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segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

O canarinho amarelo

Prezada D. Zelinda,
              Semana passada morreu uma amiga de infância, e fiz para ela e sua família, o texto que envio no anexo, o qual gostaria de compartilhar com todos seus leitores. 
              Espero que o aprecie. 
              Abraços, 
                                                                                      Evaldo D´Assumpção





     Aos poucos fui habituando-me àquele pequeno pássaro canoro. Todas as tardes, quando eu me sentava a mesa para escrever, ele aparecia e ficava naquela árvore, bem em frente à minha janela, exalando seus suaves trinados.
    Foi tamanha a nossa interação, que sem suas melodias minha inspiração custava a brotar, meus textos demoravam a fluir sobre o papel. E quando mesmo assim, surgiam alguns, eles não tinham a qualidade dos que eram despertados pelo meu canário.
   Atrevo-me a dizer meu, porque assim já o sentia. Parecia-me que ele chegava esperando encontrar-me em minha cadeira, olhando para a janela em busca da inspiração que demorava.
  Certamente, muitas vezes ele se frustrou não me encontrando ali. E me pergunto: será que mesmo assim ele cantou, na esperança de que eu estivesse ausente apenas por alguns instantes, e logo retornaria? Ou quem sabe ele gorjeava um pouco, esperava, e observando que ninguém aparecia em minha sala, partia em busca de outro amigo para com ele compartilhar seu canto?
   Assim foram meses e meses. Somente nos dias de muita chuva, meu canário não aparecia. Mas eu o compreendia. Afinal, a chuva e o vento frio não seriam saudáveis para o seu canto.
Contudo, fosse verão escaldante fosse inverno rigoroso, ele nunca faltava. Pensei até em lhe dar um nome, mas desisti. Por que encarcerá-lo numa denominação, se ele era livre em seus longos voos e não precisava ser chamado para aparecer?
   Chamá-lo de canarinho amarelo, já lhe bastava, mesmo sendo um tanto redundante, pois um canário que se preza é sempre amarelo...
   Também jamais me ocorreu capturá-lo num alçapão, e depois – tamanha crueldade! – egoisticamente encarcerá-lo numa gaiola só para tê-lo, exclusiva e permanentemente junto de mim. Tenho a certeza de que, se o fizesse, aqueles chilreios se calariam em sua garganta, pois somente a liberdade nos permite criar e compartilhar o que de mais belo podemos fazer.
   Nenhum ser vivo nasceu, nem nasce para a escravidão. Seja ela de que tipo for, sempre amesquinha a vida, que de natureza e de origem é livre e livre deve ser preservada sempre.  Por isso mesmo abomino toda e qualquer prisão, a que os hipocritamente chamados de animais domésticos possam ser submetidos.
  Pior ainda quando, além da prisão, são submetidos a violências ridículas e brutais, como serem vestidos como o animal humano, receberem adornos e joias – que despautério! – como se tivessem o mais insignificante conhecimento do significado daquelas tolices, que só o tolo animal humano até mata e rouba para possuir e desfilar, provocando inveja aos outros mais tolos ainda, de sua mesma espécie.
   Imagino o quanto se sentiriam ridículos e reclamariam se pudessem raciocinar e se expressar, sendo levados a psicólogos para aliviar seu estresse, provocado pelas próprias estultícias a que são submetidos por seus pretensos donos. Ou a esteticistas, acupunturistas, salões de beleza para banhos e penteados exóticos e outras brincadeiras (só pode ser!) de péssimo gosto para quem foi criado para correr pelos campos, beber e banhar-se nas águas dos rios, a brisa batendo solta em seu rosto quando corre, quando voa. 
   Não, jamais engaiolaria aquele canário, pois ele recebera do próprio Criador de tudo e de todos, a carta de alforria definitiva, no mesmo ato da criação. Livre ele era, livre ele deveria ser até o último dia de sua vida sem grilhões.
    E, certamente esse dia chegou. Pois numa tarde morna de outono, exatamente igual à tantas outras em que ele viera e mais bonito me dera o seu canto, o canário amarelo não apareceu. Imaginei-o em outras paragens, em outros voos mais distantes. Todavia, nas tardes seguintes ele permaneceu ausente. Não ouvia seus trinados e isso me fazia sofrer. Perdi até um pouco da minha vontade de escrever, ficando somente na janela, esperando a sua volta, coisa que nunca mais aconteceu.
Muitos meses passados, tantos dias de sol, de calor e de frio, dias de flores perfumando a primavera, nada mais o trouxe de volta.
Imaginei então que o seu tempo terminara. Certamente meu canário fora levado pelas mãos suaves do Criador, para outras paragens, para embalar a paz em lugares onde ela jamais faltará.
    Meu... por que “meu”?  Ele não era propriedade minha, como eu mesmo não sou propriedade de ninguém. Como nada nem ninguém é propriedade de ninguém, onde só impera a impermanência que a tudo e a todos dá a liberdade nem sempre respeitada, quase nunca se fazendo respeitada.
    O canarinho amarelo partiu. Melhor será dizer como o poeta dos sertões, Guimarães Rosa: “ele se encantou”.
   Para mim só restou a saudade que no princípio foi dolorosa, mas pouco a pouco foi se fazendo gostosa, pois me levava aos dias em que seu canto embalava meus escritos, fazendo-me entender que ao invés de chorar, devo rir e agradecer pelo tempo em que pude gozar de sua singela companhia. Hoje já não a tenho, mas outros pássaros já me visitam, novas flores brotam nas árvores, a brisa suave que vem do mar às vezes me faz imaginar que com ela vem o trinar do canarinho amarelo. Eu não o esqueci e nem o esquecerei. Ficará para sempre comigo, a sua pequenina imagem e a delicada harmonia de suas melodias.
     E, pensando bem, estou certo de que a brisa do mar não me vem sozinha... Afinal, acreditando como o faço, na inexistência da morte, com certeza ele está em algum lugar, agora muito mais livre do que antes, e à minha espera para fazermos novas parcerias: ele com o seu canto, eu com meus escritos. E ambos livres e felizes como sempre fomos, mesmo não tendo percebido antes, essa maravilhosa realidade!
                                               *****************************

Evaldo D´Assumpção – Médico e Escritor

2 comentários:

  1. Oi minha amiga querida,
    Belíssimo texto!!!
    Uma grandiosa e tocante homenagem de profunda sensibilidade.
    Adorei! Parabéns ao autor!

    Retornando... estive ausente por uma semana, precisava me revigorar, renovar minhas energias.
    Bjs e muita paz!

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    1. OI AMIGA...
      PRECISAMOS MUITAS VEZES DAR ESSE TEMPO PARA NÓS SEMPRE É MUITO GRATIFICANTE PARA REVER OS VALORES DA ALMA E DOS NOSSOS CORAÇÕES.
      gOSTEI MUITO DESTE TEXTO ELE CONSEGUE PASSAR REALMENTE O VALOR DA AMIZADE DE UM ENTE QUERIDO QUANDO NÃO ESTÁ MAIS ENTRE NÓS.
      OBRIGADA BJS ..

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