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sexta-feira, 30 de maio de 2014

SE É BOM OU SE É MAU... por Rubem Alves


           Quero contar para vocês a estória que mais tenho contado - não aconteceu nunca, acontece sempre. Um homem muito rico, ao morrer, deixou suas terras para os seus filhos. Todos eles receberam terras férteis e belas, com a exceção do mais novo, para quem sobrou um charco inútil para a agricultura. Seus amigos se entristeceram com isso e o visitaram, lamentando a injustiça que lhe havia sido feita. Mas ele só lhes disse uma coisa: "Se é bom ou se é mau, só o futuro dirá." No ano seguinte, uma seca terrível se abateu sobre o país, e as terras dos seus irmãos foram devastadas: as fontes secaram, os pastos ficaram esturricados, o gado morreu. Mas o charco do irmão mais novo se transformou num oásis fértil e belo. Ele ficou rico e comprou um lindo cavalo branco por um preço altíssimo. Seus amigos organizaram uma festa porque coisa tão maravilhosa lhe tinha acontecido. Mas dele só ouviram uma coisa: "Se é bom ou se é mau, só o futuro dirá." No dia seguinte seu cavalo de raça fugiu e foi grande a tristeza. Seus amigos vieram e lamentaram o acontecido. Mas o que o homem lhes disse foi: "Se é bom ou se é mau, só o futuro dirá." Passados sete dias o cavalo voltou trazendo consigo dez lindos cavalos selvagens. Vieram os amigos para celebrar esta nova riqueza, mas o que ouviram foram as palavras de sempre: "Se é bom ou se é mau, só o futuro dirá." No dia seguinte o seu filho, sem juízo, montou um cavalo selvagem. O cavalo corcoveou e o lançou longe. O moço quebrou uma perna. Voltaram os amigos para lamentar a desgraça. "Se é bom ou se é mau, só o futuro dirá", o pai repetiu. Passados poucos dias vieram os soldados do rei para levar os jovens para a guerra. Todos os moços tiveram de partir, menos o seu filho de perna quebrada. Os amigos se alegraram e vieram festejar. O pai viu tudo e só disse uma coisa: "Se é bom ou se é mau, só o futuro dirá..."
           Assim termina a estória, sem um fim, com reticências... Ela poderá ser continuada, indefinidamente. E ao contá-la é como se contasse a estória de minha vida. Tanto os meus fracassos quanto as minhas vitórias duraram pouco. Não há nenhuma vitória profissional ou amorosa que garanta que a vida finalmente se arranjou e nenhuma derrota que seja uma condenação final. As vitórias se desfazem como castelos de areia atingidos pelas ondas, e as derrotas se transformam em momentos que prenunciam um começo novo. Enquanto a morte não nos tocar, pois só ela é definitiva, a sabedoria nos diz que vivemos sempre à mercê do imprevisível dos acidentes. "Se é bom ou se é mau, sé o futuro dirá."

fonte:http://www.rubemalves.com.br/10mais_09.php

sexta-feira, 23 de maio de 2014

O QUE RESTA A CADA UM



Vou contar-lhes algo que aconteceu ao internacionalmente conhecido violinista Yitzjak Perlman e que me foi contado por um amigo que esteve presente na ocasião. Como de costume, no dia 18 de novembro de 1995, Perlman subiu ao palco para dar um concerto no Lincoln Center, em Nova York. 

Se você alguma vez assistiu a um concerto do músico, sabe que não é fácil ele subir no palco. Teve poliomielite na infância, usa aparelho em ambas a pernas e caminha com ajuda de duas muletas. Vê-lo avançar no palco, um passo de cada vez, lentamente, é algo impressionante. Caminha com dor, mas majestosamente, até chegar ao seu lugar. Senta-se, coloca as muletas no chão, empurra um pé para trás e estende o outro para frente. Abaixa-se, pega o violino, coloca-o apoiado no queixo, faz um sinal de assentimento para o maestro e começa a tocar. 
O público está acostumado a esse ritual. 

Mas nesse dia, algo saiu errado. Ao terminar um dos primeiros compassos, uma das cordas do violino arrebentou. Foi possível escutar o ruído, que soou como um disparo. Não havia dúvida sobre o que acontecera. E também sabia o que Perlman teria de fazer. Meu amigo descreveu assim o que ocorreu: 

- Achamos que ele teria que se levantar, pegar as muletas e sair mancando do palco para buscar outro violino ou outra corda.Mas não o fez. Esperou um momento, fechou os olhos e fez um sinal ao maestro para reiniciar. A orquestra começou e ele retomou de onde havia parado. E tocou com tal paixão, força e pureza...tocou como nunca. Eu sei, e muitos sabem, que é impossível tocar uma obra sinfônica com somente três cordas, mas nesta noite Yitjak Perlman negou-se a aceitar essa verdade. Era possível vê-lo modulando, modificando, recompondo mentalmente a obra. Em um dado momento, parecia afinar novamente as cordas para extrair dali sons nunca emitidos. Quando terminou, havia um impressionante silêncio na sala. E, em seguida, o público se ergueu e houve uma explosão extraordinária de aplausos dos quatro cantos da platéia. Estávamos todos de pé, gritando e aplaudindo, fazendo todo o possível para demonstrar o quanto apreciáramos o que ele fizera. Perlman sorriu, limpou o suor da testa, levantou o arco para que nos calássemos e disse (não com presunção, mas em um tom baixo, pensativo, reverente): 

- “Sabem, às vezes a tarefa do artista é descobrir quanta música se pode fazer com o que nos resta”. 

Que pensamento tão poderoso! Permaneceu na minha mente desde que o escutei pela primeira vez. Às vezes, a tarefa do artista é descobrir quanta música se pode fazer com o que nos resta. Vocês não a vêem como uma bela definição para a nossa vida? Para todos aqueles que sentem incompletos, que acreditam não haver mais música na vida? Perlman nos ensina que nossa tarefa é fazer música primeiro com tudo o que tivermos a nosso alcance e, em seguida, quando isso não for mais possível, utilizar o que nos resta. 

Também nós, em algum momento da vida, encontramo-nos com uma corda a menos. Mas devemos continuar, porque o desafio é “descobrir quanta música se pode fazer com o que nos resta”. 
Sofremos de dor e choramos a perda de um ser amado; sentimos que se interrompeu a música da nossa vida. Mas, em algum momento, não em um dia ou em uma semana, não de modo repentino, mas sim lentamente, por vezes um passo para frente e dois para trás, devemos começar a reagir. Devemos nos recompor novamente. 

Nesses dias de aflição, lembrem-se da melodia, concentrem-se nela. Escutem a canção de sua vida. Empenhem-se com todo o seu ser. Escutem-na agora e levem a mensagem a seu coração, não só como consolo, mas também como uma inspiração, para que dessa recordação, dessa dor e tristeza, possamos encontrar a força e determinação para continuar com a melodia de nossas vidas. Porque o maior desafio, o principal imperativo, consiste em descobrir quanta música podemos fazer com o que nos resta a partir do momento em que nossos entes queridos não estão mais conosco. 

Rittner, Marcelo - Aprendendo a dizer adeus, Editora Planeta, 2004 
fonte: grupo casulo

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Letícia Thompson

Uma questão de tempo...

Sim... as pessoas que amamos são insubstituíveis ao nosso coração. Aquele lugarzinho que elas ocupam fica marcado com a presença delas, com o cheiro, com a forma e até o som do riso.

E quando elas partem forma-se o vácuo. Mas se a presença física se foi, ficam ainda as lembranças de tudo aquilo que foi construído juntos: os momentos vividos, as horas compartilhadas, muitas vezes as partidas e reencontros...

A saudade é tão indizível quanto a dor que ela provoca.

Mas ainda existe uma esperança: quem faz o bem aqui, nunca vai completamente: essa pessoa vive através dos ensinamentos que deixou, vive através das marcas que foi colocando em cada passo, cada acontecimento...

E o que reconforta é a esperança de que esse ponto final colocado é apenas passageiro, pois o Senhor nos prometeu que um dia, no céu, nós nos reconheceríamos.

Então... é apenas uma questão de tempo. Um dia a gente se reencontra fatalmente com aqueles que amamos e nos amaram acima de tudo nessa vida terrena. E enquanto estamos aqui, vamos deixando nossas marcas também, por que há os que precisam de nós e os que um dia irão querer viver com a esperança de nos reencontrar.

Assim, um dia, numa promessa feita por Deus, haverá no céu uma grande festa.

Tudo é uma questão de tempo...
Letícia Thompson

sexta-feira, 9 de maio de 2014

O neto que virou pai...


Compartilhar a dor não é sofrê-la no coletivo, é livrar quem dela sofre. Foi com esse lema que o estudante Fernando Aguzzoli decidiu dividir com milhares de seguidores a experiência de virar o pai da própria avó e fazer dessa relação um exemplo de como lidar de forma leve com o Alzheimer.

Fernando realizou o sonho da avó e a levou para conhecer as Cataratas do Iguaçu - Acervo pessoal
Acervo pessoal

Fernando realizou o sonho da avó e a levou para conhecer as Cataratas do Iguaçu

Em janeiro de 2013, aos 21 anos, o jovem de Porto Alegre decidiu largar a faculdade de filosofia e o emprego para passar 24 horas ao lado da avó, diagnosticada com Alzheimer cinco anos antes. Aos 79 anos, Nilva Aguzzoli, ou a Vovó Nilva, como ficou conhecida nas redes sociais, passou a ter o neto como cuidador em tempo integral.
"Desde o início da doença, eu e meus pais sempre cuidamos, mas, em 2013, quando percebi que ela estava chegando a um estágio mais avançado da doença, pensei que, em breve, ela poderia nem nos reconhecer mais, e decidi que queria ficar direto com ela. A partir daí, tomei a decisão de levar tudo na esportiva", conta Fernando.
Em setembro, o jovem teve a ideia de criar uma página no Facebook onde passou a relatar de forma bem-humorada histórias do cotidiano de uma família com um membro com Alzheimer. "Sempre busquei informação sobre a doença e tudo o que eu encontrava era deprimente", conta. Nas postagens, os esquecimentos da Vovó Nilva viravam motivo de risada.
"Foi superpositivo para mim, para ela e para os meus pais. A realidade dela era completamente diferente, mas era muito bonita. As coisas eram lindas, as pessoas não morreram. Quem sou eu para tirar isso dela?", diz.
E era com bom humor que Fernando enfrentava os desafios diários. "Quando ela teve de usar fralda pela primeira vez, ficou incomodada. Então, eu coloquei uma fralda em mim e rimos juntos", conta.
A história acabou atraindo a curiosidade de internautas e a admiração de familiares de pacientes com Alzheimer.
Com o sucesso, Fernando e a avó passaram a escrever um livro que, além de contar as histórias engraçadas, terá dicas de como a família pode lidar com diversas situações vividas por um paciente com a doença. A iniciativa atraiu a atenção de médicos do Rio Grande do Sul, que participam da publicação com orientações técnicas. O livro deve ser lançado em setembro.
Vovó Nilva acabou morrendo em dezembro, por complicações de uma infecção urinária. Apesar da frustração, Fernando decidiu manter a página na internet, que hoje já tem 15 mil seguidores. "Mantive por consideração às pessoas que me deram apoio, pela escassez de informações sobre a doença e, principalmente, porque é uma forma de deixar a minha avó viva."
Benefício. Posturas como a de Fernando podem até ajudar a adiar a evolução da doença, segundo Cícero Gallo Coimbra, professor de Neurologia e Neurociências da Unifesp. "Na maioria dos casos, a atitude da família é cobrar e repreender o parente nos episódios de esquecimento. Essa cobrança leva ao pânico e ao estresse, que bloqueiam a produção de novos neurônios e pioram um quadro de demência", explica o especialista. "A maioria das famílias deixa o parente com Alzheimer no ostracismo, e o que ele mais precisa é de acolhimento afetivo."
E essa foi a missão de Fernando. "Quando eu e minha mãe decidimos levar a vó para realizar o sonho dela, que era conhecer as Cataratas do Iguaçu, muitos perguntavam por que íamos gastar dinheiro com a viagem se, dez minutos depois, ela não lembraria do passeio. Mas, para nós, não importava se ela lembraria, importava a felicidade que ela teria naquele momento."

fonte: Estadão SP

sexta-feira, 2 de maio de 2014

O EU E A PERSONA


Paul Ferrini

Você não se sente ligado ao amor porque acha que já algo errado com você. Você tem medo de ser julgado e rejeitado pelos outros.
Você acha que não é aceitável do jeito que é, pois durante quase toda a sua vida você aceitou as idéias e opiniões dos outros como se elas correspondessem à verdade a seu respeito. Contudo, o que a sua mãe, o seu pai, o seu professor, o sacerdote de sua igreja dizem a seu respeito é só a opinião deles. Algumas destas opiniões podem ter sido corretas em alguma época da sua vida, mas até mesmo estas podem não se justificar agora.
Lamentavelmente, você internaliza as opiniões dos outros a seu respeito. E molda a sua auto-imagem com base nelas. Em outras palavras, a opinião que você tem a seu respeito não é pautada no que você sabe ou descobre acerca de si mesmo, mas no que os outros dizem.
O "você" que você conhece é uma criação formada pelas crenças e julgamentos das outras pessoas que você aceitou como verdadeiros. Até mesmo o que você chama de "personalidade" não passa de um conjunto de padrões de comportamento que você adotou para se harmonizar com o comportamento das pessoas importantes da sua vida.
Então onde está o "verdadeiro você" na equação entre você e os outros? O verdadeiro você é o fator desconhecido, a essência encapsulada pelos julgamentos e interpretações que você aceitou sobre si mesmo e sobre a sua experiência.
Isso vale para todo mundo, não só para você. As pessoas se relacionam umas com as outras não com seres autênticos e auto-realizados, mas como personas, máscaras, papéis, identidades. Muitas vezes, as pessoas usam mais de uma máscara, dependendo com quem elas estejam e do que se espera delas.
O verdadeiro Eu fica perdido e esquecido em meio a todos esses disfarces. E a autenticidade, a maior dádiva que ele recebeu, não é conscientemente reconhecida.

O verdadeiro Eu sabe que você é inteiramente bom, aceitável e capaz de dar e receber amor. Ele sabe que qualquer coisa é possível se você acreditar profundamente em si mesmo.
Paul Ferrini

fonte: era dourada