Seguidores

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Pais órfãos


Fonte: grupo casulo


Pais órfãos de filho: sobrevive-se a essa dor?
por Regina Wielenska


"... não vale tentar confortar um pai ou mãe enlutados contando-lhes histórias de perdas aparentemente mais trágicas (a família que perdeu três crianças de uma vez só no ônibus escolar que capotou, os gêmeos prematuros que morreram na UTI neonatal, etc. Dor é dor. Ponto final"

Segundo as leis da probabilidade (ou da natureza, dirão alguns), pais morrem antes de seus filhos. Infelizmente, isso não é verdade absoluta. Tão ou mais dramático do que uma mulher morrer no parto é a mãe e o pai perderem seu filho, recém-chegado ao mundo ou “homem feito”, com algumas décadas de vida.
A morte do jovem é a ruptura de paradigmas nos quais aprendemos a acreditar. Violência urbana, acidentes de toda espécie, doenças que ainda não sabemos curar ou a pura falta de assistência digna de saúde, esses são apenas alguns dos motivos que levam jovens ao óbito precoce.

O sofrimento no luto tem tamanho?

Há quem diga que enfrentar uma enfermidade prolongada dolorosamente prepara o espírito dos pais para lidarem com a perda que se avizinha, em contraponto à morte súbita, a qual surpreende, destroça nosso coração, nos deixa sem palavras. Há controvérsias, é provável que se perguntássemos aos pais de ambos os grupos sobre seu sofrimento não conseguiríamos encontrar tantas diferenças ou quantificá-las de modo preciso.
É fato que, como terapeuta, é preciso levar em conta todo o conhecimento científico acerca dos processos de luto nas famílias, e parece mesmo que algumas variáveis agravam ou amenizam o processo de luto nas famílias. Entretanto, isso posto, voltamos ao ponto de partida: cada um sentirá a dor da perda do jeito que as condições lhe permitirem. Não há dor maior ou menor que outra, seja física ou psíquica. Para alguém com problema no dedinho do pé esquerdo, o mundo se transforma num sofrimento, caminhar fica difícil, o problema atrapalha dormir, calçar o sapato é tortura. Outra pessoa tem a articulação do quadril profundamente desgastada pelo tempo, e isso lhe doerá infernalmente, de forma ininterrupta. Tanto quanto o dedinho do outro.

Então não vale tentar confortar um pai ou mãe enlutados contando-lhes histórias de perdas aparentemente mais trágicas (a família que perdeu três crianças de uma vez só no ônibus escolar que capotou, os gêmeos prematuros que morreram na UTI neonatal, etc.). Dor é dor. Ponto final. Nunca conseguiremos sentir com precisão tudo que atravessa a mente e o coração dos pais que vivenciam a perda. Resta-nos respeitar, acolher e apoiar.

Viver fugindo da dor? É possível viver com a dor da perda?

Na contemporaneidade a morte tornou-se um produto a ser disfarçado (a morte é companheira de tudo que a cultura nos instrui a evitar: doença, dor, perda, velhice), e muito rapidamente buscamos nos despedir de quem morre e nos afastamos da família enlutada. O nome do jovem morto entra no limbo, quem ousaria citar seu nome e relembrar aos pais do ocorrido? Cria-se uma espécie de pacto do silêncio, os enlutados precisarão fingir que estão bem e os demais, sem muita clareza, supõem que todos estão levando a vida da melhor forma, a caminho da recuperação. Nem sempre é assim.

A maioria dos que “escolherem” fingir que a dor não se faz presente, para si e para os outros, vive como se fosse presa de um caçador implacável. Se não chorar não é o que se espera de mim, soltarei meu pranto em doses homeopáticas na hora do chuveiro. Arranjo desculpas para não frequentar ambientes sociais festivos, digo que já tenho outro compromisso, até que um dia desistam de me convidar. O álcool ou os tranquilizantes podem se tornar substância de abuso. Filmes tristes, livros, noticiários, novelas e conversas, qualquer dessas coisas pode evocar lembranças e emoções difíceis. Na verdade, não há como fugir da dor. E nem se deve.

Fazer o que, então? Entregar-se ao desespero? Deixar-se morrer devagar? Forçar o enlutado a viver, sabe-se Deus como? Primeiro aspecto a se considerar: a maioria dos processos de luto chega a uma resolução saudável num período entre seis meses e um ano. Carinho, comunicação aberta, tolerância ao sofrimento alheio, incentivo suave para se retomar gradualmente a vida (inserindo a morte neste panorama, e honrando a estrada que os pais trilharam junto com o filho que partiu) são recursos suficientes para auxiliar algumas famílias.

No entanto, outros pais precisarão de cuidados intensivos, mais específicos. Afinal, no ranking dos eventos estressores, capazes de abalar seriamente um ser humano, a morte de ente querido ocupa lugar de destaque. E estressores dessa magnitude favorecem que problemas de saúde surjam, ou se agravem. Por exemplo, embora tristeza seja normal, a situação de luto não elaborado pode evoluir para depressão. E por ser uma condição clínica, é tratável por meio de psico e fármaco terapia.

Nenhum tratamento afasta a dor da perda, mas facilita ao indivíduo a lutar pela sua recuperação. Que luta é essa? Pessoas, quando bem sucedidas no exercício de suas funções parentais, são pessoas amorosas, que se dispõe a cultivar naquela semente de vida (que escolheram gerar ou adotar), o potencial da dignidade, honradez, sabedoria, bondade, grandeza nos atos e nas intenções. Filhos aprendem por exemplos, daí a importância dos pais serem consistentes, coerentes em suas palavras e ações. Quando o filho se vai, talvez seja hora de continuar celebrando os valores nobres que procuramos incutir em nossos filhos. Em memória da criança ou jovem morto, vamos viver plenamente, abrindo espaço para toda oportunidade de alegria e dor.

Um sentimento não anula o outro, afinal a vida é um mix de sentimentos, desejos, realizações e anseios. Se nosso filho estivesse vivo e nos procurasse em busca de conforto na adversidade, o que diríamos a ele, do fundo de nosso coração? “Filho querido, calma. A vida tem dessas coisas, mas lá na frente a luz vai voltar. Não desista, busque outros caminhos, olhe o que de bom você já conquistou, conte comigo”. Se essas palavras teriam sido ditas fundamentadas numa convicção pessoal firme, é hora do pai enlutado dizer algo similar a si próprio: “Meu coração dói demais agora, mas eu sei que lá na frente haverá algum mel nos meus lábios, luz nos meus olhos, esperança no coração. Resta-me descobrir como. Darei uma chance à vida, homenagearei meu filho permanecendo na luta em meio a esse mundo tão estranho e complexo no qual construí uma família”.



sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Luto no processo de envelhecimento: é possível superar as perdas?


Postado por: ABG - Associação Brasileira de Gerontologia 

Estamos sujeitos a enfrentar diversas perdas durante a vida: o fim das relações de trabalho em decorrência da aposentadoria; a diminuição da acuidade visual e auditiva; a morte de amigos e companheiros. Essas situações podem desencadear o processo de luto que foi dividido em quatro fases pelo estudioso John Bowlby:
1) Fase de entorpecimento – dura de algumas horas a uma semana, onde os sentimentos predominantes são: a raiva, a tensão e a apreensão.
2) Fase de anseio e busca pela figura perdida- a pessoa começa a vivenciar a realidade da perda. São frequentes o desânimo intenso, aflição e choros, ao mesmo tempo podem surgir inquietação, explosões de raiva, insônia.
3) Fase de desorganização e desespero – nessa etapa a pessoa tenta se ajustar à perda.
4) Fase de maior ou menor grau de reorganização- se houver elaboração positiva do luto inicia-se a aceitação de que a perda é permanente e que é o momento de reconstruir a vida.
Entretanto, a sequência, duração e enfrentamento dessas fases podem variar para cada indivíduo. Por exemplo, uma mulher que acaba de receber a notícia de que seu marido faleceu vivencia diretamente a fase de anseio e busca pela figura perdida (segunda etapa) ao invés de enfrentar a fase de entorpecimento que é elencada como a primeira etapa.
Sensações físicas, muitas vezes, sentidas após a perda
Vazio no estômago, aperto no peito, nó na garganta, hipersensibilidade ao barulho, sensação de despersonalização, falta de ar (respiração curta), fraqueza muscular, falta de energia e boca seca.
Comportamentos que podem ser comuns após a perda
Distúrbios de sono, distúrbios do apetite, comportamento aéreo, isolamento social, sonhos com a pessoa que morreu, evitar lembranças do falecido, procurar e chamar pela pessoa, suspiros, hiperatividade, choro, visitar lugares e carregar objetos que lembrem o falecido.
Quanto tempo dura o luto?
Após a morte de alguém que prezamos, muitas vezes, nos perguntamos quanto tempo esse período de luto irá durar. Não existe uma resposta conclusiva e é impossível definir uma data precisa para o processo de luto, mas quando perdemos uma pessoa próxima é improvável levar menos de um ano e para muitos casos dois anos ou até mais. Além disso, a cada estação, feriado, datas comemorativas, como o aniversário da pessoa que faleceu, há o reaparecimento do sentimento de perda. A duração também depende de alguns fatores:
- Qualidade da relação – se havia um companheirismo, cumplicidade e convivência muito grande com a pessoa que faleceu pode ser que demore mais se compararmos a outra com quem nossa relação não era tão estreita.
- Maneira como ocorreu a morte – existem mortes repentinas, como acidentes de carro, assassinatos, e outras, como o câncer em estágio terminal em que a morte é anunciada.
O que pode ajudar a superar o luto?
O sentimento de perda traz consigo muito sofrimento, por isso é muito importante procurar ajuda para enfrentar esse período e evitar o luto complicado. Seguem alguns recursos que podem auxiliar na superação do luto:
- Rede de suporte social – no período de luto é importante o apoio de pessoas com quem o enlutado possa partilhar o sofrimento.
- Descobrir novos potenciais e reencontrar o sentido na vida.
- Núcleos de convivência e Universidades Abertas para a Terceira Idade – a participação nesses tipos de serviços voltados aos idosos contribui para um maior contato com outras pessoas e melhora do bem-estar psicológico.
- Psicoterapia de luto – possibilita alívio do sofrimento; adaptação à nova situação; elevação ou auto regulação da autoestima; consideração de projetos para o futuro.
- Grupos de apoio para enlutados- o objetivo desses grupos é oferecer apoio e facilitar a elaboração do luto.
- Religiosidade ou desenvolvimento da Espiritualidade.
“A morte não é a maior perda da vida. A maior perda da vida é o que morre dentro de nós enquanto vivemos.” Pablo Picasso.
Texto por Milena Yuri Suzuki – Gerontóloga pela USP e diretora de Suporte à Profissão da Associação Brasileira de Gerontologia.

O PROCESSO DE LUTO



Luto pode ser definido como um conjunto de reações diante de uma perda, portanto algo a não ser desprezado, e sim, devidamente valorizado e acompanhado, como parte da saúde emocional. O luto é “afinal o acontecimento vital mais grave que a maior parte de nós pode experienciar” (Parkes, 1998, p. 44). Sua dor é tanto parte da vida quanto a alegria de viver; é talvez, o preço que pagamos pelo amor, o preço do compromisso” (Parkes, 1998, p. 22). Não obstante, cumpre considerar que o luto “não é um conjunto de sintomas que tem início após uma perda e, depois gradualmente se desvanece. Envolve uma sucessão de quadros clínicos que se mesclam e se substituem” (Parkes, 1998, p. 23). Podemos tomar como conceito bem adequado o de que “o luto é um processo de aperceber-se, de tornar real o fato da perda” (Parkes, 1998, p. 199).
Desde milênios vemos presentes os rituais, os quais sempre tiveram a finalidade de servir como uma forma de proteção no conflito vida x morte.
Podemos ver no luto vários simbolismos, um dos quais é a cor. Para algumas sociedades, o branco, o amarelo e o violeta caracterizam a fase; para outras, como a nossa, é o preto que facilita o reconhecimento da perda. Outro simbolismo clássico em nossa sociedade predominantemente católica é o ato religioso, mais comumente representado pela missa de corpo presente e a de sétimo dia.
O luto é a fase da expressão dos sentimentos decorrentes da perda, a qual se demonstra por choque, desejo, desorganização e organização; é a fase de aprender que a morte deve ser tornada real, a partir do que se torna possível estabelecer novas concepções sobre o mundo, favorecendo investimentos pessoais.
A fase do choque pode durar horas ou dias, constituindo-se de desespero, raiva, irritabilidade, amargura e isolamento. Tais sentimentos podem se manifestar por atitudes emocionais intensas e passam a ser expressos contra todo aquele que venha a compartilhar o luto, como uma manifestação de defesa, pois a aceitação desses sentimentos reafirma a perda.
A fase do desejo é caracterizada por um forte impulso de busca pela figura perdida. Nela ocorre um estado de vigília, de movimentação para os locais onde a pessoa normalmente estaria, e mesmo de chamamento, como formas de descaracterizar a perda, pois se ela é procurada, ela não morreu. Essa fase pode durar anos ou meses, sendo comuns os desapontamentos por sua não-efetividade, com
episódios de choro e de tristeza quando da constatação da sua inutilidade.
Nesta fase da busca e do desejo se misturam a desorganização e o desespero, pois esta perda traz consigo outras secundárias, cuja intensidade dependerá das características da personalidade e das experiências prévias do enlutado e do apoio recebido por parte da sociedade e da família.
A fase de reorganização, quando há reapropriação de parte da energia do investimento objetal ao ego, caracteriza-se pela aceitação da perda definitiva e pela conseqüente constatação de que uma nova vida precisa ser iniciada. No entanto, é possível ocorrer recidiva de episódios de saudade e de tristeza.
Uma forma de abrandar o luto é manter a sensação de que a pessoa está por perto e criar uma idealização através do reviver de lembranças felizes. Podem ser, neste caso, bem-vindos os tributos ao falecido, pois isto representa que este é merecedor da dor dos sobreviventes.
O luto, como não é um processo linear, não tem data para terminar, podendo durar meses e anos, ou mesmo nunca acabar, na dependência direta das características individuais da personalidade e ainda do nível e intensidade de relação que se manteve com o falecido.
Não há uma clara e estática definição para os tipos de luto. Normalmente ele é considerado patológico quando é por demais prolongado e apresenta características obsessivas.
No luto bem-elaborado, gradualmente tem-se o desinvestimento, da libido objetal e reapropriação da libido egóica, o que, no entanto, não ocorre na melancolia, pois o objeto não pode ser renunciado e o investimento objetal continua e pode até ser mais intenso, não permitindo então a retirada dessa energia para ser reapropriada ao ego. No luto mal-elaborado podem surgir os quadros melancólicos: enquanto o luto representa a perda real, a melancolia representa o inconsciente, relacionado ao objeto perdido, quando não se sabe verdadeiramente o que se perdeu.
O processo de luto mostra-se organizado e é conscientemente aceito quando a morte foi tomada como real e o enlutado apresenta disponibilidade para novos investimentos em sua vida, podendo assim manter vivos os sentimentos em relação ao falecido, a que se alia a recuperação da auto-estima e da valorização do ego. 


João Batista Alves de Oliveira* Ruth Gelehrter da Costa Lopes

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Leitura Recomendada: SAUDADE `A SOMBRA DE UM IPÊ

             Na vida, existem encontros que independem de um contato físico, da presença, para que uma sintonia fina nos envolva com determinadas pessoas.
            Assim parece ter sido com a querida Maria Eliete, lá de São José do Rio Preto, que desde seu primeiro contato já mostrou ser uma pessoa especial, daquelas que nos surgem pelo caminho como que vindas para acrescentar serenidade e mensagem de esperança para tantas pessoas.
           E eis que no dia 29 de janeiro a Maria Eliete me surpreende ainda mais, desta vez com uma lembrança especialmente tocante: trata-se de seu livro “Saudade à sombra de um ipê”.
             Elogiar o estilo, o modo como Eliete nos envolve na bela trama de sua obra, obviamente pode parecer suspeito, vindo de mim, mas qualquer pessoa sensível se emocionará com a experiência de Anna e Miriam. E quantos de nós, ainda, não se identificarão com as descobertas daquela amizade?
            Bom, acho que não vou ficar aguçando a curiosidade de vocês. O melhor mesmo é aproveitar o que “Saudade à sombra de um ipê” pode nos proporcionar.
             Eliete, obrigada por esse presente tão especial que veio com a seguinte dedicatória:

"Para Dona Zelinda, 
Que iniciou esse trabalho de consolação em meu coração.
Deus te abençoe, fortaleça e console para sempre, até o dia que abraçará o seu querido neto na eternidade."

De Maria Eliete Gomes



Maria Eliete Gomes Mora em São José dos Campos/SP. Atua como voluntária em um grupo de pais e mães que perderam os seus filhos - 'FILHOS NO CÉU".
Através de seu grande conhecimento acompanhando vários casos, teve inspiração de criar essa fábula onde tenta transmitir um pouco de paz, fé e esperança para quem passa por essa dor.