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terça-feira, 3 de janeiro de 2012

RECOMEÇAR





Se não tivessemos emoções ou sentimentos todos seríamos livres da dor... não teriamos ilusões, ansiedades, medos e mágoas, só existiria em nós a lógica... Seria isso bom? Não sei se seria... Acredito que devemo-nos empenhar em viver com qualidade de Vida e dar, na medida das nossas possibilidades, o que de bom temos.


       Para muitos dos pais o tempo é de sofrimento e o processo de reconciliação com a Vida é ainda longo e doloroso. Há que alcançar a esperança para que a alegria saudável volte ao seu interior e brilhe nos seus olhos. Recomeçar!


        O meu pensamento não é uma lei, não é uma certeza, é o meu sentir, a minha experiência perante a minha vivência de muitos anos de luto. Perdura em mim o ausente e isso, de certa maneira, conforta-me porque permanentemente esse filho me acompanha.


       Agarro-me a todos os bens que ele me deixou: a sua bondade, alegria e força. A beleza que irradiava, as suas palavras inocentes mas tão sábias, a despedida feita, sem que a morte fosse ainda anunciada, foram bênçãos para a minha vida e um grande e são orgulho me invade de ter tido este filho e de ter partilhado com ele onze lindas Primaveras. Digo Primaveras porque ele foi e será sempre a minha Primavera, o meu renascer...


        E o tempo corre, os anos passam e começamos a perder a nitidez da Vida passada, da voz do nosso filho, dos seus gestos e com angústia interrogamo-nos: Como é isso possível? Mas é assim...a sua Vida que foi palpável desapareceu e ficaram as suas palavras sem som e o seu espírito recolhe-se em nós mais vivo do que nunca. 


Neste fim de tarde quase vermelho
Um pouco alegre dentro do triste
Passeiam os pensamentos, os anseios
Vãos e irrealizáveis transbordando... 
  
E a flor cresce na terra quente
E o mar em ondas ruge e se espraia
Os anos não matam os momentos
Crescem, urram transbordando... 
  
Quem me dera falar-te, dizer-te
Em fim, amar-te vivo, criar-te em mim
Mas, meu amor, como era a tua voz?
Riso apagado, tristeza transbordando...


 (Texto de Aida Nuno)
                                                               

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