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sexta-feira, 11 de outubro de 2013

A EXISTÊNCIA É COMO UM LIVRO


Por: Dr Evaldo D´Assumpção 
Por mais que evolua a tecnologia, por mais complexo que sejam os conhecimentos dos homens, a morte, tanto quanto a vida, continua sendo um insondável mistério.
Por que nascemos? Por que vivemos? Perguntamos, assim como questionamos, com muito mais intensidade e ansiedade, por que morremos.
Nascimento, vida e morte fazem parte de um mesmo livro que é a nossa existência. O nascimento é o prefácio, a vida é o miolo do livro, e a morte o seu epílogo, que inclui o índice do que fizemos. Livro que vai sendo escrito a cada dia, a cada momento, no pleno gozo do nosso livre-arbítrio, porém sem a menor possibilidade de se voltar atrás. Por isso, cada página é inigualável e insubstituível, só podendo ser escrita uma única vez. E quanto melhor o fizermos, melhor será a nossa história. Se por desatenção saltamos uma página, ela permanece em branco, e se fosse possível – mas não o é – voltar atrás para preenchê-la, ela ficaria em total descompasso com o contexto geral de nossa narrativa. Por isso, temos de ter muita cautela para não estragar nem desperdiçar qualquer momento de nossa história, pois ele é único e não se repete. Para que aquela página não fique em branco, ou cheia de borrões, ou com escritas das quais nos envergonharemos. 
Por outro lado, o livro da nossa vida tem sempre um coautor que dele participa, do início até o fim. E o faz somente através de inspirações e sugestões, com o único objetivo de melhorá-lo sempre. Quando desprezamos a sua participação, e ignoramos suas admoestações, o livro perde, e muito, a sua qualidade. A única prerrogativa que é exclusiva desse Coautor é a redação do epílogo, que encerra a história, assim como o seu índice. Por vezes Ele o faz num momento em que acreditamos ainda haver muito a ser escrito. Mas isso só acontece porque não temos o inefável discernimento pleno, que só Ele possui. E quando o epílogo é redigido, muitos se indignam, e até se revoltam contra a conclusão que julgam ter sido extemporânea.
Quando começamos a leitura de um romance, o prefácio nos abre para a alegria e a expectativa do desenvolvimento daquela história. E quando ela é cheia de qualidades, quase sempre nos vem uma sensação de frustração quando chegamos ao epílogo, porque já não existem mais páginas a serem lidas. Quando isso acontece com o Livro da Vida, questionamos a arbitrariedade da interrupção, não a aceitando e até mesmo nos revoltando contra o intempestivo Coautor que a fez.
Contudo, mesmo sendo nós os autores, bem mais sábio é o nosso Coautor e suas decisões nunca são inoportunas, nem passíveis de erro. O que é para nós motivo de perplexidade e indignação, na história maior que só o Coautor conhece, é pura sabedoria e compassividade. Quando virarmos a página e contemplarmos o índice daquele livro, descobriremos o que recebemos, o que fomos e o que fizemos, muitas vezes coisas que sequer imaginávamos.
Desconhecendo essa realidade, nossa postura mais comum diante da morte de alguém que amamos, geralmente é a perplexidade, a dúvida, a revolta, o questionamento, e com certa frequência, a culpa. Culpa porque imaginamos que não fizemos o suficiente para evitar aquele infausto acontecimento.
Mas a vida tem princípio, meio e fim. Sabemos bem qual é o seu princípio, vivemos quase sempre conscientemente o seu meio, mas desconhecemos totalmente quando e como será o seu fim. Chegamos mesmo a rejeitar esse epílogo, como se isso o eliminasse de nossa história. Entretanto, desconhecer ou pretender ignorar essa realidade é o que mais nos faz sofrer.
O epílogo do livro da existência não é o seu fim, mas o encerramento de um volume escrito no espaço e no tempo, para onde ele foi criado. A ele se segue somente um outro volume, esse já sem prefácio nem epílogo, só tendo um miolo infinito, pois é vivido onde a impermanência já não existe. Onde a palavra fim, não faz qualquer sentido. Onde a vida é plena e desfrutada para sempre nos braços amorosos do Pai Criador, o verdadeiro coautor da nossa história. Um novo volume que já não é escrito individualmente, sendo a obra de todos os que já se encontram na eternidade. Um novo volume sem páginas, pois já não existem momentos, apenas um contínuo e infinito fluir numa felicidade inefável e infindável.
Nesse livro não há tristezas nem arrependimentos, por se ter perdido ou vivido mal instantes preciosos que não voltam mais. Afinal, na eternidade de Deus o tempo não existe, e lugares também não. Somente a contínua, infindável e inefável existência de quem já se tornou imortal, no carinhoso aconchego daquEle que é eterno. E que na eternidade, nos acolhe a todos, sem exceção, em seu infinito amor. 

Dr Evaldo D´Assumpção 
Médico, Escritor, Biotanatólogo e Bioeticista / Membro Emérito da Academia Mineira de Medicina
http://www.nucleofenix.com/

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