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sexta-feira, 27 de maio de 2016

Tipos de luto: sim, existe mais de um Leia mais: http://www.fasdapsicanalise.com.br/tipos-de-luto-sim-existe-mais-de-um/#ixzz47LUynUiG

“Na solidão da escuridão, quase consegui sentir a finitude da vida e sua preciosidade. Não damos valor, mas ela é frágil, precária, incerta, capaz de terminar a qualquer momento, sem aviso” (Livro: Marley e Eu).

O Luto é um processo que se inicia após o rompimento de um vínculo e estende-se até o período de sua elaboração – quando o indivíduo enlutado volta-se, novamente, ao mundo externo. O luto é um processo essencial para que nós possamos nos reconstruir, nos reorganizar, diante do rompimento de um vínculo. É um desafio emocional, psíquico e cognitivo com o qual todos nós temos que lidar. Inclui transformação e ressignificação da relação com o que foi perdido.
Contudo, você sabia que há uma classificação e tipos diferentes de luto? Pois bem, eu fiz uma pesquisa e montei de uma forma didática o que se refere cada tipo. Minha intenção é apenas que esta lista seja uma ferramenta de referência para que você possa entender os diferentes termos que utilizamos para explicarmos o processo de luto que determinado indivíduo e/ou uma comunidade está vivenciando.
Luto Natural:
Fiz uma troca proposital de palavra, por entender que o luto seja um processo natural após uma perda significativa.
Num processo natural, as reações à perda de algo significativo, muitas vezes, incluem impedimento e/ou desinteresse temporário na realização das atividades diárias do cotidiano, isolamento social, pensamentos intrusivos e sentimentos de saudade e tristeza, que variam e evoluem ao longo do tempo. Em alguns casos pode culminar num estado de depressão. O traço mais característico no processo de luto são episódios agudos de dor, com muita ansiedade e dor psíquica.
Apesar do luto ser um processo universal, cada indivíduo possui uma forma particular de reagir. Este processo varia de acordo com a faixa etária em que o indivíduo se encontra, o tipo de vinculação existente e as causas e circunstâncias da perda. Varia também de acordo com sua estrutura emocional, vivências e capacidade para lidar com perdas. Quanto à duração do processo, não existe uma resposta conclusiva. O processo de luto é vivenciado pelas pessoas de forma individual e subjetiva, o que torna inadequado estipular um prazo para seu término. Segundo Worden, no entanto, quando se perde uma relação próxima é muito improvável levar menos de um ano e, para muitos casos, pode levar dois anos ou até mais. É fundamental que esse processo de enlutamento seja vivenciado até que ele seja elaborado, para que a dor da perda não fique reprimida. Tal processo se dá de forma lenta e gradual, com duração variável para cada pessoa.
A aceitação só se dá a partir de um longo processo de elaboração e ela não significa esquecer, disfarçar que nada ocorreu ou ainda não sentir dor quando lembrar. Na aceitação o sofrimento psíquico e/ou emocional passa a ser menos intenso, e o indivíduo enlutado passa, geralmente, a restaurar laços sociais, recuperando vínculos antigos e estabelecendo novas relações. Ele retoma a capacidade de se envolver em atividades cotidianas.
Luto Complicado:
Existem situações em que o processo de luto não segue a evolução normal, ou seja, o indivíduo não consegue se reestruturar, podendo ocorrer fixação numa das etapas e, consequentemente, a não elaboração do luto. Nestas circunstâncias, o luto permanece não resolvido ao longo do tempo, durante vários anos, e, por vezes, para o resto da vida, interferindo no estado emocional da pessoa e impactando significativamente a sua vida. Nestes casos, em que há o prolongamento do luto, o denominamos de Luto Complicado. Este se caracteriza por uma melancolia duradoura, acompanhada em geral de profunda tristeza, problemas de saúde, distúrbios psíquicos e diminuição dos contatos sociais, o que exige processos de readaptação com a ajuda de profissionais habilitados.
Segundo Horowitz, o luto complicado é a intensificação do luto até o ponto em que a pessoa se sente sobrecarregada, recorre a um comportamento mal adaptado ou permanece interminavelmente num estado de luto, sem progressão do processo em direção a seu término.
Alguns fatores podem nos auxiliar a identificar que a pessoa está vivenciando este processo. Por exemplo: foco extremo na perda e lembranças da pessoa morta; intenso desejo ou anseio de encontrar a pessoa; dificuldade para aceitar a morte; dificuldade para realizar coisas do cotidiano; estado de humor permanentemente alterado; comportamento antissocial; ideação suicida e comportamentos autodestrutivos; sentimento que a vida não tem qualquer significado ou propósito. Esta sintomatologia também pode ocorrer num processo de luto, no entanto, no luto complicado estes sintomas não mostram sinais de evolução e/ou melhora ao longo do tempo. Segundo Prof. Parkes, “Complicated bereavement is complicated” (Luto complicado é complicado).
Luto Antecipatório:
Na minha concepção o luto antecipatório se inicia a partir do diagnóstico de uma doença crônica sem possibilidade terapêutica de cura. Entendido como um processo de construção de significado para a vida. Permite ao paciente absorver a realidade gradualmente em relação às perdas dos aspectos significantes do corpo, da consciência, da personalidade, da autonomia; permite resolver questões pendentes; expressar sentimentos; perdoar e ser perdoado.
O Luto Antecipatório é um fenômeno adaptativo, no sentido de que é possível, tanto ao paciente quanto aos familiares se prepararem cognitiva, emocional e espiritualmente para o acontecimento seguinte que é a morte.
Luto Traumático:
Parkes nos diz que todos os lutos são traumáticos, diferenciando o fato de alguns serem mais traumáticos que outros. Este processo se inicia quando o confronto com a morte se deu de forma violenta e avassaladora. Acidentes de trânsito e queda de um avião são alguns exemplos. Os eventos traumáticos são permeados de desamparo e horror. Há uma (re) vivência ilusória ou alucinatória da experiência traumática, que se dá por meio de flashbacks.
Luto Coletivo:
Esse processo é desencadeado por uma catástrofe natural e/ou catástrofe humana sem precedentes, que acarreta sentimento de profunda angústia e que abala a forma como vivemos. Expõe à sociedade sua vulnerabilidade e mostra que o mundo pode ser um lugar imprevisível. Exemplos: Holocausto, tsunami, atentado terrorista (WTC). O luto é vivenciado por todas as nações, etnias e crenças.
Luto não Reconhecido:
Este tipo de luto se apresenta quando a sociedade ou a comunidade na qual o sujeito está inserido não valida ou ignora a perda sofrida, seja pelo fato de o relacionamento não ser legitimado, seja pela perda não reconhecida, seja pelo enlutado ou pela morte não serem aceitos. Num processo de luto não reconhecido pode não haver condições para expressar o pesar, os sentimentos e até mesmo os conflitos relacionados à perda. A perda pode ser vista como irrelevante. Exemplo: morte do animal de estimação. Este processo também pode ocorrer quando a perda não está relacionada a uma morte. Exemplos: separação conjugal e/ou aposentadoria.
Luto Adiado:
Este luto é caracterizado pela ausência das reações normais de um processo de luto. No luto adiado a pessoa não se permite sofrer e não expressará o pesar por um longo período após a morte de um ente querido. Algumas pessoas tentam ao máximo adiar a tristeza, até que um dia não conseguem mais. As influências familiares e culturais podem afetar o percurso natural de um enlutado. Em muitas culturas, por exemplo, os homens são incentivados a não chorar, pois este ato é visto como uma demonstração de fraqueza. Então, muitos não expressão suas dores e adiam a experiência do luto por longo período. O adiamento de um processo de luto pode causar algumas doenças de ordem psíquico-emocional.
(Autor: Nazaré Jacobucci)
(Fonte: psicologiasdobrasil.com )
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sexta-feira, 20 de maio de 2016

Equilíbrio e Saúde

Dificuldade para superar luto afeta mais os idosos, mostra estudo

08/09/2015  02h00
Ela cuidou do marido durante os últimos oito anos da vida dele, quando ficou cego, teve câncer e problemas cardíacos. Depois que ele morreu em 2002, ela vendeu a casa em Long Island, nos EUA, que os dois dividiam, pois o lugar guardava muitas memórias. Depois disso, se mudou para sua casa de campo.
"Eu não estava nada bem", afirmou Anne Schomaker, de 73 anos. "Tinha surtos terríveis de tristeza e desânimo. Sentia muita saudade do meu marido." Mesmo depois de fazer terapia, o que ajudou um pouco, ela tinha pesadelos e não suportava ouvir as óperas prediletas do casal. "A dor simplesmente não passava."
Geralmente, o luto vai desaparecendo à medida que os meses passam, e as pessoas começam a alternar entre a tristeza e a capacidade de redescobrir os prazeres da vida.
O luto fazia parte de vida de Anne há nove anos quando ela viu um anúncio da Universidade de Columbia, onde pesquisadores que haviam desenvolvido um tratamento para o "luto com complicações" buscavam participantes para um estudo.
Karsten Moran/The New York Times
Anne Schomaker, cuja vida ficou paralisada por nove anos após a morte do marido
Anne Schomaker, cuja vida ficou paralisada por nove anos após a morte do marido
O luto prolongado pode atingir qualquer pessoa, especialmente idosos. "O luto é resultado da perda. Pessoas com mais de 65 enfrentam perdas muito maiores", diz Katherine Shear, psiquiatra de Columbia que publicou um artigo sobre o tema no "The New England Journal of Medicine".
Um estudo envolvendo 2.500 pessoas, realizado na Alemanha, afirma que a proporção total é de cerca de 7%, chegando a 9% entre as pessoas com mais de 61.
O problema parece ser mais provável quando a morte é repentina e quando o paciente tem histórico de tendência à depressão, ansiedade e uso de substâncias químicas.
A definição desse tipo de luto é motivo de discordância entre profissionais da área. Na última versão de seu Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, a Associação Psiquiátrica Americana se negou a classificar o luto com complicações como um transtorno mental, mas incluiu o "transtorno persistente complexo relacionado ao luto" na lista de temas que exigem estudo posterior.
O manual sugere um limite de 12 meses para delimitar um luto "normal", mas Katherine e outros pesquisadores propõem um limite de apenas seis meses. Alguns especialistas discordam. "A psiquiatria precisa mesmo rotular emoções humanas perfeitamente normais como transtornos?", questiona Jerome Wakefield, professor da Universidade de Nova York.
Ao diagnosticar o luto com complicações apenas seis meses depois de uma morte, afirmou, "muitas pessoas normais vão receber tratamentos desnecessários", incluindo medicamentos.
Katherine também se preocupa com a "patologização" de emoções. Mas quando uma mulher é incapaz de sair de casa quatro anos depois da morte de um filho adulto, como uma paciente, algo deu errado, ela diz. Seu centro oferece apoio a pacientes em tal situação. Junto a terapeutas, os pacientes encaram memórias, fotografias e gravações da pessoa morta, além de ter contato com outros enlutados em situação similar.
Darlyn Reardon, da Pensilvânia buscou ajuda em 2011. Depois que seu marido, após 40 anos juntos, morreu de câncer, "foi como se eu também tivesse morrido". Sete anos se passaram e "eu não cuidava mais de mim. Não ia nem ao médico. Nós tínhamos amigos, mas me afastei deles. Me afastei de tudo".
Darlyn, de 72 anos, sempre sentirá falta do marido, John. Mas agora ela consegue assistir um filme, comer com a prima, ficar com seu pug de estimação ou passar um tempo em companhia dos netos.
fonte:aqui

sexta-feira, 13 de maio de 2016

Como os idosos lidam com a morte?

A ideia do fim da vida se torna mais próxima com a idade, o que faz com que eles encarem perdas de forma diferente

ARTIGO DE ESPECIALISTA PUBLICADO EM 30/01/2014
foto especialista
Raquel Baldo Vidigal 
PSICOLOGIA - CRP 79518/SP
ESPECIALISTA MINHA VIDA

Falar sobre perda ou morte é sempre um ponto delicado e muito amplo para todas as idades, além da representação diferenciada que temos sobre ela em cada fase de vida. O medo da morte é sem dúvida um tema que desperta muita curiosidade e talvez seja um dos mais estudados. Mas, nem sempre a ideia de morte é vista com sofrimento ou tabus doloridos. Existem filosofias e hábitos de vidas, pelo mundo, onde a morte é entendida como um processo muito natural e às vezes até mesmo esperada e de certa forma comemorada. Devemos, portanto e com toda certeza, incluir em nossas análises frente a ideia de morte, os processos culturais, o desenvolvimento emocional, religião, família, meio que se vive, bem como o quadro de saúde clinica e saúde financeira (durante a vida da pessoa) para compreendermos de fato as reações frente a morte para cada ser humano, em qualquer idade. 
Falar de morte para idosos nos faz crer que primeiramente devemos entender quem são estes idosos, de onde vem, suas crenças e condições de vida, para depois falarmos de suas reações frente a morte, conforme mencionei acima. A fase idosa é um processo de amadurecimento da vida adulta, onde notamos claramente as mudanças físicas. Mas nem sempre as mudanças internas são percebidas com tanta facilidade. É comum as pessoas se surpreenderem com os idosos e suas capacidades de analisar a vida e entender as realidades, com muito mais consciência e, portanto, facilidade que os adultos mais jovens, mesmo que muitas vezes eles tenham suas limitações clínicas. 

Questão de perspectiva

A finitude de vida, por exemplo, é normalmente melhor encarada e menos sofrida de se compreender pelos idosos, do que por um jovem adulto ou um adulto de meia idade, pois nesta fase anterior de vida ainda enfrentamos uma forte influencia e pressão do padrão social e cultural que devemos seguir e conquistar. Falo aqui das responsabilidades de ser mãe/pai, esposo(a), profissional. Já com o idoso, este processo de reflexão acaba gerando, normalmente, um fechamento destes papéis impostos pelas sociedade. Os idosos acabam se dando conta de não ter mais que seguir estas obrigatoriedades e o medo de não cumprir tarefas ou atender alguém ou algo tende a diminuir muito. 
É bem comum os idosos reagirem com alivio e leveza, com este fechamento de obrigações sociais da vida e se perceberem mais "livres" das pressões. Normalmente estes idosos possuem uma reflexão satisfatória de suas vidas, e por isso tendem apresentar maior facilidade com esta aposentadoria e consequentemente menos receio da morte. Não que eles apresentem menos preocupação, com a morte, mas sim possuem um maior entendimento dela como um processo natural e inevitável de vida. Diferente dos adultos mais jovens e de meia idade que normalmente apresentam maior temor e relutância com esta ideia. 
Uma ideia de boa morte, normalmente está ligada a ideia de uma boa vida, boas construções e não ter pendências / dívidas consigo ou com o com outro. Esta satisfação com a vida permite a aproximação da morte com menos tensão e temor. A religião, as tradições ou filosofias de vida tem forte impacto e podem até mesmo ser determinantes nesta análise sobre si mesmo e sua historia. 
Alguns idosos podem sentir angustias ou aflições, com o fim destas pressões sociais e esta reação é mais comum com idosos que possuem insatisfação com sua historia de vida (sendo dificuldades financeiras ou saúde ou emocional). Estas pessoas tem a tendência a enxergar este período como uma grande angustia e costumam não aceitar muito bem este fechamento, relutando e sofrendo com o processo. A morte para estes idosos, também costumam ter uma reação muito similar de angustia e relutância. 

O outro lado da moeda

Apesar de a morte, muitas vezes, ser entendida como menos tensa pelos idosos, ela possui também uma grande relevância, neste período, visto que sua vida acaba sendo quase toda reorganizada para lidar com esta aproximação da finitude, tanto sua como de seus conhecidos. A morte fica mais clara e passa a ser mais uma das tantas tarefas, de vida, que temos. 
Para os idosos um cônjuge costuma ser um importante aliado, portanto a morte de um deles é sem dúvida o luto mais difícil de ser vivido, principalmente se for inesperada ou repentina. Já quando há um processo de adoecimento, a ideia da possibilidade de perda se torna mais evidente, e a realidade se impõe mostrando a necessidade de se preparar para o fim. Ambos, no casal, precisam se preparar e é comum viverem a ideia de luto em vida como despedida. 
Quando ocorre a morte de um deles, o sofrimento é intenso e deve ser acolhido pacientemente. Não devemos fingir ou negar este sofrimento, nem mesmo agradecer por este fim, visto que a pessoa estava doente ou possuia muita idade, como tantas vezes ouvimos por aí. Não existe palavra que console ou etiqueta a ser seguida, mas atitudes como estas provocam mais angustia em quem já esta sofrendo. O que devemos fazer é ajudar o idoso a passar por este momento, falar e às vezes chorar, sobre aquele que morreu, resgatar as boas lembranças e desta motivação ajuda-lo a se reencontrar em sua vida, agora, sem sua parceria. Atividades e amigos ajudam muitos a seguir adiante. 
É também, comum esperar por certos desejos de que sua morte chegue logo, para se livrar do sofrimento ou para poder ter a chance de reencontrar aquela pessoa querida e necessária em uma pós-vida. Este desejo de morrer, quando se está de luto, aparece mais claramente nos idosos do que em outras fases de vida, visto que eles normalmente já convivem com esta ideia de aproximação do fim, mais que nas outras idades. 
Os homens costumam sofrer mais com a morte da esposa, pois normalmente se apoiam com o passar dos anos em suas mulheres para cuidados, rotinas, passatempos e família. Portanto é mais comum uma reação depressiva intensa nos idosos homens, podendo até mesmo adoecerem. As mulheres também sofrem com a perda de seu parceiro, porém desde muito antes do envelhecer a mulher tende a ter outras fontes de relacionamentos com significados fortes, além do marido, como: seus filhos, netos e amigos e familiares. E estes relacionamentos já existentes parecem ser uma forte justificativa para as mulheres enfrentarem com menos sofrimento a perda do esposo. O mundo demonstra, ainda, ter outros motivos para continuar. Assim podemos entender que quem constrói ao longo da vida uma base social, importante, de relacionamentos parece conseguir passar pelo processo de finitude com menos temor. 
Volto a lembrar que o modo como lidamos com o processo de morte (nosso ou dos próximos a nós) é resultado de nossa estrutura interna, nosso EU. Os padrões para as reações são firmados desde nossa infância e através de todo nosso aprendizado de vida, inclusive na fase idosa. Talvez a vida, vivida, seja um grande aliado para lidarmos com a morte e que nosso entendimento e reação com a morte é similar ao nosso entendimento e reação com nossa vida. 

domingo, 8 de maio de 2016

17 anos que você morreu, Edu. Você vive em mim!


A luz que ilumina
A esperança que dá alento
A casinha que não construímos, na beira do mar que não mergulhamos
Existe aqui
No fundo da minha memória sonhadora
A nossa viagem linda, acontece aqui
Nossos planos,
Brilham no planalto central
Nossas montanhas devidamente caminhadas
Nossas cachoeiras submergidas em amor pleno
Nunca sairão de minhas entranhas
De minhas vísceras
De minhas células
Você vive em mim
E eu brindo ao nosso existir,
Em chama, em luz.
Ilumina, meu beija-flor,
Ilumina.

fonte: Adriana Thomaz
https://adrianathomaz.wordpress.com/2014/07/23/17-anos-que-voce-morreu-edu-voce-vive-em-mim/

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Mães órfãs

fonte: Isto-é

Como viver com a perda dos filhos

Antonio Carlos Prado
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“Eu sempre quis ter outro filho, mas não é um plano para daqui a nove meses”
Ana Carolina, mãe de Isabella
Ser mãe é padecer no paraíso, quanta alegria e celebração à mulher que pode dizer isso – ela é mãe de filho vivo. Mãe de filho morto é mulher que desce ao inferno da dor, do desespero e da depressão. Sua vida, de céu não tem nada, há apenas um quedar-se insone, ansioso e impotente diante de um destino que não pode mudar. Se mães pudessem pressentir a morte inesperada de filhos, em crimes e acidentes, ou salvá-los de morte anunciada por enfermidade que vai se estendendo, simbolicamente tentariam aquilo que é fisiologicamente impossível: pelo mesmo e agora já inexistente cordão umbilical, através do qual os colocaram no mundo, os trariam de volta ao aconchego do útero. Sim, é nele, útero, que a constante dor emocional da morte, quase sempre psicossomatizada, lateja fisicamente. Psicólogos afirmam: “Muitas mulheres, ao perderem suas crianças, sentem pontadas no útero” – útero que já foi preenchido pelo feto, feto que virou filho, filho que virou sepultura. “A dor não passa jamais”, diz Luciana Mazorra, psicóloga clínica e professora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. “Emocional e fisicamente, é como se ela fosse mudando de lugar e machucando a mãe em espaços diversos.” Assim fala a teórica. Assim confirma a mãe enlutada Ana Cristina de Freitas Rocha, que perdeu em São Paulo a sua “querida Tatiana”, vítima de uma broncopneumonia aguda que fez seu abdômen doer numa quinta-feira e seus olhos cerrarem para sempre já no sábado seguinte: “O falecimento de filho é dor que dói na alma e no corpo.” Ana Cristina explica que “não há superação”, mas tão somente adequação de seu dia a dia ao sofrimento.
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Ela trabalha em uma empresa de informática, gerenciando a área comercial, cuida da casa sozinha e atua voluntariamente na Associação Brasileira de Apoio ao Luto. É a essa função que dedica a maior parte de sua energia e tempo, coordenando um grupo de autoajuda e visitando mães enlutadas. Igualmente em outro ponto concordam especialistas em luto materno e mulheres que mirram em seu cotidiano na ausência do ente mais querido: “Às vezes, passase a vida inteira acreditando que o filho não morreu.” Há uma razão para isso, pendulando entre a filosofia e a biologia, essas duas áreas do conhecimento que são, também elas, mães – preciosas mães do entendimento da condição humana: existem na vida dois fenômenos irreversíveis, ou seja, a maternidade e a morte. A mulher é uma mulher e quando dá à luz passa a ser uma mulher-mãe. Se seu filho morre, ainda assim ela continua sendo mãe. Novamente aqui, reforça-se a tese com uma fala dolorida: “Não existe ex-mãe”, diz Maria José Amaral, que chora a falta de sua filhinha, Carolina, morta num acidente de carro na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, às vésperas de um Natal. Hoje ela mora em Brasília, tem um companheiro e escreve livros de contos baseados em experiências como a que ela amargou. Tentou ter outro filho, mas teve de abortá-lo porque o feto apresentava hidrocefalia e agora se resignou: não vai ser mãe novamente.


A DIFICULDADE DE OLHAR NO ESPELHO
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Recentemente, duas mães que perderam seus filhos, crianças inocentes nas mãos de assassinos, tornaram-se involuntariamente símbolos da dor que devasta física e psiquicamente outras tantas mulheres, todas órfãs às avessas, digamos assim, de seus pequenos que partiram. Uma dessas mulheres é Ana Carolina Oliveira, mãe de Isabella, trágica história que a mídia contou exaustivamente. A outra é Rosa Cristina Fernandes Vieites, mãe do garotinho João Hélio, que, preso ao cinto de segurança, mas com o corpinho fora do carro, foi arrastado na rua ao longo de sete quilômetros pelos assaltantes que fugiam com o automóvel de sua mãe. Rosa não dá mais entrevista porque um dos assassinos já se encontra em liberdade no Rio de Janeiro – e só três anos se passaram. Quanto a Ana Carolina, ela declarou em entrevistas que pensa em ter outro filho, projeto que não inclui os próximos nove meses. Teve de mudar de endereço em São Paulo (na garagem de sua ex-residência está instalada uma malharia que pertence a seus pais, segundo uma ex-vizinha), acorda cedo para trabalhar e brinca bastante com os sobrinhos. Ainda no campo da violência, é significativo na dor o sentimento da advogada carioca Zoraide Vidal. A sua filha, Ludmila, que era policial, estava grávida quando foi assaltada, torturada e morta.
Hoje, uma Zoraide essencialmente triste continua advogando e auxilia a polícia em trabalhos comunitários no Morro do Borel. Para todas essas mães a vida muda naquilo que é mais perceptível, ou seja, na rotina, na saúde, no ânimo e nos projetos. Mas muda também, e em doses alucinantes de padecimento, naquilo que é inconsútil, mas se torna marcado para sempre: a alma. “É como se a minha Ludmila estivesse agora eternamente na chuva, desamparada e desprotegida”, diz Zoraide. “E eu preciso protegê-la, acolhê-la. A sua última frase para mim, em vida, foi a seguinte: se eu morrer hoje, só volto para o mundo para ser filha da Zoraide de novo.” Ela prossegue: “Onde está a minha Ludmila para eu abraçar, cuidar, beijar? É como amputar um braço, não se recupera mais. É uma dor que é um buraco que nada preenche.” Falou-se em alma da mulher-mãe, falou-se no desejo impotente de amparar o que já é inerte e assim faz-se necessário voltar-se aqui à teoria do luto. O que é essa alma? Como se dá o processamento da irreversível perda? O projeto de maternidade, bem como a maternidade consumada, é para a mulher uma espécie de “prolongamento de seu ego”, assim ensinou humanidade o criador da psicanálise, Sigmund Freud, e dois de seus mais geniais seguidores – embora tenham rompido com o mestre no andar da carruagem do conhecimento humano – Melanie Klein e Jacques Lacan. Pode-se dizer, mesmo, que “é um ato narcisista da mulher e na criança ela vai projetar a si própria, o que não quer dizer que não a ame profundamente e para sempre”. Assim, quando o filho morre, três dores se sobrepõem. Em primeiro lugar, o “espelho-lago da mitologia de Narciso”, presente em todos nós, se parte e muitas mães órfãs mal conseguem olhar-se de fato num espelho de verdade. “Eu não conseguia no início olhar no espelho, o meu olhar sangrava a minha alma”, diz Ana Cristina. “Fiquei oca.” Em segundo lugar, a morte do filho interrompe toda a perspectiva de futuro que a mãe nele depositara, inclusive o futuro de ver seus genes se fortificarem e se perpetuarem – essa é parte emocional e novamente não tangível, mas contam também os projetos visíveis de vê-lo estudar, viajar, fazer dele uma pessoa e tê-lo como uma grande e constante companhia. Com ele vivo, o mundo é uma escada rolante subindo; se ele morre, nem se pode dizer que essa escada rolante pare. Na verdade, ela desce despencando.


A CULPA POR ESTAR VIVA
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“Ocorre uma inacreditável descontinuidade. Eu perdi meu presente e, sem presente, com a morte da minha filha Tatiana naufragou meu futuro”, diz Ana Cristina. Finalmente, a morte de um filho interrompe o inexorável, mas natural caminhar do tempo: estamos culturalmente preparados para assistir, primeiro, à morte de nossos bisavós, avós e pais – ou seja, daqueles que primeiro chegaram ao mundo. O falecimento do descendente, portanto, interrompe essa ordem estabelecida de vida e morte e a mulher-mãe enlouquece ao triste estilo dos incrédulos que não se cansam de perguntar “por quê?, por quê? por quê?”. “Dá culpa, muito sentimento de culpa”, diz a paulista Eliza Cristina Saravalli, mãe de Tiago, morto num acidente. Em seu caso, também a culpa, como se culpa houvesse, se desdobra em dois planos. “Para esquecer de um namoro terminado, eu o incentivei a dar uma volta no jipe que o matou.” Essa é a culpa concreta, se é que assim pode-se chamá-la. Mas há outra, novamente a da alma, a da ordem natural interrompida de nascimento, crescimento, envelhecimento e morte. Há o desespero que somente a desesperada sabe qual é. “Certa noite, voltando muito tarde de um baile, tirei os sapatos para entrar em casa para que o Tiago não visse a hora que eu estava retornando. Ele acordou e perguntou: mãe, essa cena não está invertida? Não sou eu que tenho de chegar tarde e você cedo?”, lembra Eliza. Agora, no angustiante luto cercado de símbolos, ela atravessa noites a fio se indagando o contrário: “Tiago, essa cena não está invertida? Não sou eu que tenho de estar morta e você vivo?” A despedaçada Eliza prossegue com ela trabalhando como cuidadora de idosos.
Criticada por alguns e apoiada por outros, ela voltou a dançar sempre que pode, atividade que funciona como terapia e entretenimento. Na subversão do tempo dos vivos e dos mortos, quando gente pequena morre antes de gente grande, ou na “traição do tempo”, como às vezes preferem definir essas mulheres enlutadas, já não vale o lugar-comum que repetimos e julgamos toda dor aplacar: “Dê tempo ao tempo que a dor passa.” Não. Para as órfãs de suas proles o tempo estanca e não há lenitivo; e entre aqueles que se especializam em cuidar delas é impossível quantificar um período de luto. “Perder um filho é o maior stress que o ser humano pode passar. Não dá para dizer quanto dura esse luto, ele pode ser eterno”, diz a psicóloga Éster Affini, especializada no atendimento desses casos. Luto eternizado e tempo estancado são vividos por Maria José da Cruz Ferreira. Ela está com 73 anos e sua filha única, Regina, morreu quando tinha 15. Nesse pesaroso intervalo de 37 anos, Maria José conserva o quarto da filha tal qual ele era. Na gaveta da cômoda, cadernos e provas do colégio; no armário, vestidos. “A caminha dela, a cadeira, o violão, os bichinhos de brinquedo, tudo igual”, diz a mãe. A certa altura da vida, se é que dá para falar em vida, Maria José e seu marido, José Roberto Ferreira, chegaram a cogitar um pacto de morte – os dois se suicidariam no mesmo instante. Eles não se mataram porque “nos voltamos para a fé em Deus e em Nossa Senhora, além do trabalho voluntário com jovens”, diz ela.


UM PÁSSARO CHAMADO TICO
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A estrada da religiosidade, na verdade, é trilhada por muitas dessas mães. A mãe de Isabella já declarou que reza muito e volta-se para Deus. A mãe de João Hélio disse certa vez que segue a Igreja Católica e começou a assistir a palestras sobre espiritualidade dadas por psicólogos. A carioca Manoela Toledo, mãe de Luan que morreu de caxumba com 6 anos, primeiro blasfemou à maneira das desesperadas, depois, assegura ela, teve “uma visão de Nossa Senhora, não com os olhos, mas com a mente”. E conta: “Antes de ver a Virgem, eu andava pela casa questionando Deus. A dor emocional era tanta que doía fisicamente. Eu me arrastava, curvada, ficava ajoelhada procurando cabelinhos de meu filho que poderiam estar no chão.” Cada órfã de filho empurra a vida, ou a reinventa em movimentos simples, com o vazio dentro de si. A paulista Luciana Leite, por exemplo, acaba de tatuar três corações no pulso e um pássaro no pé. Quando ela estava no hospital com seu pequeno Lucca, vitimado por doença degenerativa, “um pássaro visitava a gente todo dia e o Lucca chamava-o de Tico.” Luciana está trabalhando na área de comunicação de uma multinacional, voltou a namorar e cuida de seus dois outros filhos. A todas as mães órfãs entrevistadas ISTOÉ perguntou: – Que nome dar a essa dor? As mulheres-mães-órfãs choraram. As mulheres-mães-órfãs responderam: – Essa dor não tem nome.

Colaboraram: Cilene Pereira, Débora Rubin, Mônica Tarantino, Rachel Costa, Verônica Mambrini