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sexta-feira, 31 de maio de 2013

Mães órfãs - Como viver com a perda dos filhos


ISTO É

N° Edição: 2108 | 01.Abr.10

Antonio Carlos Prado



“Eu sempre quis ter outro filho, mas não é um plano para daqui a nove meses” - Ana Carolina, mãe de Isabella

Ser mãe é padecer no paraíso, quanta alegria e celebração à mulher que pode dizer isso – ela é mãe de filho vivo. Mãe de filho morto é mulher que desce ao inferno da dor, do desespero e da depressão. Sua vida, de céu não tem nada, há apenas um quedar-se insone, ansioso e impotente diante de um destino que não pode mudar. Se mães pudessem pressentir a morte inesperada de filhos, em crimes e acidentes, ou salvá-los de morte anunciada por enfermidade que vai se estendendo, simbolicamente tentariam aquilo que é fisiologicamente impossível: pelo mesmo e agora já inexistente cordão umbilical, através do qual os colocaram no mundo, os trariam de volta ao aconchego do útero. Sim, é nele, útero, que a constante dor emocional da morte, quase sempre psicossomatizada, lateja fisicamente. Psicólogos afirmam: “Muitas mulheres, ao perderem suas crianças, sentem pontadas no útero” – útero que já foi preenchido pelo feto, feto que virou filho, filho que virou sepultura. “A dor não passa jamais”, diz Luciana Mazorra, psicóloga clínica e professora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. “Emocional e fisicamente, é como se ela fosse mudando de lugar e machucando a mãe em espaços diversos.” Assim fala a teórica. Assim confirma a mãe enlutada Ana Cristina de Freitas Rocha, que perdeu em São Paulo a sua “querida Tatiana”, vítima de uma broncopneumonia aguda que fez seu abdômen doer numa quinta-feira e seus olhos cerrarem para sempre já no sábado seguinte: “O falecimento de filho é dor que dói na alma e no corpo.” Ana Cristina explica que “não há superação”, mas tão somente adequação de seu dia a dia ao sofrimento.

Ela trabalha em uma empresa de informática, gerenciando a área comercial, cuida da casa sozinha e atua voluntariamente na Associação Brasileira de Apoio ao Luto. É a essa função que dedica a maior parte de sua energia e tempo, coordenando um grupo de autoajuda e visitando mães enlutadas. Igualmente em outro ponto concordam especialistas em luto materno e mulheres que mirram em seu cotidiano na ausência do ente mais querido: “Às vezes, passase a vida inteira acreditando que o filho não morreu.” Há uma razão para isso, pendulando entre a filosofia e a biologia, essas duas áreas do conhecimento que são, também elas, mães – preciosas mães do entendimento da condição humana: existem na vida dois fenômenos irreversíveis, ou seja, a maternidade e a morte. A mulher é uma mulher e quando dá à luz passa a ser uma mulher-mãe. Se seu filho morre, ainda assim ela continua sendo mãe. Novamente aqui, reforça-se a tese com uma fala dolorida: “Não existe ex-mãe”, diz Maria José Amaral, que chora a falta de sua filhinha, Carolina, morta num acidente de carro na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, às vésperas de um Natal. Hoje ela mora em Brasília, tem um companheiro e escreve livros de contos baseados em experiências como a que ela amargou. Tentou ter outro filho, mas teve de abortá-lo porque o feto apresentava hidrocefalia e agora se resignou: não vai ser mãe novamente.

A DIFICULDADE DE OLHAR NO ESPELHO

Recentemente, duas mães que perderam seus filhos, crianças inocentes nas mãos de assassinos, tornaram-se involuntariamente símbolos da dor que devasta física e psiquicamente outras tantas mulheres, todas órfãs às avessas, digamos assim, de seus pequenos que partiram.
Uma dessas mulheres é Ana Carolina Oliveira, mãe de Isabella, trágica história que a mídia contou exaustivamente. A outra é Rosa Cristina Fernandes Vieites, mãe do garotinho João Hélio, que, preso ao cinto de segurança, mas com o corpinho fora do carro, foi arrastado na rua ao longo de sete quilômetros pelos assaltantes que fugiam com o automóvel de sua mãe. Rosa não dá mais entrevista porque um dos assassinos já se encontra em liberdade no Rio de Janeiro – e só três anos se passaram. Quanto a Ana Carolina, ela declarou em entrevistas que pensa em ter outro filho, projeto que não inclui os próximos nove meses. Teve de mudar de endereço em São Paulo (na garagem de sua ex-residência está instalada uma malharia que pertence a seus pais, segundo uma ex-vizinha), acorda cedo para trabalhar e brinca bastante com os sobrinhos. Ainda no campo da violência, é significativo na dor o sentimento da advogada carioca Zoraide Vidal. A sua filha, Ludmila, que era policial, estava grávida quando foi assaltada, torturada e morta.

Hoje, uma Zoraide essencialmente triste continua advogando e auxilia a polícia em trabalhos comunitários no Morro do Borel. Para todas essas mães a vida muda naquilo que é mais perceptível, ou seja, na rotina, na saúde, no ânimo e nos projetos. Mas muda também, e em doses alucinantes de padecimento, naquilo que é inconsútil, mas se torna marcado para sempre: a alma.
“É como se a minha Ludmila estivesse agora eternamente na chuva, desamparada e desprotegida”, diz Zoraide. “E eu preciso protegê-la, acolhê-la. A sua última frase para mim, em vida, foi a seguinte: se eu morrer hoje, só volto para o mundo para ser filha da Zoraide de novo.” Ela prossegue: “Onde está a minha Ludmila para eu abraçar, cuidar, beijar? É como amputar um braço, não se recupera mais. É uma dor que é um buraco que nada preenche.” Falou-se em alma da mulher-mãe, falou-se no desejo impotente de amparar o que já é inerte e assim faz-se necessário voltar-se aqui à teoria do luto. O que é essa alma? Como se dá o processamento da irreversível perda?
 O projeto de maternidade, bem como a maternidade consumada, é para a mulher uma espécie de “prolongamento de seu ego”, assim ensinou humanidade o criador da psicanálise, Sigmund Freud, e dois de seus mais geniais seguidores – embora tenham rompido com o mestre no andar da carruagem do conhecimento humano – Melanie Klein e Jacques Lacan. Pode-se dizer, mesmo, que “é um ato narcisista da mulher e na criança ela vai projetar a si própria, o que não quer dizer que não a ame profundamente e para sempre”. Assim, quando o filho morre, três dores se sobrepõem. Em primeiro lugar, o “espelho-lago da mitologia de Narciso”, presente em todos nós, se parte e muitas mães órfãs mal conseguem olhar-se de fato num espelho de verdade. “Eu não conseguia no início olhar no espelho, o meu olhar sangrava a minha alma”, diz Ana Cristina.
“Fiquei oca.” Em segundo lugar, a morte do filho interrompe toda a perspectiva de futuro que a mãe nele depositara, inclusive o futuro de ver seus genes se fortificarem e se perpetuarem – essa é parte emocional e novamente não tangível, mas contam também os projetos visíveis de vê-lo estudar, viajar, fazer dele uma pessoa e tê-lo como uma grande e constante companhia. Com ele vivo, o mundo é uma escada rolante subindo; se ele morre, nem se pode dizer que essa escada rolante pare. Na verdade, ela desce despencando.

A CULPA POR ESTAR VIVA

“Ocorre uma inacreditável descontinuidade. Eu perdi meu presente e, sem presente, com a morte da minha filha Tatiana naufragou meu futuro”, diz Ana Cristina. Finalmente, a morte de um filho interrompe o inexorável, mas natural caminhar do tempo: estamos culturalmente preparados para assistir, primeiro, à morte de nossos bisavós, avós e pais – ou seja, daqueles que primeiro chegaram ao mundo.
O falecimento do descendente, portanto, interrompe essa ordem estabelecida de vida e morte e a mulher-mãe enlouquece ao triste estilo dos incrédulos que não se cansam de perguntar “por quê?, por quê? por quê?”.
“Dá culpa, muito sentimento de culpa”, diz a paulista Eliza Cristina Saravalli, mãe de Tiago, morto num acidente. Em seu caso, também a culpa, como se culpa houvesse, se desdobra em dois planos. “Para esquecer de um namoro terminado, eu o incentivei a dar uma volta no jipe que o matou.” Essa é a culpa concreta, se é que assim pode-se chamá-la. Mas há outra, novamente a da alma, a da ordem natural interrompida de nascimento, crescimento, envelhecimento e morte.
Há o desespero que somente a desesperada sabe qual é. “Certa noite, voltando muito tarde de um baile, tirei os sapatos para entrar em casa para que o Tiago não visse a hora que eu estava retornando. Ele acordou e perguntou: mãe, essa cena não está invertida? Não sou eu que tenho de chegar tarde e você cedo?”, lembra Eliza. Agora, no angustiante luto cercado de símbolos, ela atravessa noites a fio se indagando o contrário: “Tiago, essa cena não está invertida? Não sou eu que tenho de estar morta e você vivo?” A despedaçada Eliza prossegue com ela trabalhando como cuidadora de idosos.

Criticada por alguns e apoiada por outros, ela voltou a dançar sempre que pode, atividade que funciona como terapia e entretenimento. Na subversão do tempo dos vivos e dos mortos, quando gente pequena morre antes de gente grande, ou na “traição do tempo”, como às vezes preferem definir essas mulheres enlutadas, já não vale o lugar-comum que repetimos e julgamos toda dor aplacar: “Dê tempo ao tempo que a dor passa.” Não. Para as órfãs de suas proles o tempo estanca e não há lenitivo; e entre aqueles que se especializam em cuidar delas é impossível quantificar um período de luto.
“Perder um filho é o maior stress que o ser humano pode passar. Não dá para dizer quanto dura esse luto, ele pode ser eterno”, diz a psicóloga Éster Affini, especializada no atendimento desses casos. Luto eternizado e tempo estancado são vividos por Maria José da Cruz Ferreira. Ela está com 73 anos e sua filha única, Regina, morreu quando tinha 15. Nesse pesaroso intervalo de 37 anos, Maria José conserva o quarto da filha tal qual ele era. Na gaveta da cômoda, cadernos e provas do colégio; no armário, vestidos.
“A caminha dela, a cadeira, o violão, os bichinhos de brinquedo, tudo igual”, diz a mãe. A certa altura da vida, se é que dá para falar em vida, Maria José e seu marido, José Roberto Ferreira, chegaram a cogitar um pacto de morte – os dois se suicidariam no mesmo instante. Eles não se mataram porque “nos voltamos para a fé em Deus e em Nossa Senhora, além do trabalho voluntário com jovens”, diz ela.

UM PÁSSARO CHAMADO TICO

A estrada da religiosidade, na verdade, é trilhada por muitas dessas mães. A mãe de Isabella já declarou que reza muito e volta-se para Deus. A mãe de João Hélio disse certa vez que segue a Igreja Católica e começou a assistir a palestras sobre espiritualidade dadas por psicólogos.
A carioca Manoela Toledo, mãe de Luan que morreu de caxumba com 6 anos, primeiro blasfemou à maneira das desesperadas, depois, assegura ela, teve “uma visão de Nossa Senhora, não com os olhos, mas com a mente”. E conta: “Antes de ver a Virgem, eu andava pela casa questionando Deus. A dor emocional era tanta que doía fisicamente. Eu me arrastava, curvada, ficava ajoelhada procurando cabelinhos de meu filho que poderiam estar no chão.” Cada órfã de filho empurra a vida, ou a reinventa em movimentos simples, com o vazio dentro de si.
A paulista Luciana Leite, por exemplo, acaba de tatuar três corações no pulso e um pássaro no pé. Quando ela estava no hospital com seu pequeno Lucca, vitimado por doença degenerativa, “um pássaro visitava a gente todo dia e o Lucca chamava-o de Tico.” Luciana está trabalhando na área de comunicação de uma multinacional, voltou a namorar e cuida de seus dois outros filhos.
A todas as mães órfãs entrevistadas ISTOÉ perguntou: – Que nome dar a essa dor? As mulheres-mães-órfãs choraram. As mulheres-mães-órfãs responderam:
– Essa dor não tem nome.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Criticar a felicidade



 
Critico a felicidade quando dela me esqueço.
Critico a felicidade quando faço de uma alguém um ninguém, faço a minha raiva espumar em minha alma.
Critico a felicidade quando não olho com misericórdia aquele que me prejudicou. Quando não leio a história de seus olhos em teu olhar. Quando não enxergo que ele ainda não foi apresentado ao Deus do amor.
Critico a felicidade quando o meu rosto não é pleno em meu espelho, quando as rugas não significam linhas de memórias e lembranças. Quando o meu corpo não é por mim aceito.
Crítico a minha felicidade, quando olho para o problema do outro e apenas vejo o meu “eu então”, quando não ouço a sua dor, quando não compadeço de seu problema.
Critico a felicidade, quando a alegria do jovem não me contagia, quando os risos da mesa ao lado, não me motivam e me fazem bufar. Quanto não respeito o outro, quando não encontro em suas palavras uma maneira de me melhorar.
Critico a felicidade, quando tudo minha volta se enche do meu eu, quando o mundo parece composto por apenas a minha vontade, quando não percebo que sempre o outro tem e contém uma parte que eu não tenho.
Critico a felicidade quando me torno comparação e minha fala passa a ser norma e não penso no outro porque o subestimo.
Critico a minha felicidade quando não percebo o mal que certeza tem, e que ela é falta do conhecimento do meu eu,
Critico a felicidade, quando não vejo a minha incapacidade de estabelecer o limite do narcisismo e do meu próprio fracasso.
Critico a felicidade, quando não celebro o amanhecer, quando não quero que a água se torne vinho, quando as lágrimas não limpam a minha alma.
Critico a felicidade quando não vejo o Cristo na cruz, na imagem de um irmão necessitado. Quando não encontro um Jesus ressuscitado porque não ouvi de um desconhecido um bonito gesto de cumprimento.
 
Eliete Gomes

sexta-feira, 17 de maio de 2013

ARTIGO: SUPERANDO A DOR DE UMA GRANDE PERDA





Como superar a perda de uma pessoa querida? Existe uma forma melhor de enfrentara morte?
Como continuar a viver sem a pessoa que era o motivo do nosso viver?
Não sei, mas gostaria de saber. Só sei que a dor que sentimos quando perdemos alguém é a maior que podemos passar na vida.
Não há nada mais doloroso que isso. Uma briga com o filho; uma discussão com a esposa ou um desentendimento com o amigo são problemas superáveis. 
Dependem apenas de tempo ou coragem suficientede todos para reverem seus pontos de vista.
Já a morte não espera e nem quer negociar. Não obedece ao tempo e muito menos à consciência. Aparece quando menos esperamos e derrota toda a nossa esperança e fé na vida.
A morte entra de uma forma brutal na vida. Corrói o coração de uma pessoa e estraçalha seus sonhos. Aniquila sua força para viver e parece que vai quebrá-la por inteiro e destruí-la. É uma dor que não some. Pelo contrário, consome cada momento bom da vida. Sem a menor piedade e muito menos sem pedir licença. Uma dor gigantesca. Indescritível em palavras.
A impossibilidade de se conversar com a pessoa que faleceu, ouvir sua voz, saber sua opinião ou tocá-la é devastadora para aquele que ficou. Uma foto, uma música, um aroma ou um objeto bastam para lembrar o ente querido. A dor de sua ausência reaparece a cada instante e cada vez mais forte. É impossível parar essa dor. Ela sangra incessantemente dentro da pessoa. Questionamentos acerca do sentido da vida aparecem e desolam familiares e amigos. A culpa também surge, pois é muito comum pensar que poderia ter sido feito mais para a pessoa viver. Portanto, é uma fase repleta de emoções tremendamente dolorosas sentidas cotidianamente. Em resumo, é o próprio inferno vivido na terra. É uma dor maior que a própria pessoa e que parece que vai matá-la. O que de certa forma seria um alívio para esta nesse momento terrivelmente doloroso.
Mas isso não é possível de acontecer sem ser de forma trágica. A vida continua e só há uma forma de salvação que eu acredito que possa diminuir tamanha dor. É preciso lutar para que o coração não se empedre para receber o amor daqueles que ficaram. A amargura provocada pela morte precisa ser superada, na medida do possível e aos poucos, pela alegria e doçura da vida.
De nada adianta negar, fugir ou sufocar a dor. Só existe um caminho para superá-la. Enfrentá-la! Com muita perseverança e força. Caso contrário, o pior pode acontecer: Morrer em vida. Tornar-se uma pessoa extremamente amarga, dura, sem brilho nos olhos e sem a capacidade de aproveitar verdadeiramente os bons momentos que avida ainda pode lhe proporcionar.
Com boas intenções é comum que familiares e amigos evitem ouvir a dor daquele que ficou, pois não suportam em si mesmos a dor da perda ou acreditam ingenuamente que ao conseguirem evitar a lembrança da perda também evitarão o impacto da dor. Assim, preferem não tocar no assunto ou, pior, forçar uma alegria falsa.
Neste contexto, a solidão assolapa o coração daquele que ficou e torna cada vez mais insuportável e dolorosa a sua vida.
É neste momento que a psicoterapia se torna fundamental, pois facilita o processo de elaboração do luto e torna a perda menos dolorosa.
Acredito que ao superar a dor da perda, a pessoa vive melhor. Mais livre. Passa a perceber como são preciosos cada momento que desfruta com as pessoas que são importantes em sua vida. Passa a não gastar mais energia com discussões irrelevantes. Desenvolve plena e total consciência de que a vida é valiosa demais para dar atenção para esses pormenores.
Portanto, não esperem que alguém querido morra para conseguirem dar valor para sua vida ou das pessoas que você ama. Viva bem a sua vida! Agora! Coragem! Mostre o seu amor a quem ama. Beije-os e abrace-os! Nada é mais prazeroso na vida do que isso.
Viviane Sampaio é psicóloga Clínica, Mediadora de Conflitos e Advogada. Psicoterapeuta de adolescentes, adultos, casais e famílias.
fonte:aqui

domingo, 12 de maio de 2013

Dia das Mães


Giuseppe Ghiaroni

Dia das Mães

Mãe! eu volto a te ver na antiga sala
onde uma noite te deixei sem fala
dizendo adeus como quem vai morrer.
E me viste sumir pela neblina,
porque a sina das mães é esta sina:
amar, cuidar, criar, depois... perder.
Perder o filho é como achar a morte.
Perder o filho quando, grande e forte,
já podia ampará-la e compensá-la.
Mas nesse instante uma mulher bonita,
sorrindo, o rouba, e a velha mãe aflita
ainda se volta para abençoá-la

Assim parti, e nos abençoaste.
Fui esquecer o bem que me ensinaste,
fui para o mundo me deseducar.
E tu ficaste num silêncio frio,
olhando o leito que eu deixei vazio, 
cantando uma cantiga de ninar.

Hoje volto coberto de poeira
e te encontro quietinha na cadeira,
a cabeça pendida sobre o peito.
Quero beijar-te a fronte, e não me atrevo.
Quero acordar-te, mas não sei se devo,
não sinto que me caiba este direito.

O direito de dar-te este desgosto,
de te mostrar nas rugas do meu rosto
toda a miséria que me aconteceu.
E quando vires e expressão horrível
da minha máscara irreconhecível,
minha voz rouca murmurar: ''Sou eu!"

Eu bebi na taberna dos cretinos,
eu brandi o punhal dos assassinos,
eu andei pelo braço dos canalhas.
Eu fui jogral em todas as comédias,
eu fui vilão em todas as tragédias,
eu fui covarde em todas as batalhas.

Eu te esqueci: as mães são esquecidas.
Vivi a vida, vivi muitas vidas,
e só agora, quando chego ao fim,
traído pela última esperança,
e só agora quando a dor me alcança
lembro quem nunca se esqueceu de mim.

Não! Eu devo voltar, ser esquecido.
Mas que foi? De repente ouço um ruído;
a cadeira rangeu; é tarde agora!
Minha mãe se levanta abrindo os braços
e, me envolvendo num milhão de abraços,
rendendo graças, diz:"Meu filho!", e chora.

E chora e treme como fala e ri,
e parece que Deus entrou aqui,
em vez de o último dos condenados.
E o seu pranto rolando em minha face
quase é como se o Céu me perdoasse,
me limpasse de todos os pecados.

Mãe! Nos teus braços eu me transfiguro.
Lembro que fui criança, que fui puro.
Sim, tenho mãe! E esta ventura é tanta
que eu compreendo o que significa:
o filho é pobre, mas a mãe é rica!
O filho é homem, mas a mãe é santa!

Santa que eu fiz envelhecer sofrendo,
mas que me beija como agradecendo
toda a dor que por mim lhe foi causada.
Dos mundos onde andei nada te trouxe,
mas tu me olhas num olhar tão doce
que , nada tendo, não te falta nada.

Dia das Mães! É o dia da bondade
maior que todo o mal da humanidade
purificada num amor fecundo.
Por mais que o homem seja um mesquinho,
enquanto a Mãe cantar junto a um bercinho
cantará a esperança para o mundo!



sexta-feira, 10 de maio de 2013

PRATICANDO O DESAPEGO



Enxergue os términos com outros olhos e aprenda a dizer adeus


     Em 2009, a entrega do Oscar de melhor filme estrangeiro trouxe uma surpresa. O filme japonês Partida (Departures /Okuribito) levou a tão desejada estatueta no lugar de outros filmes mais incensados pela crítica. Mas afinal de contas, o que Partida tem que o torna tão especial? Trata-se da história de um homem na faixa dos 20 anos, casado, que toca violoncelo numa orquestra em Tóquio, e esta é dissolvida pelo patrocinador. Ele volta à sua cidade natal com a sua mulher e consegue um emprego no qual ganha muito bem. O que o desagrada é o novo trabalho em si: arrumar defuntos para serem cremados, numa cerimônia em que a família da pessoa morta está presente. À medida em que ele persiste no emprego, começa a perceber a importância do que faz e a dignidade de honrar os mortos em sua despedida.
     Um outro filme, este feito para a TV, pela HBO, chamado Correr Riscos (Taking Chance) mostra um coronel que escolta o corpo de um soldado morto na guerra do Iraque para ser entregue a seus pais no interior, e também fala de despedir-se com dignidade.
    A morte faz parte da vida, mas muitas vezes a negamos, talvez pelo medo, talvez por estarmos ocupados demais tentando sobreviver. Quando entendemos a morte como a outra face da vida, esta toma um novo sentido. Podemos efetivamente viver - e não somente sobreviver. Geralmente a morte, principalmente de pessoas queridas, nos sacode de nossa zona de conforto, de uma forma mais ou menos intensa, provocando questionamentos sobre a vida, principalmente sobre aquelas questões que adiamos a resolução. A morte nos lembra que tudo passa, que nada é para sempre, e dá uma noção real de que o tempo anda, e não espera.
     É preciso saber dizer adeus a quem nos deixa, mesmo sabendo que o que está presente naquele instante é um corpo sem vida. Isso realça a dignidade da vida, não só daquele que morreu, mas de quem ainda vive.
     Dizer que a morte faz parte da vida nos faz pensar só no final, mas é muito mais presente do que isso: a cada situação em que precisamos terminar algo para começar uma nova etapa da vida, a morte está ali. Na Índia, a religião hindu tem uma trindade de deuses, formada por Brahma, Shiva e Vishnu. Brahma é o criador de tudo, Shiva é o destruidor e Vishnu o preservador. Parece meio sinistro um deus que destrói, mas é através da destruição do que está gasto que há renovação, que é possível nascer o novo. Não à toa, Shiva é o deus mais adorado na Índia, tendo muito mais templos onde é cultuado, do que os outros deuses da trindade hindu.
    Pode parecer absurdo o que eu vou dizer, mas integre a morte em sua vida para que você possa viver mais plenamente. Busque soluções para aqueles problemas que vem adiando, como se o tempo não passasse. Perceba o que já terminou em sua vida, e você não reconhece. Muitas vezes nos apegamos a situações que já não fazem mais sentido, somente pela rotina."Muitas vezes nos apegamos a situações que já não fazem mais sentido, somente pela rotina."
    Podem ser situações de trabalho, de relacionamento, de hábitos. Viver tendo presente a perspectiva de que morreremos não deveria trazer medo, mas acentuar a responsabilidade que temos de fazer com que a nossa vida tenha o rumo que planejamos para ela. Assim, podemos ser dignos de um dia morrer conscientes de que buscamos (mas nem sempre conseguimos) realizar aquilo que é necessário da melhor forma possível.

Médico graduado pela UFRJ. Começou a carreira como Psicanalista e depois enveredou pela Homeopatia e Acupuntura. Ministra oficinas e palestras em todo o Brasil e atende em consultório no RJ.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Morte de um filho:



A superação deve ser buscada diariamente

Desde o início da humanidade, somos alertados quanto a possibilidade de perder os pais, irmãos ou amigos para a morte e sempre nos falam que diante desse infortúnio, temos de ser fortes, pois não há nada que se possa fazer.

Mas na verdade, nunca estamos preparados quando acontece. A morte é a única certeza que qualquer ser vivo tem. Quando ocorre a morte de filho, o impacto é ainda maior, pois não se perde um ente querido, mas, um pedaço de si mesmo, que se vai sem volta, é um pedaço da alma que se parte em milhares de pedaços e nem o tempo, com sua sabedoria milenar, parece capaz de juntar e colar tais retalhos.

Mas, como o mundo não pára e o ciclo da vida continua, é preciso aos poucos juntar o que restou emendar, como puder e mesmo com as eternas feridas abertas, tentar seguir o caminho. 
Até nos registros bíblicos, a morte é relatada de acordo com o ciclo natural: nascer, crescer, procriar, para só então morrer. E se isso acontece fora dos padrões, o sofrimento é ainda maior, como se o ocorrido fosse fora de hora, inaceitável.

Surgem sempre as perguntas; Se eu tivesse feito isso... Por quê? Quando a morte do filho é de acidente, é mais comum ainda, a família, principalmente os pais, se culparem por não conseguirem impedir a tragédia.

O desespero diante do inesperado é ilimitado e no caso das mães, muitas vezes, uma internação hospitalar, ou acompanhamento psicológico e tratamento medicamentoso se faz necessário.
O luto familiar nunca acaba, é para sempre, mas, como já foi dito antes, é preciso seguir em frente, reencontrar o eixo de apoio entre os membros familiares. É o momento da união, solidariedade, companheirismo e principalmente hora de se resgatar a fé. Sem fé em Deus, nada se consegue nesses momentos de angustia.

Seja qual for a forma de expressar essa fé, com certeza será válida. É preciso se conscientizar de que esse luto não acabará jamais, só mudará de intensidade, deixando que as outras coisas retomem aos poucos, seu lugar.
Chore o que tiver para chorar, faz bem, mas não feche seu coração para o mundo, nem perca a oportunidade de reaprender a sorrir. Principalmente, se você tem outros filhos, eles ainda precisam de você.

Por: Graça Campos - Psicóloga
colaboração de Ilca Santos