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quinta-feira, 30 de junho de 2011

É preciso expressar os sentimentos


O psiquiatra inglês Colin Murray Parkes se dedica a estudar as questões que envolvem o luto desde os anos 50. Para ele, a morte e o luto são eventos que mudam a vida, e a perda faz parte desse processo. Não há dúvida de que o luto é a experiência psicológica mais dolorosa que qualquer pessoa irá viver. O luto é um preço que temos de pagar. Algumas pessoas acham seu luto tão doloroso que ficam com medo de amar novamente. Mas o preço vale a pena, disse o psiquiatra em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo. 
Penso que o importante é ajudar as pessoas a saber que realmente não podem se preparar para um desastre. Os maiores problemas aparecem após os desastres porque ninguém está preparado para eles. Embora todo hospital tenha um plano para acidentes, muito poucos incluem serviços psicológicos ou apoio para enlutados o que nos desastres modernos freqüentemente é a única coisa necessária. Quando um avião cai, não há sobreviventes, não há ninguém para resgatar. Trata-se apenas de recuperar os corpos e prover apoio para as famílias. 
Nós não dizemos: O que quer que a pessoa sinta tem que ser colocado para fora, e isso será terapêutico. 
Você não pode evitar que os pássaros da tristeza voem sobre sua cabeça, mas pode evitar que eles construam ninhos em seus cabelos." (provérbio chinês). 
O luto pela perda de uma pessoa amada é a experiência mais universal e, ao mesmo tempo, mais desorganizadora e assustadora que vive o ser humano. O sentido dado à vida é repensado, as relações são refeitas a partir de uma avaliação de seu significado, a identidade pessoal se transforma. Nada mais é como costumava ser. E ainda assim há vida no luto, há esperança de transformação, de recomeço. Porque há um tempo de chegar e um tempo de partir, a vida e feita de pequenos e grandes lutos e o ser humano se dá conta de sua condição de ser mortal, porque é humano. 
Maria Helena P. Franco

terça-feira, 28 de junho de 2011


Observe A Natureza
"Observe a natureza, tudo nela é recomeço. No lugar da poda surgem os brotos novos. Com a água, a planta viceja novamente (renasce). Nada pára. A própria terra se veste diferentemente todas as manhãs. Isso acontece também conosco. A ferida cicatriza, as dores desaparecem, a doença é vencida pela saúde, a calma vem após o nervosismo. O descanso restitui as forças. Recomece. Anime-se. Se preciso, faça tudo novamente." Assim, é a VIDA!"
Autor: ( Desconhecido )

quinta-feira, 23 de junho de 2011



"PAI, COMEÇA O COMEÇO!"

Quando eu era criança e pegava uma tangerina para descascar, corria para meu pai e pedia: - "pai, começa o começo!". O que eu queria era que ele fizesse o primeiro rasgo na casca, o mais difícil e resistente para as minhas pequenas mãos. Depois, sorridente, ele sempre acabava descascando toda a fruta para mim. Mas, outras vezes, eu mesmo tirava o restante da casca a partir daquele primeiro rasgo providencial que ele havia feito.
Meu pai faleceu há muito tempo (e há anos, muitos, aliás) não sou mais criança. Mesmo assim, sinto grande desejo de tê-lo ainda ao meu lado para, pelo menos, "começar o começo" de tantas cascas duras que encontro pelo caminho. Hoje, minhas "tangerinas" são outras. Preciso "descascar" as dificuldades do trabalho, os obstáculos dos relacionamentos com amigos, os problemas no núcleo familiar, o esforço diário que é a construção do casamento, os retoques e pinceladas de sabedoria na imensa arte de viabilizar filhos realizados e felizes, ou então, o enfrentamento sempre tão difícil de doenças, perdas, traumas, separações, mortes, dificuldades financeiras e, até mesmo, as dúvidas e conflitos que nos afligem diante de decisões e desafios.
Em certas ocasiões, minhas tangerinas transformam-se em enormes abacaxis......
Lembro-me, então, que a segurança de ser atendido pelo papai quando lhe pedia para "começar o começo" era o que me dava a certeza que conseguiria chegar até ao último pedacinho da casca e saborear a fruta. O carinho e a atenção que eu recebia do meu pai me levaram a pedir ajuda a Deus, meu Pai do Céu, que nunca morre e sempre está ao meu lado. Meu pai terreno me ensinou que Deus, o Pai do Céu, é eterno e que Seu amor é a garantia das nossas vitórias.
Quando a vida parecer muito grossa e difícil, como a casca de uma tangerina para as mãos frágeis de uma criança, lembre-se de pedir a Deus:
"Pai, começa o começo!". Ele não só "começará o começo", mas resolverá toda a situação para você.
Não sei que tipo de dificuldade eu e você estamos enfrentando ou encontraremos pela frente. Sei apenas que vou me garantir no Amor Eterno de Deus para pedir, sempre que for preciso: "Pai, começa o começo!".

Nota: artigo circulando na internet, sem identificação de autoria

segunda-feira, 20 de junho de 2011

VISITA AOS AMIGOS SOLIDÁRIOS DO RIO DE JANEIRO

Querida, Márcia:
Não temos palavras para agradecer a Deus por essa viagem tão maravilhosa e tão gratificante. Nada acontece por acaso você precisou passar por essa dor tão profunda, a dor do luto, para procurar ajuda e foi encaminhada pelo Divino Espírito Santo, para procurar aquele Site com a entrevista, que eu tinha feito há quase 5 anos.Nada é por acaso,você foi escolhida porque tem um coração puro,  uma Fé grandiosa e um amor muito grande para com o próximo.
Adoramos te conhecer pessoalmente, teu marido aquele companheiro tão especial te apoiando e dando aquela força, isso se chama uma família abençoada por Deus.
Márcia, os melhores perfumes se encontram nos menores frascos, tenho certeza que esse grupo vai ajudar muitas pessoas a sobreviver, ter mais ânimo para enfrentar as lutas do dia a dia e voltar a  ter ânimo para a vida, nunca será como era antes mas precisamos pensar que ficaram outras pessoas que nos cercam e nos rodeiam que precisam de nós inteiras. Uma foi, mas quantas ficaram? Ninguém quer pessoas pela metade ao nosso lado. Essa viagem foi um aprendizado, uma reflexão para o grupo que participou e o que foi mais gratificante para mim foi ouvir de uma mãezinha  especial . Disse ela que   pensou que na sua vida depois da morte da sua filha querida, a Leila, nunca mais teria um dia feliz como ela teve aí..
Pedimos benções de Deus para você e suas companheiras a fim de conduzirem as reuniões do grupo com muito amor no coração e que possam retornar para seus lares levando um pouco dessa energia e aprendizado.






Com carinho Zelinda e as colaboradoras do Grupo amigos Solidários na Dor do Luto

Márcia ASDL do RJ e Zelinda ASDL de Curitiba
                               
Reunião dos Amigos no RJ
                                      
                   
ADSL de Curitiba
Márcia, Zelinda e Sueli
                                                                      


terça-feira, 14 de junho de 2011


Faxina na Alma
Paulo Roberto Gaefke 


Não importa onde você parou…
em que momento da vida você cansou…
o que importa é que sempre é possível e
necessário “Recomeçar”.

Recomeçar é dar uma nova chance a si mesmo…
é renovar as esperanças na vida e o mais importante…
acreditar em você de novo.
Sofreu muito nesse período?
foi aprendizado…
Chorou muito?
foi limpeza da alma…

Ficou com raiva das pessoas?
foi para perdoá-las um dia…

Sentiu-se só por diversas vezes?
é porque fechaste a porta até para os anjos…
Acreditou que tudo estava perdido?
era o início da tua melhora…
Pois é…agora é hora de reiniciar…de pensar na luz…
de encontrar prazer nas coisas simples de novo.
Que tal
Um corte de cabelo arrojado…diferente?
Um novo curso…ou aquele velho desejo de aprender a
pintar…desenhar…dominar o computador…
ou qualquer outra coisa…

Olha quanto desafio…quanta coisa nova nesse mundão de meu Deus te
esperando.

Tá se sentindo sozinho?
besteira…tem tanta gente que você afastou com o
seu “período de isolamento”…
tem tanta gente esperando apenas um sorriso teu
para “chegar” perto de você.

Quando nos trancamos na tristeza…
nem nós mesmos nos suportamos…
ficamos horríveis…
o mal humor vai comendo nosso fígado…
até a boca fica amarga.
Recomeçar…hoje é um bom dia para começar novos
desafios.
Onde você quer chegar? ir alto…sonhe alto… queira o
melhor do melhor… queira coisas boas para a vida… pensando assim
trazemos prá nós aquilo que desejamos… se pensamos pequeno…
coisas pequenas teremos…
já se desejarmos fortemente o melhor e principalmente
lutarmos pelo melhor…
o melhor vai se instalar na nossa vida.
E é hoje o dia da faxina mental…
joga fora tudo que te prende ao passado… ao mundinho
de coisas tristes…
fotos…peças de roupa, papel de bala…ingressos de
cinema, bilhetes de viagens… e toda aquela tranqueira que guardamos
quando nos julgamos apaixonados… jogue tudo fora… mas principalmente… esvazie seu coração… fique pronto para a vida… para um novo amor… Lembre-se somos apaixonáveis… somos sempre capazes de amar muitas e muitas vezes… afinal de contas… Nós somos o “Amor”…
” Porque sou do tamanho daquilo que vejo, e não do
tamanho da minha altura.”

O que nos aconteceu, jamais esqueceremos, estará gravado em nossa memória para sempre, mas acho que podemos tentar recomeçar.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

VISITA AOS AMIGOS SOLIDÁRIOS DO RIO DE JANEIRO

Hoje nós do Grupo Amigos Solidários estamos viajando para o Rio de Janeiro, para conhecer o Grupo Amigos que lá foi fundado por Márcia Torres e que teve sua primeira reunião no dia 25 de abril.
Estamos muito FELIZES em fazer esse ENCONTRO SOLIDÁRIO!!!

Grupo Amigos Solidários em reportagem na Revista TOP VIEW

Top View edição de MAIO


Saímos na Matéria: Quando elas se unem


Amor de mãe pode tudo e não conhece limites. Imagine, então, o que acontece quando elas se unem e lutam por uma causa.

SUPERAR SEM ESQUECER


O GRUPO: Amigos Solidários na Dor do Luto

A CAUSA: Apoiar as pessoas que estão vivenciando a dor de ter perdido alguém.

A HISTÓRIA: Surgiu em 1998 com Rosana Figurelli, que havia perdido o filho Carlos, de 18 anos. Precisando de apoio, foi á procura de algum grupo assim, que ela sabia existir no exterior, e descobriu que não havia nada parecido em Curitiba. Decidiu fundá-lo e dedicou-o à Nossa Senhora das Dores. A atual coordenadora, Zelinda De Bona, foi procurar apoio quando perdeu o neto, de 14 anos. "Fui convidada pela Rosana para coordenar o grupo, pois ela deixou a cidade, e hoje dedico uma grande parte do meu tempo a acolher, ouvir e ajudar essas pessoas, em sua maioria mães."

AS VITÓRIAS: "Gostaria de estar todas as segundas-feiras com a porta aberta e que nenhuma mãe aparecesse, quem ali entra é portador da maior dor que um ser humano pode sentir", diz Zelinda. Infelizmente sempre aparecem novas, precisando de ajuda. "O luto compartilhado é amenizado. Para nós, é uma vitória quando vemos aquela mãe ajudando, confortando, dando carinho para as outras que estão chegando pela primeira vez."

OS PLANOS: "Pretendemos cada dia ser mais solidárias com essas mães, porque elas precisam falar e contar a sua história, pois os parentes, amigos e familiares não tem paciência para escutá-las e o grupo está lá para acolhê-las." Além das mães, o grupo dispõe de psicológos e pessoas capacitadas para ajudar.


AMIGOS SOLIDÁRIOS NA DOR DO LUTO: Reuniões segundas-feiras na ala de Psicologia na Universidade Federal do Paraná (Praça Santos Andrade), sala 118, às 14:30. Tel.: 3252 5016.
www.amigossolidariosnoluto.blogspot.com

"QUANDO AS MÃES SE UNEM, SÃO COM SEQUOIAS, ELAS SE APOIAM, UMA SEGURANDO E APOIANDO AS OUTRAS DAS TEMPESTADES E FURACÕES QUE CHEGAM INESPERADAMENTE."
Zelinda De Bona

quinta-feira, 9 de junho de 2011


"Entendi melhor a morte", diz Cissa Guimarães sobre a terapia do luto; entenda o tratamento

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Cissa Guimarães, atriz que optou pela terapia do luto após perder o filho no ano passado

"A terapia do luto foi fundamental para que eu conseguisse sobreviver à maior dor de um ser humano", diz a atriz Cissa Guimarães, em entrevista exclusiva ao UOL Comportamento, se referindo ao filho Rafael Mascarenhas, que morreu atropelado aos 18 anos, em julho de 2010. "Consegui isso com a ajuda terapêutica de Adriana Thomaz. Com ela, entendi melhor a morte, como fazer a conexão com o amor do meu filho e como reaprender a viver."

A terapeuta Adriana Thomaz define a terapia do luto como o cuidado oferecido a uma pessoa que sofreu uma perda significativa. "O luto é uma fase de transição. Essa terapia, portanto, é uma abordagem comportamental, breve e focal, centrada na pessoa e que dá novo significado à sua vida”, explica ela , que é médica, trabalha na área há mais de dez anos e é a profissional que cuida de Cissa.
Quando iniciada logo após à morte, a terapia do luto é, também, um tipo de aconselhamento para as tarefas básicas, como tomar a decisão de ir ou não ao velório, de ver ou não o corpo, levar as crianças ao enterro (e o que dizer a elas), se será positivo participar de rituais religiosos, voltar ou não para casa e o que fazer com os pertences do ente querido...

"A terapia facilita o reconhecimento dessas tarefas, que não podem ser evitadas ou apressadas, permitindo que o enlutado se organize para elaborar a perda, assim como estabeleça sua rede de apoio e busque sua espiritualidade -religiosa ou não”. Além desse acompanhamento inicial, consultas auxiliam a enxergar a realidade e encarar a vida.

Adriana passou a atender Cissa Guimarães cerca de três dias após a morte de Rafael. "Em primeiro lugar, tive que detectar os instrumentos que eram mais importantes para ela, que a faziam continuar a ter vontade de viver. Percebi que o trabalho como atriz era vital, assim como o carinho do público", conta a especialista. "Cada caso é um caso, mas, no geral, a abordagem é procurar o que dá sentido àquela vida e tentar reerguer a pessoa", explica.

Cissa Guimarães diz que acha que esse tipo de acompanhamento é de extrema importância para quem passa por perdas graves. "Nosso mundo ocidental lida muito mal com a morte. Precisamos aprender a aceitá-la e transmutar esta dor em força. E é exatamente isso que a terapia do luto nos ensina."
O empresário carioca Fernando Malheiros, de 71 anos, conta que sua mulher, Vera, faleceu em 25 de julho de 2009, depois de 43 anos de casamento. “Eu iniciei o tratamento depois de um ano da perda da minha mulher e posso afirmar que, em três meses de terapia, me tornei outra pessoa. Acho que todos que passam por um trauma como esse deveriam procurar uma ajuda do tipo. Em vez de sofrer a ausência da Vera, passei a sentir sua presença constante e é isso que me fortalece."
Sem medo
Segundo Adriana, uma das vantagens da terapia do luto é que o paciente tem um espaço seguro para expressar sua tristeza, sua revolta ou qualquer tipo de sentimento e pensamento sobre a morte, sem receios. O paciente pode chorar, se abrir, deixar de lado o medo de desestruturar os familiares, magoar entes queridos, assustar os filhos e não se preocupa se deve ou não demonstrar suas fraquezas.
"A terapia reassegura ao enlutado que ele não está ficando louco por estar experimentando sentimentos novos, desconhecidos e até contraditórios", resume Adriana, que exemplifica: "Uma viúva que perde o marido, que apresentava demência há anos, fica confusa por se sentir aliviada com sua morte, apesar de profundamente triste". E ela conclui que, no processo, há a preocupação em explicar que cada um tem sua maneira de expressar o luto e não existe certo e errado.

O tratamento

Um paciente da terapia do luto precisa de acompanhamento que varia, geralmente, de três a seis meses. No início do tratamento, o indicado é visitar o profissional duas vezes por semana. Conforme o progresso do paciente, as sessões se tornam semanais e, posteriormente, quinzenais -até que o paciente receba alta. De acordo com a terapeuta Adriana Thomaz, ainda existem poucos especialistas em luto no Brasil (e a maioria atua na capital paulista). Quem sofreu uma perda pode recorrer a outros especialistas. Adriana orienta, porém, que é importante esclarecer o objetivo do tratamento ao médico ou psicólogo e perguntar se ele está apto para fazer esse tipo de acompanhamento.

 RENATA RODE 
Colaboração para o UOL

terça-feira, 7 de junho de 2011



RESIGNIFICANDO A PERDA 


É bem difícil quando se está em crise lembrar de nossas concepções de vida e combater nossos pensamentos sabotadores. Apesar de ser nestas horas que mais precisamos conseguir. Estou assim, tentando usar toda a minha capacidade de reestruturação cognitiva e emotiva em prol de ficar bem. Eu bem poderia deixar minha hiper sensibilidade aflorar pelos meus olhos, através de lágrimas infinitas. Tamanha dor e saudades de tudo que já foi, de tudo que poderia ser, de tudo que desejei que fosse, poderia deixar esta lástima me corroer, me massacrar. 

Já quis apagar da memória esta dor e só lembrar de tudo de bom que ficou, já quis voltar a ser criança e não mais ter esta consciência da perda, já quis voltar no tempo achando que assim poderia adiar o fim, já quis fugir, mas o que me ajudou mesmo foi utilizar esta perda em prol de um crescimento pessoal. 
Mas prefiro optar em usar minha capacidade de superação e mergulhar nos significados e sentidos que eu puder extrair de tudo isso. Prefiro acreditar que nada é em vão, se podemos usar de nosso coração, não só pra sofrer o luto impossível de não ser sofrido, mas também para dar novas dimensões, reflexões e interpretações aos fatos, as nossas relações e a vida em si. 

Mas não se engane, é inevitável se entrar em contato com aquela desorientação e desorganização psíquica esperada para uma perda, ainda mais nestas proporções, ainda mais com todas as transferências e projeções feitas. Ninguém é toda fortaleza e sabedoria, as coisas coexistem, há vertigem, há desespero, há tristeza, há angústia, incrédula permaneço, mas não deixo com que esta dor me cristalize, me hipnotize. 
E eu sei que por tudo ter sido tão intenso e verdadeiro, que isso ainda fará parte de mim por muito tempo, apesar de preferir ser otimista e esperar me surpreender, como tenho me surpreendido comigo. Por tanto, se há algo que ainda acredito é o que tem a ver com minha concepção de vida e que me leva a uma vivência mais adaptativa, é a necessidade de transformar tudo em útil, é a necessidade de buscar uma compreensão e um conforto maior através das palavras. 

Algumas perdas são realmente necessárias, há quem leia isto e se recuse a ver aproveitamento na perda, tamanha dificuldade de ver outras perspectivas, outras possibilidades de lidar com a dor, tamanha visão dela como um monstro assustador. Eu por muito tempo encarei a perda desta maneira, afinal, algumas problematizações fogem às nossas possibilidades, principalmente quando se é muito nova e sem muitas experiências de vida, mas a vida ensina. 

Ninguém disse que seria fácil, mas todos dizem que passa. E porque será que sofremos tanto com a perda? Simplesmente porque temos a tendência a querer permanecer na zona de conforto, temos muito receio do novo, do desconhecido, do nunca antes sentido. Afinal, mudar requer força, muitas vezes sacrifício, coragem e muito trabalho. 

Prefiro assim, encarar as perdas não só como a morte de algo ou alguém, mas também como o nascimento de um novo ciclo, duma nova fase, duma nova aurora, outrora camuflada, que jamais poderia ser acessada se a perda não tivesse se dado. Por mais que a perda doa, ela pertence ao próprio ciclo da vida, é a lei da transitoriedade, onde a perda já não é mais vista sob a lei do sacrifício, e sim como parte de um processo de mudança, que faz parte do próprio ciclo vital e sem a qual a vida perderia seu movimento, sua dinâmica natural. 

E é me dedicando a estes e outros pensamentos que caminho reflexiva, buscando analisar e traçar novos possíveis sentidos e caminhos disponíveis ou passíveis de serem construídos em minha vida. 

(do blog de Kalyne Henriques) 

sexta-feira, 3 de junho de 2011


Enfrentando o luto

Como a vida é delicada, frágil!... os segundos que se substituem não se repetem e o instante que vem pode transformar toda uma história em pedaços de lágrimas, onde o chão parece desaparecer sob os pés e o coração fica tão dolorido que parece que nunca vai encontrar remédio para curar-se.
Ninguém gosta de falar sobre perdas, alguns evitam até  pensar, mas todos temos que, um dia ou outro, enfrentar.
Quando pensamos na vida, não queremos pensar nas possibilidades das perdas, que nos fazem sofrer antecipada e inutilmente.
Mas se a vida é um caminho onde subimos e descemos, é também um campo onde plantamos, colhemos e onde  certas flores são carregadas tão repentinamente que nos pegam desprevenidos.  E quando isso acontece, que fazer mais que abraçar a dor e esperar que os dias seguintes nos façam acordar desse pedadelo?
Viver o luto é aceitar a dor e a partida e aprender a continuar a viver. Talvez seja justamente isso o mais difícil: viver depois, reencontrar a alegria, o gosto, reaprender a olhar o belo e desejá-lo.
Algumas pessoas desenvolvem um sentimento de culpabilidade em aceitar novamente o presente da vida, o sorriso e o recomeçar. Elas sentem como se estivessem traindo quem se foi, porque devem continuar.
Ora, o amor não diminui ou não fica diferente porque aprendemos a viver sem os que se foram. O espaço conquistado no nosso coração pelos que nos amaram e os que amamos ficará definitivamente marcado. Porém, isso não pode e não deve impedir ninguém de viver.
É preciso aprender a viver com e apesar de. É preciso aprender a viver com a dor, com a falta, com a saudade e apesar do adeus. E é preciso se reconstruir.
Completar o luto é aceitar que a última página de uma história tenha sido definitivamente virada, que aquele livro se encerrou, mas que a vida para quem fica continua.
A vida é uma dádiva do céu, que continua azul e infinito e onde as estrelas continuam a brilhar, mesmo na mais negra escuridão.

Letícia Thompson

quarta-feira, 1 de junho de 2011


Viver depois do outro

É possível e desejável. Por muito que, quando se perde alguém, se perca também a vontade de viver. A viuvez é um corte dramático numa vida até então partilhada. Mas sobreviver e continuar em frente é preciso. Para tal há que fazer o luto e aprender a viver depois do outro. Guardando a memória e o afeto.

COMEÇAR DE NOVO

Quase todos nós já perdemos alguém. Alguém que lembramos no dia que o calendário reserva no mês de Novembro a lembrar os finados. Um dia de uma saudade muito particular para quem perdeu o/a companheiro/a de toda uma vida. Uma oportunidade para abordar aqui a importância de se sobreviver a essa morte, vivendo todas as fases do luto para, finalmente, começar de novo.
Em Portugal, a viuvez é um estado maioritariamente feminino. Há sete viúvas por cada três viúvos. Assim o indicam as mais recentes estatísticas do INE sobre mortalidade, relativas a 2002, ano em que por cada 100 casamentos dissolvidos por morte sobreviveram 71 viúvas contra 29 viúvos.
Sobreviver à morte de um ente querido, em particular de alguém com quem se partilhou toda uma vida, é naturalmente um processo complexo, doloroso e prolongado. Tão complexo e doloroso que acontece tantas vezes , se acredita mesmo não conseguir resistir à perda, em que o cônjuge sobrevivente pode até sentir que não faz sentido viver sem o companheiro, em que se sente perigosamente tentado a desistir.
É assim o luto. Uma etapa natural na vida de um ser humano, que se distingue dos demais por criar ligações com as pessoas e as coisas, laços psicológicos ou espirituais que reforçamos com a nossa afetividade. Ora, quando ocorre a morte de alguém, dá-se uma ruptura nessa ligação, abre-se uma ferida que consome a energia investida nessa pessoa; demora mais ou menos tempo a cicatrizar. Mas acaba por cicatrizar. Mesmo que continue a doer levemente...
Não é uma doença, mas, se não forem ultrapassadas todas as fases, o luto pode causar doença. Não é por acaso que se diz que é preciso fazer o luto. Ou seja que cada pessoa precisa de passar através da sua dor, para conseguir retomar a sua vida normal. Porém, a sociedade atual não se convive bem com o luto. Insiste em impor ditâmes, invadindo a privacidade de quem sofre a perda de um ente querido. Um exemplo basta: o vestir de negro pela morte de um familiar; de um cônjuge, por exemplo, é olhado de lado, como um gesto sem significado. E todavia pode ser a única forma de exprimir o luto, numa comunidade onde as lágrimas não são muito bem vistas.
Além do mais, o luto não é apenas um fenomeno individual. Ele é também coletivo. Porque, afinal, também a comunidade perdeu um dos seus membros: a morte toca a todos, faz reviver em cada um as suas próprias perdas. A solidariedade social torna-se então fundamental para evitar que o desgosto abra caminho à solidão.
Já aqui dissemos: o luto faz parte da vida. É mesmo um tempo obrigatório entre duas fases da vida: a que se tinha antes da morte do ente querido e a que virá depois. Mas esta segunda fase só acontecerá depois de o termos deixado partir definitivamente. Ou seja, se fizermos o luto.

Artigo da revista Farmácia Saúde do número 86 - Novembro 2003