anos que nem me reconhecia, mas também foi duro: de repente, eu não tinha mais a quem pudesse chamar de “mãe”, e me senti extraordinariamente órfã. 

Então, na pessoa desse amigo, homenageio aqui todos os que se foram – embora eu acredite que permaneçam não importa como, em forma de alma, energia ou memória, o que já seria muito bom: de memórias positivas, que nos iluminem, nos emocionem ou nos façam sorrir, estamos precisados. E homenageio aqui, também, a todos nós que ficamos com a singular tarefa de preservar, no coração e no pensamento, esses que aparentemente perdemos, e de aos poucos retomar a vida – como os mortos gostariam que a gente fizesse. Pois igualmente acredito, com firmeza, que é melhor deixar que os mortos morram (quem viveu isso entende). No começo do luto “tudo é horrível”, dizia uma velha amiga, que havia muitos anos tinha perdido um filho, “mas com o tempo dói menos”. 

E afinal a vida chama, ainda que o no início isso nos pareça um insulto. Pois honrando a vida também estamos honrando os nossos mortos, que, na nossa lembrança não mais crispada, na nossa melancolia não mais indignada, na integração de seus atos e palavras em nós, no que temos de melhor, continuarão vivos. Em última análise, apesar de todo dilaceramento, solidão e lágrimas, a morte (que não é fim, mas transformação), estranhamente, loucamente, tem um poderio limitado: seu dedo cruel e ossudo não consegue encontrar a tecla com que deletar nossos melhores afetos. 



Na literatura, Elegia é uma poesia triste, melancólica ou complacente, especialmente composta como música para funeral, ou um lamento de morte.
 
Texto da escritora Lya Luft, revista Veja, edição nº 2256, de 15 de fevereiro de 2012. p.24 


segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

A MORTE DE UM FILHO DEIXA UMA DOR ETERNA

Opinião é do psicanalista Jorge Forbes para a psicóloga especialista em luto. 
"Muitas mães nessa situação se culpam por continuar vivendo".
Laura Diniz.



Vazio absoluto. Um nada sem chão, teto ou paredes. Mais que um poço fundo, o fundo sem o poço. A falta de ar. O desespero. A desesperança. Irracional, ilógico, inaceitável. As palavras e imagens mais fortes não são capazes de definir, na opinião de especialistas ouvidos pelo Estado, o luto de uma mãe que perde um filho. 


“A morte de um filho deixa cicatriz indelével, uma dor eterna”, explicou o psicanalista e psiquiatra Jorge Forbes, presidente do Instituto da Psicanálise Lacaniana.
 “É a pior situação humana, não há perda maior. Não tem nada de simbólico para a pessoa a elaborar essa perda. Você morre junto mesmo!”


A empresária Elizabeth Cabral, de 54 anos, fundadora da ONG Dor de Mãe, disse que, provavelmente, a bancária Ana Carolina Cunha de Oliveira, de 24, ainda não realizou a perda da filha, Isabella, de 5. “Está tudo muito recente. Ela deve estar sendo muito assediada, o País se movimentou em volta disso”, afirmou Elizabeth, que perdeu um filho numa cirurgia malsucedida há oito anos. Segundo ela, a ficha demora muito para cair - já viu casos de um ano -, mas o tempo varia de mãe para mãe. “Eu segui esperando por um bom tempo. Fazia a comida preferida dele, limpava a casa com o desinfetante com o cheiro que ele gostava, não tirava o terno no armário, lavava o tênis. Aos poucos, fui tomando consciência de que meu filho não voltaria.”


Gradações do Luto


Em termos técnicos, chama-se trabalho do luto, segundo Freud, a atividade que a pessoa realiza quando perde alguém querido. “Para Freud, o ser humano não é um ser de dois braços e duas pernas. É como se fosse uma ameba com vários braços e pernas que nos conectam com as pessoas do mundo com maior ou menor intensidade”, explicou Forbes. Quanto mais difícil for colocar amor em palavras, mais forte será a conexão e mais dolorosa, a perda. O trabalho de luto é a recolocação desses “braços e pernas” que ficaram soltos em outras pessoas e ideais. Ocorre após um tempo de recuo sobre si mesmo, depressão ou melancolia. 


Segundo Forbes, o luto dura habitualmente de dois a seis meses para pessoas não muito próximas. No caso de filhos que perdem os pais, leva mais de um ano quando a morte é imprevisível. A dificuldade em lidar com a perda é maior entre 5 e 15 anos de idade, quando a pessoa ainda está constituindo a identidade. “Se for antes, fica mais fácil de substituir; depois, já se tem recursos para trabalhar o luto.”


Se a morte dos pais é natural, decorrente da velhice, a dor é amenizada pela previsibilidade. “O filho vai se preparando durante toda a vida para a perda dos pais. O trabalho de luto é constante. Ele vai constituindo outra família, repete nomes de antepassados nos filhos, muda de posição em relação aos pais - passa a ser provedor -, começa a falar de herança etc.” A perda vai, então, se transformando em memória.


O mesmo processo ocorre quando pais perdem filhos de forma previsível. “Ao longo de uma doença do filho, por exemplo, a dor dos pais é terrível, mas haverá elaboração. O luto começa no dia do diagnóstico e eles iniciam a substituição da presença pela memória”, explicou o psiquiatra.


Por ser “antinatural”, a morte imprevisível do filho é a que mais desestabiliza o ser humano. Nesse caso, o processo de substituição da presença pela memória e de recolocação no mundo fica muito mais lento e doloroso porque os pais não conseguem lidar com seus sentimentos. “A pessoa, nos momentos imediatamente posteriores à perda, percebe abaladas suas sensações de segurança, esperança, entusiasmo e previsão de futuro - o popular ‘tô sem chão’. Paradoxalmente, essas são as ferramentas para o trabalho de luto. Os pais ficam num vazio absoluto.”


Elizabeth conta que muitas mães acabam se sentindo “ETs” porque não conseguem lidar com a dor e o mundo. “O sofrimento pode ser expresso com desespero, alienações, ou sintomas de enlouquecimento. Muitos pais ficam presos à presença do filho e a recuperam em um outro mundo”, explicou Forbes.


A psicóloga Gabriela Caselatto, doutora em luto materno pela PUC-SP, afirmou que a perda para a mãe é mais dolorosa que para o pai, pelo que o filho significa na vida dela. “Representa questões de infância, identidade pessoal, desempenho como mãe e expectativas de futuro que se cria em relação ao filho, que é continuidade da vida dela.”


Segundo Gabriela, após a perda, as mães sentem muita culpa. “Por sobreviver, já que o filho, de forma antinatural, morreu antes dela; pelos cuidados que imagina que poderiam ter impedido a morte dele e por sentir os prazeres na vida depois da morte de um filho.”


Outro drama enfrentado pelo casal após a perda é a dificuldade em conviver. Segundo a psicóloga, pesquisas indicam que 80% dos casais que perdem filhos se separam. “Os dois não conseguem conversar. Se o marido não quer falar porque dói e a esposa precisa falar porque ajuda na dor, um incomoda o outro.” 


Elizabeth contou que, após a morte do filho, fica com o coração mais apertado quando vê uma família com pai, mãe e todos os filhos por saber que nunca mais terá sua família junta novamente. “Não existe ex-mãe nem ex-filho. Vou deixar de pensar no meu filho só no dia em que for calada pela morte.”


Entrevista de Jorge Forbes para o jornal O ESTADO DE S. PAULO - caderno Metrópole, domingo, 13 de abril de 2008.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Abraço de filho




Abraço de filho deveria ser receitado por médico.
Há um poder de cura no abraço que ainda desconhecemos.
Abraço cura ódio. Abraço cura ressentimento. Cura cansaço. Cura tristeza.
Quando abraçamos soltamos amarras. Perdemos por instantes as coisas que nos têm feito perder a calma, a paz, a alma...
Quando abraçamos baixamos defesas e permitimos que o outro se aproxime do nosso coração. Os braços se abrem e os corações se aconchegam de uma forma única.
E nada como o abraço de um filho...
Abraço de Eu amo você. Abraço de Que bom que você está aqui. Abraço de Ajude-me.
Abraço de urso. Abraço de Até breve. Abraço de Que saudade!
Quando abraçamos, a felicidade nos visita por alguns segundos e não temos vontade de soltar.
Quando abraçamos somos mais do que dois, somos família, somos planos, somos sonhos possíveis.
E abraço de filho deveria, sim, ser receitado por médico pois rejuvenesce a alma e o corpo.
Estudos já mostram, com clareza, os benefícios das expressões de carinho para o sistema imunológico, para o tratamento da depressão e outros problemas de saúde.
O abraço deixou de ser apenas uma mera expressão de cordialidade ou convenção para se tornar veículo de paz e símbolo de uma nova era de aproximação.
Se a alta tecnologia - mal aproveitada - nos afastou, é o abraço que irá nos unir novamente.
Precisamos nos abraçar mais. Abraços de família, abraços coletivos, abraços engraçados, abraços grátis.
Caem as carrancas, ficam os sorrisos. Somem os desânimos, fica a vontade de viver.
O abraço apertado nos tira do chão por instantes. Saímos do chão das preocupações, do chão da descrença, do chão do pessimismo.
É possível amar de novo, semear de novo. É possível renascer.
E os abraços nos fazem nascer de novo. Fechamos os olhos e quando voltamos a abri-los podemos ser outros, vivendo outra vida, escolhendo outros caminhos.
Nada melhor do que um abraço para começar o dia. Nada melhor do que um abraço de Boa noite.
E, sim, abraço de filho deveria ser receitado por médico, várias vezes ao dia, em doses homeopáticas.
Mas, se não resistirmos a tal orientação, nada nos impede de algumas doses únicas entre essas primeiras, em situações emergenciais.
Um abraço demorado, regado pelas chuvas dos olhos, de desabafo, de tristeza ou de alívio.
Um abraço sem hora de terminar, sem medo, sem constrangimento.
Medicamento valioso, de efeitos colaterais admiráveis para a alma em crescimento.
*   *   *
Mas, se os braços que desejamos abraçar estiverem distantes? Ou não mais presentes aqui? O que fazer?
Aprendamos a abraçar com o pensamento.
O pensamento e a vontade criam outros braços e nossos amores se sentem abraçados por nós da mesma forma.
São forças que ainda conhecemos pouco e que nos surpreenderão quando as tivermos entendido melhor.
Abraços invisíveis a olho nu, mas muito presentes e consoladores para os sentidos do Espírito imortal, que somos todos nós.

Redação do Momento Espírita.Em 22.02.2012
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segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

COMO LIDAR COM A MORTE DE UM ENTE QUERIDO



Lidar com a morte tem sido uma das coisas mais difíceis de fazer. Provavelmente não é o que você costuma ver em um tutorial. E com certeza não é tão fácil quanto contar 1-2-3. Assim como as pessoas variam, os tipos e as circunstâncias de morte variam. A única coisa que sabemos com certeza é que vamos todos morrer.


Perdi minha irmã em 1984, e meu pai em 1989, para o câncer. Foi difícil deixá-los ir, e eu sinto sua falta terrivelmente. Mas 2004, o ano em que meu irmão e sete pessoas ligadas ao meu escritório morreram, foi meu momento mais difícil. Na verdade não há muito que se possa fazer para aliviar a dor da morte, mas essas dicas talvez façam enfrentar a morte de um ente querido com um pouco mais de facilidade.


•    Algumas pessoas não sabem o que dizer a uma pessoa de luto. As pessoas reagem à morte de formas diferentes. Às vezes as pessoas falam muito, ou pouco, ou simplesmente dizem coisas erradas. Às vezes, quando uma criança morre, dizem aos pais de luto que eles podem ter mais filhos. Mas quem perdeu um filho para a morte sabe que uma criança não pode ser substituída tendo outro bebê. Às vezes as pessoas bem intencionadas dizem que a morte foi a vontade de Deus, e o morto agora está com Deus no céu. Isso pode ser verdade, mas talvez não o que você quer ouvir naquele momento. Tente não ficar ofendido quando alguém fizer um comentário que você sente ser insensível.


•    Você precisa passar por diferentes fases do luto, a fim de aceitar a morte. As principais questões com que as pessoas lutam são a negação, a raiva e a solidão. Quando a morte é inesperada, a reação usual é a descrença. Quando você sabe que alguém vai morrer, e você teve tempo para se preparar mentalmente para isso, você provavelmente passou por negação, quando a pessoa ficou doente ou ferida. Algumas pessoas acham que ver o corpo dá-lhes idéia de encerramento, enquanto outras se sentem incomodadas com isso. É importante ser sensível aos sentimentos dos outros, mas você deve fazer o que você sente que é melhor para você. Não importa as circunstâncias, o sofrimento produz uma gama de emoções e cada uma deve ser reconhecida.


•    Você não tem que passar por isso sozinho. Mesmo se seus amigos e familiares não saibam o que dizer ou fazer, eles geralmente significam algo. Às vezes sinto que no mundo de hoje, não damos atenção suficiente aos principais acontecimentos em nossas vidas. Parece que esperamos superar rapidamente o que nos acontece, e seguimos em frente. Somos todos diferentes. Reações à morte (e as mudanças que nos obrigamos a fazer) variam, assim como todas as famílias variam. Aceite ajuda quando oferecida. Não deixe ninguém lhe dizer quando é hora de mudar. Você é o único que realmente sabe como se sente.


•    É normal ficar zangado com Deus.  A morte muitas vezes abala a fé, até mesmo do mais forte crente. Quando pessoas boas sofrem doenças horríveis e morrem em tenra idade, às vezes perguntamos por que Deus permite que coisas ruins aconteçam. Agora não é o momento de debater esta questão, mas aceitar que está bem ter esses sentimentos. Você deve lidar com a negação e a raiva antes de chegar à aceitação.


•    Se o seu cônjuge morrer, não faça qualquer alteração importante por um ano. Especialistas dizem que o primeiro ano após a morte é o mais difícil. Por você estar passando por tantas fases, você não está apto emocionalmente a tomar decisões importantes. A menos que já tenha se envolvido de perto com a morte antes, você não imagina quanto tempo pode demorar determinar os bens, mesmo para uma criança ou pessoa que não tinha nada. Estes não são tempos de divertimento. Meu melhor conselho seria viver um evento, e um dia de cada vez. Faça o que você tem de fazer, mas tente não fazer grandes alterações.


•    A morte por vezes separa os familiares, em vez de aproximá-los. Durante a época da morte, os membros da família demonstram suas emoções. Alguns podem se sentir maltratados, deixados de fora, com raiva, e incompreendidos. Quando decisões precisam ser feitas, pode não haver acordo total. Testamentos às vezes são diferentes daquilo que esperávamos, e a propriedade pode não ser dividida igualmente. Muitas vezes a família perde de vista aspectos importantes, e cada pessoa se concentra em suas próprias necessidades. Funerais são um bom momento para retificar suas expectativas. Você conhece sua família. Não espere deles o que eles não podem dar. Tente ficar calmo se as disputas surgirem. Geralmente, é impossível fazer todo mundo feliz.


•    Cuide de si mesmo em primeiro lugar quando estiver de luto pela perda de um ente querido. Uma vez que você lidou com a negação e a raiva; virão a tristeza e a solidão. Alguém que passava o tempo com você não está mais lá. É normal lembrar essa pessoa e desejar que as coisas fossem diferentes. É difícil deixar ir, fazer as alterações, e seguir em frente. Imediatamente após a morte, você recebe um grande apoio de seus amigos e familiares. Mas à medida que as semanas e os meses passam você se encontra basicamente sozinho. Embora outras pessoas possam ajudar, há algumas coisas que você tem que fazer por conta própria. A principal coisa que você deve fazer é cuidar de si mesmo. Este é um momento em que é definitivamente bom colocar suas necessidades à frente dos outros.


•    Quando de luto, tudo bem em pedir ajuda. Às vezes, a fé em Deus, o amor da família e apoio dos amigos não é suficiente. Você pode precisar falar com o seu mentor, um conselheiro ou um religioso. Muitas comunidades têm grupos de apoio à tristeza. Procure uma igreja com um Programa Ministério Passohen. Eles fornecem um voluntário para se encontrar com você semanalmente, e prestar apoio enquanto for necessário. Algumas pessoas acham que manter um diário, ou até mesmo escrever cartas à pessoa falecida, ajuda. O objetivo é liberar os sentimentos negativos. Todo mundo é diferente, e só você pode decidir o que é melhor para você.


Penso que quando você perde um ente querido para a morte, o objetivo é descobrir como ser feliz novamente, honrando a memória de quem morreu. Lidar com a morte fica mais fácil com o tempo. Eventualmente você chega ao ponto onde começa a se perguntar o que pode aprender com essa experiência. Nem sempre é possível se preparar para a morte, mas quando chega a uma certa idade, você deve tomar algumas decisões importantes. Você tem um testamento? Que tipo de funeral você quer? Você quer ser lembrado?


Enquanto você está lidando com a morte de alguém, o momento fica perfeito para pensar sobre sua própria morte. Não é fácil, mas, ou você faz isso, ou alguém vai fazer isso por você. Às vezes você ouve as pessoas dizerem: "eu não me importo, eu não estarei lá." Isso é egoísta. É duro o suficiente perder alguém para a morte, mas é ainda mais difícil se ele ou ela não fez nada para se preparar para isso. Você pode decidir tudo antes do tempo, exceto para o dia. Planejar o futuro por sua conta irá tornar tudo mais fácil para aqueles deixados para trás.


Ferramentas necessárias:
•    Fé
•    Esperança
•    Amor


Atenção:
•    Você não pode substituir alguém que morreu por ter outro filho ou se casar com alguém.


•    Você também pode tornar mais fácil para aqueles que deixará para trás: Obtenha um testamento, planeje seu funeral, decida se você gostaria de ser lembrado.


Por: Teresa Carvalho



sábado, 18 de fevereiro de 2012

Como superar a dor de uma perda



Após um choque como o que viveu Cissa Guimarães é difícil continuar, mas não impossível. Aprenda a viver o luto sem deixar que ele te derrube

Publicado em 16/08/2010
Roberta Cerasoli


Não é verdade! Por que comigo? Tudo me lembra ele. Quem já perdeu alguém querido sabe que essas ideias passam pela cabeça. Cada uma num momento: negação, revolta e desespero, esperança.

Cissa Guimarães está na fase do choque. "Vou voltar a ser feliz", prometeu a atriz no programa Fantástico do dia 8. Depois de perder o filho Rafael, de 18 anos, atropelado no dia 20 de julho, a atriz reconhece que o luto é necessário. "Essa dor é para ser vivida, não ignorada", afirma Maria Helena Pereira Franco, fundadora e coordenadora do Laboratório de Estudos e Intervenções sobre o Luto, da PUC-SP.

Ninguém está dizendo que é fácil, que a tristeza tem prazo para acabar ou que tudo vai ser como antes. "A dor isola a pessoa", diz a pedagoga Alice Lanalice, fundadora da Associação Brasileira de Apoio ao Luto. Manter a esperança é fundamental, aceitar a morte como parte da vida e tentar adaptar essa falta ao seu dia a dia. Tente encontrar aqui palavras de força que ajudem nesse momento.

Palavras de Cissa ao Fantástico:



- "Só consigo pensar no Rafa sorrindo, lindo! Pensar nele me dá muita saudade, mas me dá força"

- "Não quero que ninguém que não viveu isso imagine nada, porque é tão horrível que não quero"

- "Tem essa história de que Deus dá a dor a quem pode segurar. Eu vou aguentar, mas vou transformar essa dor imensa numa coisa linda. Pode deixar, Rafa, me dá um tempo. Eu sei que ele não gostaria de me ver chorando"

- "Acho que nunca mais eu vou rir daquele jeito. Mas não faz mal. Mesmo que eu não gargalhe tanto, talvez sorria mais. Vou rir com mais sabedoria"

- "Meu compromisso com a vida é com a felicidade. E eu vou voltar a ser feliz. Já estou (voltando a ser feliz). Olho pro meu neto e é uma grande força. Meus filhos lindos"

- "Na peça, passo 1h20 em que a Beatriz (sua personagem) me dá força. Muito obrigada a todos, do fundo desse resto de coração que me sobrou" 




Conteúdo do site ANAMARIA

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

LIDANDO COM O LUTO

"Superar não é esquecer. Significa aceitar e continuar a viver".


A morte está presente na vida de todos nós, para alguns mais cedo, para outros, de modo mais trágico, e para os privilegiados, de forma a corresponder com os grandes ciclos naturais da vida. Embora parte da vida, a morte é vista em nossa sociedade como algo a ser evitado, postergado, como se morrer fosse adversário do processo de viver.


Essa visão se baseia em três princípios. Primeiramente, quando se está na vida, é preciso encontrar forças para lutar por ela e a morte elimina qualquer possibilidade de continuidade dentro da mesma perspectiva de antes. Pode-se falar, é claro, da continuidade espiritual, da prevalência das memórias que mantêm viva uma pessoa que se foi. Mas o fato é que a morte interrompe um processo, modificando as possibilidades e os rumos dos envolvidos. Por isso, a batalha entre pulsão de vida e pulsão de morte, coloca muitas vezes as duas em extremidades opostas, apesar da morte estar contida na vida e esta naquela.
O segundo ponto que nos faz temer a morte é o que vem depois dela. De todas as transformações, a morte é a mais definitiva e profunda, arrebatando nosso ser para uma realidade completamente desconhecida. Se há vida depois da morte... eis uma questão de foro íntimo, uma questão de fé e de percepção de vida. Da perspectiva da Terra, pura e simples, o que há na morte é a saudade e o encerramento de uma história. Se esse encerramento é uma passagem para um mundo diferente do nosso, nem todos conseguem se agarrar a essa esperança.


E finalmente, o último elemento que nos faz ter repulsa à ideia da morte é a dor. Em qualquer língua, em qualquer época, em qualquer história, dor é dor, e requer muito treino, paciência e aceitação para se tornar construtiva em nossa trajetória. A dor é uma violência para a alma e nos tira do patamar de compreensão que tínhamos até então para nos lançar ao estado do limbo, no qual não se pertence a mundo nenhum, pois a conexão com a realidade fica frágil.
Quando se perde alguém violentamente, de modo repentino ou inesperado, quem fica permanece nesse limbo por um tempo indeterminado. É comum pessoas em processo de luto por morte abrupta serem tomadas por um estado de catatonia, semelhante a um morto-vivo, ou a um robô, que passa a agir no "piloto-automático", sem domínio ou vontade de controlar suas ações. Uma parte continua vivendo, pois entende ser necessário, mas a outra não está lá. A alma fica dividida e constantemente, o enlutado sente que morreu também e que sua história nunca mais será a mesma.


De fato, nunca mais será, pois a morte marca a alma. Entretanto, estamos na vida para sermos transformados a partir das experiência que o acaso (será?) nos propõe. A superação só se dá a partir de um longo processo e ela não significa esquecer, fingir que não aconteceu ou ainda não sentir dor quando lembrar. Superar significa apenas aceitar e continuar.


Mas como aceitar algo que não faz sentido? Algo que não vem com avisos, que não parece ter um por quê dentro da lógica do merecimento? Como aceitar a morte de alguém bom, que tinha uma vida enorme pela frente? E que o destino levou em segundos, sem nos ter orientado para aquele momento? Como continuar sem ter mais vontade de viver, sem ter um sentido que nos norteie?


A aceitação é o processo que nos torna capazes de ver, tocar, falar sobre a morte e ao mesmo tempo, deixá-la ir para onde tiver que ir, longe de nossos domínios, de nosso controle racional. Deixar ir não significa esquecer, tampouco não sofrer nunca mais. Deixar ir é fazer as pazes com o tempo, com novas chances para quem ficou, com a única certeza de que absolutamente tudo muda e que é preciso se transformar junto com a vida e com a morte.


(Parte do texto extraído do site: personare.com.br)

sábado, 11 de fevereiro de 2012




"Somos preparados para enterrar nossos pais, não nossos filhos"


Mônica Dirane Reis, 35 anos, dona de casa, perdeu o filho Pedro Paulo, 4, de câncer, em 1997
"Um dia Pedro Paulo caiu e cortou o lábio. No hospital, o médico notou um caroço em seu abdômen: era câncer. Eu não podia entender. Pedro nunca se queixara de dor.
Ele começou a fazer quimioterapia, mas outros tumores foram aparecendo, tudo em 11 meses. Nossa casa vivia cheia de gente de todas as religiões orando por ele. Antes de deitar ele dizia: - Jesus, me cura!.
O tempo todo achei que meu filho ia sobreviver. Um dia antes a médica me disse que não tinha mais jeito. Perto de 23h, sua respiração estava ruim. Fiquei sozinha com ele no quarto. Estava inconsciente, mas eu tinha certeza de que podia me ouvir. Coloquei a mão sobre seu coração e disse: 'Meu filho, vá em paz e prometo que a mamãe vai ficar bem'. Depois de 15 minutos ele faleceu.


Então desmoronei. Durante a doença era difícil eu chorar. Como desejei estar em seu lugar! Tinha o ímpeto de sair correndo ao imaginar meu filho na cama sem respirar. Por que uma criança sofrer dessa maneira?
Na primeira semana fiquei quietinha em casa. Depois da missa de 7º dia, me tranquei no quarto dele e dividi suas roupinhas e brinquedos em sacolas. No dia seguinte, meu marido e eu distribuímos tudo na periferia. Guardei só algumas pecinhas que ele mais usava e uns brinquedos, como um carrinho com controle remoto que ele adorava.
Enquanto dobrava suas roupinhas, percebi que nada me traria ele de volta. Olhei para minha filha, Karina, de 7 anos, e vi que ela estava precisando de mim. Eu a tinha deixado de lado para me dedicar ao Pedro.


Mesmo assim, parei no tempo por uns dois meses. Levava a Karina na escola e o resto do tempo ficava olhando para o nada, analisando o que tinha acontecido. Recebia muita visita, mas para mim era indiferente se a casa estava cheia ou vazia. Eu estava vazia.
Até que comecei a me envolver com a religião espírita. Recebi uma mensagem psicografada do Pedro. Ele disse que estava bem e logo me mandaria uma mensagem maior. Já recebi outras... Isso não me ajuda 100%, mas me consola.


Três meses depois, um apartamento que havíamos comprado ficou pronto e comecei a me envolver com a mudança. Me candidatei a síndica, já para me ocupar, porque até hoje é 24 horas o Pedro Paulo na minha cabeça. Depois de tudo arrumado, voltei à depressão.
Fui a uma psicóloga para levar a Karina e entrei no tratamento. Eu não tinha mais auto-estima, não saía, não me vestia direito. Fiquei seis meses e voltei a gostar de mim, mas a vaidade acabou. Não uso mais brinco, não passo batom. Não superei essa perda. Não tenho coragem de passar na rua do hospital. Desvio, porque vai me trazer recordações, vou ver a lanchonete onde comprava o suco que o Pedrinho gostava.


O que me faz ir adiante é minha filha e a certeza de que amei e fui amada pelo Pedrinho. Tem horas em que a dor ainda vem com muita intensidade, principalmente ao entardecer. Estou assistindo TV, de repente as imagens dele vão me pressionando, é uma dor forte e estridente.
Tenho fotos do Pedrinho pela casa toda. Algumas pessoas até criticam, mas meu filho foi um pedaço de mim, existiu. Dois dias antes de falecer, no hospital, ele me ajudou a montar um álbum dele. Tem fotos desde que eu estava grávida, até sua última foto. Quer dizer, meio álbum, só...


Quando vejo uma família com um casal de filhos, me vem o 'por quê?'. Em festa de criança, vou constrangida, me culpando de o Pedro não estar ali. Penso em ter outro filho, mas seu espaço nunca será preenchido.
Somos preparados para enterrar nossos pais, não nossos filhos. Mas minha história é igual a de tantas outras mães... Com a perda compreendi que não somos nada. Eu era rancorosa, emburrava por qualquer coisa. A gente aprende exatamente o que arruina a vida, o que é problema sério. A morte uniu meu marido e eu. Já tive várias crises no casamento, mas hoje qualquer briguinha é pequena diante do que passamos.


Levo uma vida normal. Tomo conta de umas creches com mães que passaram pela mesma experiência. A gente visita o hospital do câncer, converso com as mães, vejo um espelho do que passei, e isso me alivia.
Nada repara a perda de um filho. Nada. Dou minha vida pela minha filha, mas hoje, se eu cair doente numa cama, vou ficar dividida. Se fico, por causa da Karina, ou se vou me encontrar com Pedro Paulo."



fonte: marieclaire

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012





AJUDANDO A CRIANÇA A LIDAR COM A MORTE

Esse é o título de uma página publicada pelo site Day Care. Veja um trecho: "A idéia de que a criança não está emocionalmente preparada para receber uma notícia de morte reside na dificuldade dos próprios adultos em aceitá-la. A intenção de protegê-la do sofrimento faz com que muitos adultos optem por adiar o assunto sobre a morte de um amigo ou familiar querido".

Alguns acreditam que devem esperar o "momento certo" para dar a notícia à criança, quando o certo é não esperar. É importante lembrar que o simples fato de não conversar com a criança sobre a morte não pode afastá-la de sua vida.

Por mais dolorosa que seja a verdade, nada pode ser mais prejudicial à criança do que a mais doce das mentiras. Quando percebe algo diferente no comportamento dos adultos e não compreende o que está acontecendo, a criança tende a fantasiar a realidade ou pode tirar suas dúvidas com pessoas que tenham uma visão diferente daquela que os pais gostariam de transmitir-lhe.

Assim, a criança deve ser informada sobre a morte tão logo quanto possível, para que possa sentir-se segura e assistida, mesmo nos momentos mais difíceis. Como contar?

A notícia deve ser dada de forma direta e em linguagem simples. Não é preciso esconder sua dor ou segurar as lágrimas. Vendo-a sofrer a criança aprende a exteriorizar e entender a sua própria dor. Não se preocupe em dar explicações complexas, além da sua compreensão. Responda às suas perguntas à medida que forem surgindo.

A criança poderá terá muitas dúvidas sobre a morte, que variam de acordo com sua faixa etária e seu grau de maturidade. Crianças em idade pré-escolar geralmente ainda não têm idéia de finitude e não entendem a morte como um fato irreversível.

Ao receber a notícia de que o titio morreu, é possível que uma criança pergunte quando ele vai voltar. Se isso ocorrer, não se preocupe; diga-lhe que as pessoas que morrem não voltam. Ela poderá repetir as mesmas perguntas várias vezes até compreender e familiarizar-se com a perda. É importante explicar que seu vínculo com o falecido não terminou; apenas mudou.

Nessa fase, a criança costuma ser ainda auto-centrada, acreditando que tudo gira ao seu redor. Isso pode levá-la a sentir-se culpada, imaginando que, de alguma forma, os sentimentos negativos que possa ter tido com relação ao falecido tenha causado sua morte. Faça com que a criança tenha certeza de que nada do que ela possa ter feito ou pensado poderia provocar a morte daquele ente querido."



fonte: http://www.daycarecenterssite.com/

sábado, 4 de fevereiro de 2012



Maria Helena Bromberg
Morte não é castigo
A psicóloga Maria Helena Bromberg desvenda os tipos de perdas e diz que a cultura ocidental estimula a idéia do fim da vida como punição
JANETE LEÃO FERRAZ

Primeira brasileira a tornar-se mestra e doutora em psicoterapia de pessoas enlutadas, a psicóloga Maria Helena Bromberg, 48 anos, até há pouco tempo era vista por pacientes e até colegas como uma espécie de "Mortícia Adams". Ela se dedica há uma década à pesquisa sobre a morte e suas consequências nos vivos. Professora da disciplina Luto e Morte na Família e orientadora do pós-graduação de Psicologia da PUC de São Paulo, ela dirigiu a clínica Ana Maria Popovic, também da PUC, onde criou o Laboratório de Estudos e Intervenções Sobre o Luto (LELu). Para ela, não é somente a morte que causa a dor do luto.
"Nos enlutamos diante de pequenas perdas ao longo da vida, a começar pelo desmame de nossa mãe", explica. Maria Helena é discípula do terapeuta inglês Colin Murray Parkes, a maior autoridade em pesquisas sobre luto no mundo, cujos livros só podem ser traduzidos para o português por ela. Autora deA psicoterapia em situações de perdas e luto, Maria Helena também trata "lutos" por aposentadoria, imigração, amputação e aborto. Hoje dedica-se também à pesquisa sobre o luto coletivo, seja por morte de ídolos ou pela violência que vem tornando os cidadãos cada vez mais enlutados. Ela reconhece que não é fácil, mas há saídas. "É possível conviver com os lutos e ser feliz", acredita.


ISTOÉ -
Por que a sra. se especializou nesse assunto?
MARIA HELENA BROMBERG -
Comecei a me perguntar por que as pessoas são tão apegadas a ponto de não sobreviver à morte ou à perda de alguém. Perdi minha mãe quando era pequena, um irmão já adulta, a quem eu era muito apegada. E, recentemente, minha irmã. Tenho um histórico respeitável. 

ISTOÉ -
Estudar a morte lhe deu preparo para enfrentar as perdas?
MARIA HELENA BROMBERG -
 A saudade dói do mesmo jeito, mas tenho um conforto porque, quando enfrentamos a morte, aprendemos a aproveitar melhor a convivência em vida.

ISTOÉ -
Por que as pessoas temem esse assunto?
MARIA HELENA BROMBERG -
É a única certeza que se tem, mas nossa cultura não incorpora a morte como parte da vida. Pensa-se nela como castigo e é comum ouvirmos comentários como: "Ele era tão bom, por que morreu?" Morte é afastamento, silêncio, nunca mais.

ISTOÉ -
Em que idade nos damos conta de que a morte é inexorável?
MARIA HELENA BROMBERG -
 Desde que nascemos sofremos perdas e lutos, não necessariamente ligados a mortes. A psicanálise acredita que a criança vive seu primeiro luto ao ser desmamada pela mãe. Depois, ouve ameaças de perdas como "Mamãe vai embora", "Você vai ficar de castigo". Há semelhança da ausência, da falta, com o final da vida.

ISTOÉ -
Somos ensinados a não considerar a morte como fato?
MARIA HELENA BROMBERG -
Na cultura ocidental sim. Talvez por conta do pecado original. Pressupõe-se que se fez algo horrível e a morte é a punição. Adão e Eva, depois de cederem ao pecado, foram castigados tornando-se mortais. Há ainda o medo do desconhecido. Pacientes terminais querem saber o que vai acontecer quando a vida acabar. Os que se apóiam em alguma crença se sentem de alguma forma amparados. 

ISTOÉ -
Quais são as outras perdas que geram o luto?
MARIA HELENA BROMBERG -
Toda perda gera luto. O divórcio, a aposentadoria, a imigração, a mutilação, o aborto, a menopausa, a impotência. 

ISTOÉ -
Por que a imigração?
MARIA HELENA BROMBERG -
 As pessoas chegam a um novo lugar, perdem suas raízes, sua identidade e sua independência. Estamos estudando o comportamento dos dekasseguis, quando voltam ao Brasil. Há muitos traumas.
ISTOÉ -
Que tipo de luto gera a aposentadoria?
MARIA HELENA BROMBERG -
 A perda da identidade. O aposentado perde a área de influência. A casa funcionou durante 30 anos sem que ele desse palpites. No começo é uma lua-de-mel. A pessoa fica exultante e diz que agora vai viver. Engana-se. Atuava no trabalho, não atua mais. Em casa, ninguém o ouve. Então vai jogar dominó. É comum adoecer.
ISTOÉ -
E por amputação?
MARIA HELENA BROMBERG -
 Causa reações variadas. No amputado falta literalmente uma parte. Ele tem que fazer uma transição para se aceitar sem aquele pedaço. 

ISTOÉ -
O velejador Lars Grael, que sofreu a amputação de uma perna, evitou o luto?
MARIA HELENA BROMBERG -
´Pela imprensa, notei que a coisa mais importante no processo dele foi a luta pela sobrevivência. Ele permanece ativo, que é uma forma de não ficar velando a perda. Avaliamos uma tese sobre amputação, que concluiu que o desafio é se adaptar à prótese. Há lutos complicados em acidentados que não podem usar próteses ou que ficam paraplégicos. 

ISTOÉ -
Qual é o medo maior, morrer ou perder alguém?
MARIA HELENA BROMBERG -
Difícil dizer. Quando uma mãe diz que morreria no lugar do filho, não pensa que se fosse ela o filho sofreria. Além do temor, há culpas, ressentimentos, medo do futuro sem a pessoa. São emoções ambíguas, impasses.

ISTOÉ -
Por que muita gente adoece por luto?
MARIA HELENA BROMBERG -
Por conta das ocorrências psicossomáticas. As manifestações mais frequentes são os distúrbios de sono e de alimentação. Depende do grau de enlutamento. Do que afeta no cotidiano. Alguns enlutados não conseguem mais trabalhar. Outros, apresentam distúrbios de atenção e memória. Há pessoas que ficam suscetíveis a acidentes. Crianças podem apresentar problemas na escola. 

ISTOÉ -
O temor da morte tem idade?
MARIA HELENA BROMBERG -
 Não. Todos tentam evitar o assunto, até discriminam. Inúmeras vezes pessoas me olharam como se eu fosse uma pessoa nefasta. Pensam que sou gótica, dark. Mas não sou nada disso. Sou uma pessoa normal.

ISTOÉ -
Criança lida melhor com o luto?
MARIA HELENA BROMBERG -
Pode ser, mas é necessário que ela conceitue o que é morte. Absorva aspectos como universalidade. Ou seja, todos vamos morrer. Também a irreversibilidade: quando morre, não "desmorre". E por último a causalidade. Isto é, morreu porque aconteceu alguma coisa. A criança consegue integrar isso no começo da adolescência. Antes, ela pode achar que rezando a pessoa desmorre. Ela tem exemplos nos desenhos animados ou joguinhos virtuais. Seus heróis têm muitas vidas. É importante dizer à criança que o jogo é legal, mas não é real. Os adultos não favorecem essa percepção e preferem evitar o assunto. 

ISTOÉ -
Por que o adulto faz isso?
MARIA HELENA BROMBERG -
 Muitas vezes por medo ou por não saber o que dizer. Ele pode estar enlutado também. Se há uma perda na família, a criança tem que ser comunicada. Para o adulto fragilizado, falar é difícil. Na percepção global, morte é uma coisa não cotidiana, e o adulto tende a achar que não é assunto de criança. Mas ela quer esclarecimentos. 

ISTOÉ -
Esclarecer torna a criança mais preparada?
MARIA HELENA BROMBERG -
Sim. O adulto tende a subestimar as perdas infantis. A queda do sorvete ou a quebra do brinquedo, em termos de dor, é incomparavelmente menor frente à perda de alguém querido, mas é uma situação que faz a criança pensar sobre limites, frustração e reversão de expectativa. 

ISTOÉ -
Qual o pior tipo de luto?
MARIA HELENA BROMBERG -
 Há quatro aspectos: a pessoa que morreu, o tipo de morte, o suporte psicossocial que o enlutado tem e a sua estrutura psíquica. Se tem histórico de perdas, os problemas psíquicos podem incapacitá-lo para enfrentar mais essa. Julga-se que o luto mais difícil é o da morte de filho por suicídio. Mas como diz a música de Caetano Veloso, cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é.

ISTOÉ -
A morte de um bicho de estimação pode ser tão devastadora?
MARIA HELENA BROMBERG -
 Pode, só que aí entra na categoria de luto não franqueado. Esse luto espanta. "Onde já se viu chorar tanto por um cachorro. Se ainda fosse um filho vá lá", costumam dizer. 

ISTOÉ -
Há outros lutos assim?
MARIA HELENA BROMBERG -
A perda do parceiro por Aids também não tem receptividade. Morte do ou da amante. O aborto (provocado ou não), que é visto como um não evento.

ISTOÉ -
Como assim?
MARIA HELENA BROMBERG -
 No aborto não aconteceu o nascimento nem a morte convencional. A reação das pessoas é minimizar a perda. Falam: "Não se preocupe, logo você tem outro." Fizemos uma pesquisa com 60 mulheres adultas que tinham abortado na adolescência. Isso redundou até em esterilidade. A mulher pode ter um trauma psicológico e não engravidar novamente. 

ISTOÉ -
O luto não autorizado influencia a futura mãe?
MARIA HELENA BROMBERG -
 Sem dúvida. Atendi uma família que trouxe a filha adolescente para a terapia por achar que ela estava rebelde. Na entrevista com mãe e filha ficou clara a dificuldade de relação entre elas. A mãe não se sentia confortável. Superficialmente, pareciam conflitos típicos de adolescente, mas havia algo mais. O segredo era um aborto que a mãe fizera antes de a menina nascer, um luto que a mãe carregava ainda. 

ISTOÉ -
E como tratar isso?
MARIA HELENA BROMBERG -
Mais profundamente com a mãe. Ao fim ela resolveu revelar o segredo e livrou-se do peso. Parece mágico, mas não é. Foi um processo longo e doloroso para ambas, o que dá para dimensionar como a coisa se arrasta. 

ISTOÉ -
Existe um tempo padrão para superar o luto?
MARIA HELENA BROMBERG -
 Essa é uma questão temerária. Pode-se achar que morrer ou perder alguém acontece numa boa porque o tempo é o melhor remédio. 

ISTOÉ -
E não é?
MARIA HELENA BROMBERG -
o tempo ameniza a dor, mas também é capaz de gerar um luto crônico. O que poderia ser uma passagem de um estado para outro, pode permanecer na tristeza. No luto crônico, quanto mais o tempo passa, pior fica. É também chamado de luto complicado.

ISTOÉ -
Há mais tipos de luto complicado?
MARIA HELENA BROMBERG -
 Tem o adiado, aquele que a pessoa diz que está bem, não encara o sofrimento, chega a ficar eufórico. Um dia morre o peixinho da irmã da vizinha e ela desaba.

ISTOÉ -
Não existe o luto adiado para sempre?
MARIA HELENA BROMBERG -
Não. As pessoas têm que realizar suas perdas. Há um estudo feito na Inglaterra, a partir dos prontuários de pacientes psiquiátricos, em que se pesquisou a vida deles. Havia uma alta incidência de perda de pai ou mãe na infância. Eram pacientes com quadros psiquiátricos severos. Este é um exemplo de que o luto não realizado pode se manifestar não só na tristeza padrão, mas em doenças psiquiátricas. É diferente do luto distorcido, em que a pessoa aparenta estar bem, mas não está. Tem filhos para criar, trabalho e não consegue dar conta de tudo. Então disfarça. 

ISTOÉ -
E sobre o tempo de duração do luto?
MARIA HELENA BROMBERG -
 Trabalhamos por um parâmetro de um ano, mas não é regra. Há datas marcantes como o primeiro aniversário da pessoa que morreu. O primeiro Natal, etc. São situações de celebração que, depois da perda, marcam a ausência. Isto é positivo porque faz com que a pessoa se dê conta da realidade da perda. É importante que essas datas não sejam negadas. Quando completa um ano da morte, acontece um fenômeno chamado "reação de aniversário". Revive-se o ano que passou, a dor. Se perguntam por que estavam melhor e a dor voltou com tudo? 

ISTOÉ -
E a partir daí muda a relação com a perda?
MARIA HELENA BROMBERG -
 Do ponto de vista da terapia, é muito importante que se possa trabalhar o enlutado durante o primeiro ano da perda para o terapeuta estar junto nesses momentos. Do ponto de vista clínico, é muito mais complicado quando o enlutado chega ao consultório depois de cinco, dez anos da perda. As coisas estão mais cristalizadas. Quando entra no segundo ano, faz um certo platô emocional, sem que tudo tenha sido elaborado.
ISTOÉ -
Então, depois de uma grande perda, é possível ser feliz?
MARIA HELENA BROMBERG -
 É claro, mas precisa ressaltar que o enlutado odeia pensar que vai esquecer o ente que morreu. Ele não pode nem quer esquecer. A terapia trabalha na transformação dessa ausência numa memória. Porque o morto vive na memória de quem conviveu com ele. Esquecer é aterrorizante porque é não ter mais. A memória é saudável.
ISTOÉ -
E por que algumas pessoas não se recuperam? Há quem tenha morrido de tristeza. A terapia pode reverter isso?
MARIA HELENA BROMBERG -
 Depende do tipo de relacionamento que a pessoa tinha com o morto. Tem dependência que se manifesta em coisas sutis do cotidiano, que no dia-a-dia não se percebe. Há viúvas, por exemplo, que não sabem sequer que roupa usar, que nunca tomaram decisões com relação à família. Era sempre o marido quem fazia. Muitas vezes tem um lado fraco e um forte. Se o fraco morre, o outro vai precisar de alguém que substitua aquela dependência que classificamos de cuidadora. 

ISTOÉ -
E as pessoas que desabrocham depois de enviuvar?
MARIA HELENA BROMBERG -
 A sociedade é muito crítica em relação à viúva bem mais do que ao viúvo. Pode ser um luto bem-resolvido ou nos levar a pensar no que aquele casamento representava. Podia representar opressão. Ela solta seus grilhões. Atendi muitas mulheres que floresceram depois de enviuvar. Elas constroem uma nova identidade. É saudável perceber que depois de uma perda a pessoa fica diferente. Quando ela busca ser como era antes, se coloca num caminho impossível. 

ISTOÉ -
E os lutos coletivos, como foram os de Ayrton Senna e Lady Di?
MARIA HELENA BROMBERG -
Há dois aspectos. Um é o do papel da mídia na intensificação desses lutos. O outro é a dor da perda do ídolo refletida na vida de cada um. Quando o Senna morreu, choramos nossas perdas, pequenas e grandes. Perdas relacionadas ao orgulho de ser brasileiro, aos fracassos de cada um. A perda do filho que tinha a mesma idade dele. Fui à Inglaterra para os funerais da princesa Diana. O choro daquela gente não era só porque a princesa era querida. Mulheres choraram seus lutos pela princesa e por maridos inoperantes, traidores, jovens choraram por pais omissos. Cada um deságua seus lutos quando um ídolo se vai. Ainda que inconscientemente.
 fonte: isto é