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sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Luto Parental: ser pais e não ter o filho




Eduardo Carlos Tavares e Gláucia Rezende Tavares (*)
O luto parental desafia a vaidade de se perpetuar por meio da descendência. Perde-se a referência de futuro e das possíveis projeções idealizadas nos filhos. Evidencia a fragilidade da vida, assim como a ausência de uma sequência lógica diante da terminalidade. A morte do filho gera mudanças em todo o sistema familiar, repercutindo na relação do casal, dos pais com os filhos vivos e entre os irmãos sobreviventes. Há possibilidade da família se desintegrar, mas também de coconstrução de novos arranjos familiares.
Nosso desafio, há 17 anos, é aceitar e assimilar a morte de nossa filha caçula e prosseguir na vida, como casal; como pais de uma filha sobrevivente; como avós de uma neta de cinco anos, que está aprendendo a amar a tia invisível. Já escutamos inúmeras vezes, que superamos bem o luto. Esse trabalho não é de superação. A proposta é transformar separação em atitude vitalizada. Estímulo a aprendizados, sair da acomodação e ir além, buscando adaptação e renovação. Nesse tempo, muito trabalho e disposição para incluir outros enlutados e convidá-los a estar conosco nessa tarefa em que não se supera, mas repara, recupera, regenera, transforma e transcende a dor da perda.
O luto parental escancara a nossa condição de seres mortais, finitos e esgotáveis e nos apresenta a humildade para digerir essas circunstâncias. Há luto pela morte da ilusão de perfeição como pais; do controle sobre a vida das pessoas que geramos; dos inúmeros sonhos projetados e da falsa sensação de sermos, nós e nossos filhos, pessoas especiais, imunes a qualquer intempérie. O desafio é sobreviver, após a morte de filhos, como pessoas comuns. Essa realidade nos alerta de que não somos donos, mas guardiões da nossa prole. A proposta é evoluir, no processo, do luto à luta, reconhecendo que a dor nos move a aprender, a conectar com a coragem de viver, com a alegria, sem nos paralisar no sofrimento desmedido.
A posse não compreende perda. Ter o filho é diferente de termos a posse de sermos pais. Perdemos, fisicamente, os filhos, mas não perdemos a condição de sermos pais. É a relação amorosa que permite apreender a noção de transcendência na imanência, se manifestando na vida cotidiana. O propósito final da vida não é o de possuir coisas, é o de possuir a si mesmo, pelo exercício contínuo de fazer perguntas, que possam ampliar a consciência. Há perguntas que restringem tais como: Por que eu? Por que comigo? E se …? Mas há perguntas que ampliam: o que me sustenta? O que eu posso aprender de mim? Com quem posso contar? O que posso pedir? O que escolho renunciar? O que priorizo? O que faz sentido?
O desafio como pais é o de ser capaz de continuar a amar depois da perda física. O amor não é mais forte do que a morte, ele é, apesar da morte e fora do seu alcance. O amado foi embora, o amor não. Amor é a gratidão pelo convívio. Como disse Fábio de Melo, “É o amor que faz chegar a presença, mesmo quando só a ausência é o que temos.”
(*) Eduardo Carlos Tavares – Médico pediatra, Doutor em medicina, área de concentração Pediatria e membro fundador do API – Apoio a Perdas Irreparáveis.
Gláucia Rezende Tavares – Psicóloga Clínica, Mestre em Ciências da Saúde pela UFMG, membro fundador do API – Apoio a Perdas Irreparáveis, organizadora do livro Do Luto à Luta.

3 comentários:

  1. Muito bom ler e refletir suas postagens, tem me ajudado muito na compreensão no mundo em que estou vivendo agora, do luto à luta, amo essa frase do Pe.Fábio "É o amor que faz chegar a presença, mesmo quando só a ausência é o que temos". Grande abraço.

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  2. Madalena, obrigada pelo teu carinho e pelo comentário, fico muito grata em poder ajudar vcs..
    Visite sempre o nosso blog..
    Com carinho Zelinda..

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  3. Gostaria de entender mais do assunto. A 3 anos meu marido perdeu seu filho único de 8 anos. Já estávamos namorando a 1 ano. Embora eu amo muito essa criança não posso dizer q sei o que é isso. Como ainda não houve justiça no caso,e lutamos por isso,meu marido não vive mais,não ama mais, está irreconhecível. Na minha casa nem o nome de Deus pode ser mais pronunciado,tamanha raiva Dele ter permitido isso.Isso vem me abalando muito,abalando nossa relação. Não sei mais de que forma ajudar ele. Tenho uma filha da mesma idade que teria o filho dele, e creio q isso o faz lembrar diariamente do menino. Já pensei em me separar para que ele possa viver seu luto sem precisar se preocupar comigo ou minha filha,mas amo muito meu marido e me aflige saber que não poderia mais estar ao seu lado dando o pouco apoio que consigo. Ele por pouco tempo se ergueu,tanto que nos casamos,mas de um tempo para cá estamos revivendo tudo por estarmos em busca da justiça que estava tardia. Ele tem se mostrado agressivo com as palavras e desinteressado por nossa família. Me disse em um momento que seu maior amor havia partido,que se nos separássemos não sofreria pois já sofre a pior das dores. Entendo que ele se sinta assim e sei que ele me ama mas não sabe mais o que fazer com seus sentimentos,como se ajudar ao mesmo tempo em que cuida da família? Peço ajuda de quem passa por isso pois acho que eu preciso mais de ajuda do que ele mesmo,para saber como lidar com essa situação. Não quero perder meu amor mas se fosse necessário me afastar eu o faria por não poder saber que ao meu lado ele está sofrendo mais. Estou de fato triste,angustiada,desesperada para ser mais exata. Me ajude por favor.

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