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sexta-feira, 22 de maio de 2015

“A felicidade está nas coisas simples da vida.”

Jornalista Náira Malze Entrevistando Angelita Scárdua – Psicóloga da Felicidade

Psicóloga diz que a felicidade está no autoconhecimento e na maneira como nos relacionamos com o mundo.

A felicidade, sempre desejada e cantada em verso e prosa, é mais do que um objetivo na vida da psicóloga Angelita Corrêa Scárdua. É o tema sobre o qual ela faz pesquisas. Seguindo a linha da psicologia positiva – não por acaso chamada também de psicologia da felicidade. Nesses estudos, Angelita chegou a várias conclusões. Uma delas é de que o brasileiro não é tão feliz quanto se imagina. Outra é que a felicidade depende mais das relações que estabelecemos e menos do quanto temos na conta bancária para gastar.

O que é psicologia positiva?
É uma abordagem psicológica americana criada nos anos 80, pelo psicólogo Martin Seligman. Essa linha dedica-se a estudar a construção de pensamentos positivos, e o que se pode fazer para ter experiências e emoções saudáveis; e a vida, mais feliz. Por isso também é chamada de psicologia da felicidade.

Na prática o que quer dizer?
Para a psicologia positiva, mesmo que você tenha aprendido a ter uma visão negativa da vida, não está condenado a ser um adulto infeliz. Não importa quantos anos você tenha. É possível mudar a forma de perceber o mundo e a sei mesmo.

O que isso tinha a ver com a sua pesquisa?
Eu já participava de uma pesquisa de neurociências sobre desenvolvimento, emoção e percepção, tinha finalidades com a teoria de Jung (Carl Jung, psiquiatra que defende que o sujeito se desenvolve até o fim da vida)e, juntando à psicologia positiva, fui investigar o imaginário cultural brasileiro sobre o que é ser brasileiro. Há o mito de que ele é feliz, mas nós identificamos que o brasileiro não acredita que possa mudar a própria vida. Em vez disso, atribui essa responsabilidade a algo ou alguém externo como provedor dessa felicidade.

Mas o brasileiro não se enxerga com positividade?
Quando é perguntado sobre o que é bom no país, ele se refere à natureza – praias, clima, mulheres… ou seja, a idéia é que, o que temos de positivo não foi construído, mas dado. Quando a pergunta é o que pode mudar o país, aparece uma contradição: a crença na educação. Quer dizer, o que temos de positivo não é construído. Já o necessário para mudar requer esforço pessoal,mas não é valorizado. Isso leva as pessoas a buscarem as alternativas mais cômodas. E, claro, atrapalha a felicidade.

Então o brasileiro não é feliz?
Aqui, e nas culturas latinas, é comum confundir alegria com felicidade. São coisas diferentes. A alegria é o estado emocional- afetivo de uma satisfação momentânea, como a festa de casamento ou comprar o carro dos sonhos.

E felicidade?
É um estado no qual você se sente de bem consigo mesmo e realizado com o que tem. É comum pensar que uma pessoa feliz não tem sofrimento,mas não é verdade. A diferença está em funcionar positivamente e entender que problemas são temporários e superáveis.

Qual a relação de felicidade com qualidade de vida?
Por vivermos numa sociedade consumista, há a fantasia de que o consumo traz felicidade. E aí quando se fala em qualidade de vida- e na pessoa ter lazer, ter uma alimentação saudável, se exercitar, fazer todos os check-ups é comum associar qualidade a um certo padrão socioeconômico.E, riqueza à felicidade. Mas todas as pesquisas mostram que não existe relação direta entre riqueza e felicidade.

Mas a qualidade de vida pode variar com a riqueza?
Sim, ela é variável. Para uma pessoa, pode significar pagar o melhor restaurante da cidade.Para outra,subir a laje e improvisar uma churrasqueira. A qualidade de vida varia em função das suas expectativas de vida. A questão é: se eu me imponho tarefas que me sobrecarregam, vou romper com a qualidade de vida. E sem qualidade, a felicidade fica difícil.

Por que é tão difícil sair do discurso e incorporar qualidade no dia a dia?
Por causa do imediatismo, tendemos a associar satisfação a consumo. Então, se não estou bem, é porque falta algo que pode ser consumido e que me traz uma satisfação temporária , mas imediata . Adotar um padrão assim demonstra profunda imaturidade psicológica e a capacidade de postergar a satisfação. Ou seja, de entender que o prazer vem depois de certo esforço. E a qualidade de vida depende disso.

A falta de tempo é uma justificativa para essa imaturidade?
Sim, dar desculpas por sua falta de tempo passa a idéia de uma pessoa com a agenda cheia de muitos compromissos. E alguém com esse perfil na nossa sociedade é valorizado. Pega bem dizer “eu não tenho tempo”. É uma desculpa padrão, mas na verdade tempo é uma questão de prioridade.

E é realmente possível se dedicar com qualidade a todas as áreas da vida?
Sim. Acontece que por conta dessa percepção imediatista, muitos não estão dispostos a fazer um compromisso consigo mesmo pela felicidade. Por exemplo, quem está infeliz no casamento, se parar e avaliar o que está errado, percebe que precisa mudar alguns aspectos. E que dá trabalho, leva tempo. Mas a maioria não tem maturidade para se comprometer, investir a longo prazo e busca uma saída imediata. Pode ser uma amante, uma cirurgia plástica, o trabalho…

Mas investir no casamento aumenta a chance de ser feliz?
Muito. Todas as pesquisas de felicidade comprovam isso. Numa relação estável em que haja cumplicidade, companheirismo, afinidade e intimidade, a pessoa se sente livre para se expressar integralmente. E tem a certeza de que será amada independente de quem seja. Isso é fundamental para a felicidade.

Você atende principalmente a pessoas na meia idade. Nessa faixa etária, a busca pela felicidade é mais urgente?
É. Jung traz a idéia que, a partir dos 35 anos, vivenciamos um processo psicológico que seria o ápice do desenvolvimento humano. É a metanóia ou “crise da meia idade”, quando a pessoa faz uma avaliação de tudo que viveu e passa a se perguntar se valeu a pena. Isso pode gerar um conflito intenso. E, junto das marcas do tempo no corpo, mostra que a vida tem um prazo. É um momento crucial, hora de nos realizarmos como seres humanos.

Como uma segunda chance?
Sim, o momento de resgatar quem é você, o que quer, o que busca. E não o que o país ou a igreja ou a sociedade determinaram. A decisão implica em rupturas e perdas e por isso gera uma crise. Por isso nem todos escolhem o caminho da felicidade, porque o caminho da felicidade é o de ser você mesmo, mas isso tem um preço.

Hoje, ao mesmo tempo em que se buscam avanços para o futuro, fala-se em resgatar valores simples. Como explicar essa contradição?
Mesmo com a desigualdade gerada pelo capitalismo, nunca se teve tanto acesso a tantas coisas como hoje. Saúde, moradia férias, bens de consumo. Ao mesmo tempo, nunca os índices de felicidade foram tão mornos. Para se ter uma idéia, pesquisas dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha mostraram que, nesses países, hoje se consome cinco vezes mais, mas o índice de felicidade está estagnado, desde a década de 50.

Por quê?
Com tantas promessas da tecnologia e da ciência, por um momento acreditamos que conseguir controlar o corpo, as doenças, o envelhecimento, morar em casas superconfortáveis e dirigir carros velozes nos tornaria felizes. Mas pensar assim é focar na nossa porção animal, preocupada com a sobrevivência da espécie.

E a outra porção?
O ser humano tem um lado que anseia pela divindade e por transcender a condição animal de trabalhar-reproduzir-sobreviver. Ele quer enlevo, satisfação, leveza,o que não é contemplado pela ciência, porque o que satisfaz são coisas muito simples. Como uma flor, o pôr-do-sol, aquele sentimento de que a vida pode ser mágica em alguns momentos. É a beleza da vida, a essência. A sensação de que a vida é mais que apenas sobreviver. Isso é dado pelas coisas simples da vida.

Posso dizer que elas promovem a felicidade?
Sim, coisas simples como ter uma vida estável, amigos de verdade, tomar um banho de chuva. Ter prazer pela vida. Ter uma atividade que traz satisfação e a sensação de que você  faz algo por um mundo melhor. É acreditar em algo melhor que a vida cotidiana, por isso a espiritualidade é tão importante para a felicidade. São coisas simples que nos dão a sensação de que a vida pode ser leve, mesmo nos momentos mais difíceis.

Mas mesmo as coisas simples podem ser confundidas pelo consumismo?
Podem. Com a falta de sentido nas coisas materiais, a gente resgata lembranças felizes, por exemplo, na casa da avó tomando leite com café quentinho, na caneca de esmalte, enquanto está chovendo. Muitas pessoas tentam recuperar isso comprando canequinhas, porque devido a valores consumistas, a gente de novo acredita que pode comprar a felicidade, adotando determinados comportamentos, como uma fórmula. Contudo a felicidade não está na canequinha de esmalte, mas na sensação de estar protegido, guardado ,amado. Porque no fim das contas, a principal fonte de felicidade e de infelicidade está nas relações que estabelecemos com as outras pessoas e com o mundo.


“Não existe felicidade se você não for capaz de reconhecer quem você é e o que é importante para si mesmo.”

fonte: aqui

2 comentários:

  1. Olá Zelinda!
    Maravilhoso texto, perfeito, um grande aprendizado!
    A felicidade é um estado de espírito, só é sentida lá dentro do coração...
    Somos responsáveis por nossa vida, e se ela não está da forma que se deseja, só depende de nós a decisão de modificá-la, e de ser feliz mesmo nos momentos mais difíceis. Abraços.

    Paz e luz!

    Comentário que deixei ontem sobre o texto "Força em dobro" :
    Minha querida amiga, chorei ao ler seu post... impossível não se emocionar com esse depoimento tocante.... (leia mais na postagem abaixo)

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    1. Oi amiga...
      Vc como sempre muito sabia e verdadeira meses comentários ..
      Obrigada de coração....um carinho no Thiago,BJss amo vcs...

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