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sexta-feira, 12 de setembro de 2014

SUICÍDIO - A DOR DE QUEM FICA

Na semana passada, a matéria postada, falamos sobre suicídio, sob o ponto de vista dos porquês de como uma pessoa pode chegar a tal ato. Na postagem de hoje, englobamos o ponto de vista das pessoas que foram afetadas por este ato.

por Oliveira Fidelis Filho - oliveirafidelisfilho@gmail.com
Para a professora da PUC-RS, Blanca Werlang, doutora em Ciências Médicas/Saúde Mental, o suicídio é hoje uma das dez principais causas de morte em todas as idades. Na faixa entre 15 e 24 anos é a terceira maior, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). "Para 2020 a projeção é de que haverá um suicídio a cada 20 segundos no mundo e uma tentativa por segundo", alerta.

Após o suicídio de um membro da família ou de um amigo próximo avolumam-se os sentimentos, pensamentos e questionamentos conflitantes. O que levou a pessoa a atentar contra a própria vida e as implicações religiosas relacionadas a tal fato são questões, entre outras, que não possuem respostas simples. As causas e consequências de um suicídio tem o poder de despertar sentimentos de culpa, de vergonha, de humilhação e de angústia, muito profundos, muito doloridos.

Ainda que neste texto meu foco esteja em nossa cultura e a partir de quem fica, busco, entretanto, considerar o assunto a partir de uma abrangência capaz de permitir um olhar mais sereno e se possível menos traumático ainda que não menos preocupante.

Em muitas áreas do comportamento humano o preconceito ou a dificuldade de conviver com certas situações é fruto do medo do desconhecido, da falta de informação mais ampla, de enfrentamento honesto ou de outras limitações. O conhecimento, entretanto, é sempre libertador. O Mestre Jesus evidencia este princípio quando declara:"E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará". A verdade clarifica, desintoxica, além de promover segurança e confiança. Nenhuma escravidão ou subserviência se estabelece a partir da verdade; se há escravidão é porque a verdade encontra-se aprisionada.

Gostaria muito de tratar deste assunto de forma leve, mas acho que é pouco provável, pois o suicídio sobrecarrega em muitos níveis a vida dos que ficam. Certamente é um assunto que prefiro abordar em seminários ou palestras, pois possui uma abrangência que teima em não se esgotar.

Creio, portanto, que para os familiares, amigos, e aos que ficam como herdeiros dos sentimentos oriundos do suicídio, algumas percepções são importantes:

1. Visão abrangente. Não se limite a apenas um parecer, uma visão, um juízo de valor, uma abordagem sobre o assunto.

Neste sentido vale à pena buscar entender o suicídio do ponto de vista motivacional e histórico e assim percebê-lo, a partir de vários olhares, tais como: Punitivo, possuindo em Sócrates, o filósofo grego, talvez o mais antigo e sem dúvida o mais ilustre protagonista; Eugênico, que consistia na eliminação de pessoas portadoras de deformidade prejudiciais à comunidade;Preventivo, onde se buscava livrar a comunidade do ônus advindo da enfermidade e/ou velhice; Solidário, cujo objetivo era morrer juntamente com o companheiro; Romântico, evidenciado na obra de Shakespeare, Romeu e Julieta; Heróico, cometido tanto pelos 967 judeus na fortaleza de Massada quanto pelos pilotos Kamikazes japoneses na segunda guerra mundial, para citar os mais conhecidos, entre outros; Político, consumado pelos monges budistas tibetanos em protesto ao domínio chinês; Altruísta, quando se corre risco de morte para salvar outros; Ético, protagonizado pelos samurais e gregos antigos em face a desonra; Religioso, bem comum entre os cristãos primitivos sob a perseguição romana; Resolutivo ou Anônimo, suicídio mais comum em nosso meio, nos casos em que a pessoa se mata para fugir de situações que lhe são extremamente cruéis.

Creio que um olhar um pouco mais amplo possui, no mínimo, a possibilidade de se perceber parte de uma realidade vivenciada, no tempo e no espaço, por um expressivo número de pessoas das mais variadas culturas, etnias e crenças. Pesquise exaustivamente o assunto, invista sua energia nesta direção, pois, quanto mais conhecimento e domínio do assunto menos refém ficará dele e mais diluído será o impacto resultante.

2. Livre-se da culpa. Antes de tudo absolva o suicida de toda culpa. O sofrimento dele já foi grande demais para que tomasse tal atitude. Perdoe-o mesmo que o ato praticado contrarie suas crenças, seus valores, seus critérios, suas expectativas. Respeite a atitude, a escolha feita em meio ao desespero, e abençoe com bondade e misericórdia sua memória.

Lembre-se que maiores que a dor e a frustração ou sofrimento por ele causados foram o seu próprio sofrimento e desespero que o levaram a por fim ao sentimento de ausência de vida. O suicida, via de regra, não atenta contra a vida, busca livrar-se do niilismo, do sentimento de esvaziamento de significado, de propósito. Portanto, não se permita culpá-lo, amaldiçoá-lo; ao invés disso perdoe e abençoe, seja compreensivo.
Absolva-se, também, de todo sentimento de culpa, pois não nos tornamos melhores nos sentindo culpados, não reverteremos o fato. Com o sentimento de culpa, além de não devolvermos a vida ao suicida corremos o risco de azedar e deteriorar a existência com amargas lembranças da morte.

3. Volte sua atenção para a vida. Como disse Jesus: "deixe os mortos enterrar seus próprios mortos", ou seja, assuma um compromisso com a vida, não morra com o morto, volte-se para os vivos, caminhe com eles. Sempre que necessário perdoe a si mesmo, não se permita ser julgado por quem quer que seja.
Existem outras pessoas carentes de amor, esperando ser acolhidas, percebidas, compreendidas, ouvidas, amadas. Disponha-se a estar mais atento as necessidades de quem caminha ao seu lado. Faça isso, no entanto, não como quem busca ser absolvido e sim movido por amor. O amor Crístico não se restringe a uma só pessoa, não possui endereço fixo, possui o próximo e o mundo como alvo.

4. Encare a vida como um filho da Luz. Como quem está sempre expandindo a consciência, aprendendo sempre, aperfeiçoando sempre. Neste sentido, tudo que acontece pode e deve ser usado como instrumento para o aperfeiçoamento. Nenhum acontecimento precisa ser negativo, tudo pode e deve constituir oportunidade de aprendizados sempre. Portanto, seja grato pela vida do ente querido que se foi e lembre-se dele com carinho e alegria.

5. Deixe o mistério com Deus. Não queira projetar suas crenças e muito menos as crenças dos outros sobre quem tirou a própria vida. Deus sabe do desespero, da dor que o levou a tomar tal atitude; em Deus está o perdão, Ele é Amor. Portanto, deposite nas mãos de Deus pensamentos e sentimentos amorosos em relação a quem se foi e creia no Seu incondicional Amor.

O amor de Deus vai muito além dos nossos pretensiosos e levianos julgamentos. E ainda que creiamos que não é da vontade de Deus que alguém atente contra a própria vida, entendamos que Ele conhece as nossas limitações e sempre nos tratará amorosamente.

Se for preciso, chore, desabafe, mas lembre-se que o coração bate melhor no ritmo da gratidão e da alegria. Não assassine seu direito de ser feliz. 

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