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quinta-feira, 31 de maio de 2018

A festa do corpo de Cristo


Poucas pessoas conhecem a bela origem dessa celebração. 

A verdadeira fé não vem por causa de milagres. (Josh Applegate / Unsplash)
Por Evaldo D´Assumpção*
Neste ano, a festa denominada “Corpus Christi” (Corpo de Cristo), cai no dia 31 de maio, pois é celebrada anualmente, 60 dias depois da Páscoa, sempre na quinta-feira seguinte ao Domingo da Santíssima Trindade, que por sua vez é celebrado no domingo seguinte ao Domingo de Pentecostes. Contudo, poucas pessoas conhecem a bela origem dessa celebração. Tudo se deu em decorrência de um extraordinário acontecimento no século XIII, mais especificamente no ano 1263. Era um tempo de muitas discussões sobre a veracidade da transubstanciação. Explico: transubstanciação diz respeito à transformação de uma coisa em outra. Na teologia católica refere-se à transformação do pão e do vinho na substância do corpo e sangue de Jesus Cristo, durante a cerimônia da consagração, que acontece exclusivamente no contexto da Santa Missa. Ou seja, por ela passa-se a ter a real presença de Jesus na hóstia e no vinho consagrados. Este dogma baseia-se nas próprias palavras de Jesus que disse: ”Se não comerdes a carne do Filho do homem, nem beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós.... Minha carne é verdadeiramente comida, e meu sangue é verdadeiramente bebida” (Jo 6, 53-54). E que durante a última ceia, ao entregar pão e vinho aos apóstolos, disse: “Isto é o meu corpo, que será entregue por vós....Este cálice é a nova aliança em meu sangue, que será derramado por vós.” (Lc 22,19-20). O pão e o vinho consagrados não perdem sua forma material, mas sua substância se torna na substância do próprio Cristo Jesus, pela força de suas palavras.
Nos séculos XI e XII, heresias como a dos Cátaros e dos Patarinis negavam essa transubstanciação e com isso geravam muitas dúvidas até em sacerdotes. Um deles, Pedro de Praga era atormentado pela dúvida e decidiu-se por uma peregrinação a Roma, em busca de luz para a sua falta de fé. No trajeto, parou num povoado chamado Bolsena, próximo à cidade de Orvietto onde no verão residia o Papa Urbano IV. Em Bolsena, ao celebrar a missa na capela de Santa Cristina, durante a consagração sobreveio-lhe forte dúvida e neste momento viu cair da hóstia que elevava, gotas de sangue sobre o altar, impregnando o linho que o cobria. Procurou o Papa e este enviou o Bispo Giácomo que lhe trouxe o pano ensanguentado. Diante disso, em 11 de agosto de 1264 o Papa proclamou a bula “Transiturus de mundo”, instituindo para todo o mundo a festa de Corpus Christi. E encarregou a Tomás de Aquino (depois, canonizado santo) compor o Ofício da Celebração, que deveria ser anualmente celebrada, na quinta feira após a oitava de Pentecostes, em honra do Corpo do Senhor.
Mas, além deste chamado Milagre Eucarístico, outros mais aconteceram em território italiano. Algo semelhante ocorreu na cidade de Cássia, região de Úmbria, onde faleceu Santa Rita de Cássia, em 22 de maio de 1457. No ano de 1330 ali vivia o Padre Simone Fidati, um sacerdote Agostiniano muito procurado como confessor de sacerdotes. Certa feita ele foi procurado por um padre que acabara de viver uma incrível experiência. Sofrendo de enorme falta de fé na eucaristia, havia sido solicitado a levá-la a um moribundo. Com sua descrença, sem qualquer cerimônia tomou no sacrário uma hóstia consagrada, colocando-a dentro do seu breviário, sem nenhum cuidado especial, e dirigiu-se à residência do enfermo. Lá chegando, ao abrir seu livro de oração para pegar a hóstia consagrada, viu que as páginas do livro estavam embebidas de sangue, tendo a hóstia em seu meio, pregada numa delas. Estas páginas foram guardadas e levadas, uma para o Tabernáculo de Perúgia, e a outra, com a sagrada hóstia nela colada pelo sangue, para o mosteiro Agostiniano de Cássia, onde até hoje pode ser vista. E mais espantoso, é que nesta hóstia, quando iluminada por detrás, pode-se ver, nitidamente, o perfil de um rosto que se supõe seja a reprodução da face de Cristo. Em 1687 houve o reconhecimento oficial da Igreja, da Relíquia do Milagre Eucarístico de Cássia.
Entretanto, o mais detalhadamente estudado dos chamados Milagres Eucarístico, certamente foi o ocorrido em outra cidade na costa adriática, chamada Lanciano. Seu nome vem do fato de aí ter nascido Longino, o centurião que deu o golpe de lança no tórax de Cristo crucificado.
Este é talvez o mais antigo, pois ocorreu no século VIII, quando um monge da ordem Basilicana, como os demais passava por uma profunda crise de fé, não acreditando na transubstanciação. Durante uma consagração, diante de sua comunidade, viu gotas de sangue escorrerem pela hóstia elevada, que em suas mãos transformou-se em carne. Transtornado pelo que via, guardou cuidadosamente os coágulos formados do sangue escorrido, e a hóstia feita em carne. Séculos depois, nos anos 1970 e 71, os professores da Universidade de Siena, Odoardo Linoli e Ruggero Bertelli, com autorização da Igreja, fizeram exames químicos e microscópicos do sangue, constatando que estava em perfeito estado, sem que houvesse qualquer traço de conservantes, o mesmo acontecendo com a carne em que se transformou parte da hóstia. O sangue revelou-se ser humano e do grupo AB, o mais comum entre os judeus. E a carne revelou-se músculo cardíaco humano, contendo filetes nervosos e vasos como se tivesse sido retirado de um coração ainda palpitando. Muitos outros estudos foram feitos, nenhum deles levantando qualquer suspeita de fraude, como aconteceu com os outros Milagres Eucarísticos reconhecidos pela Igreja.
Concluindo, afirmo acreditar que a verdadeira fé não vem por causa de milagres, que só reforçam a chama bruxuleante existente em nossos corações. Quem busca fatos miraculosos para crer, tão somente alcança a crendice e o fanatismo, que com o mesmo ímpeto que surgem, se esvaem pela inconsistência que os caracteriza.
* Evaldo D' Assumpção é médico e escritor

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