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sexta-feira, 31 de outubro de 2014

O adeus que ainda não dei

por Leticia Maria-jornalista em Taubaté


Amanhã espero ir ao cemitério fazer uma visitinha, levar flores e cantar baixinho
Revertere ad Locum Tuum”, “Hodie mihi, cras tibi!”, “Fuimos quod estis, sumus quod eritis”. Quem nunca foi pego algum dia lendo atentamente essas e outras tantas frases esquisitas em latim escritas às portas dos nossos cemitérios?
Eu, pelo menos, quando criança, ficava intrigada com elas sempre que acompanhava algum adulto num enterro qualquer. Acho que, como toda criança, me distraía com as peculiaridades daquele lugar diferente e cercado de mistérios, desde as fotografias dos túmulos até pelas histórias curiosas que eu ouvia.
Quanto às frases, só me dava por satisfeita quando alguém, além de traduzi-las, me fazia refletir sobre o sentido da morte. E eu ficava lá, pensando… “Voltarás para o teu lugar”. “Hoje eu, amanhã tu.” “Fomos o que sois, somos o que sereis.” Finalmente, quando entendi o que era a morte de fato (lá pela adolescência, provavelmente, por começar a perder amigos e parentes), passei um longo período evitando entrar em cemitérios. Quando o enterro era de alguém conhecido, ia até a porta para me despedir e só! Mas tem coisa que não dá para evitar. Trabalhando como repórter, tive de enfrentar alguns desafios desse tipo para tentar entrevistar famílias ou acompanhar exumações. Além disso, tive algumas vezes a incumbência de fazer as tradicionais matérias sobre Finados (movimento nos cemitérios, venda de flores, piriri, pororó…).
Como a vida (ou a morte?) não perdoa ninguém, passei a acompanhar minha tia Norma (tia como se fosse mãe, sabe?) em datas especiais (aniversário de nascimento ou de morte, Dia das Mães e Dia dos Pais) e no Dia de Finados ao cemitério onde estão enterrados meus avós. Confesso que fazia somente por amor.
Enfeitávamos o túmulo com flores, acendíamos velas. Eu, pacientemente, a aguardava fazer suas orações e lamentar sua imensa saudade.
Por vê-la triste (e até por não encontrar sentido naquele ritual todo), eu sempre dizia: “Tia, eles não estão aqui, isso era só matéria. A senhora é uma pessoa com tanta fé, sabe que a vida não termina aqui. Eles estão bem, em outro lugar, perto de Deus”. Ela parecia nem dar bola ao que eu falava. Era o momento dela com eles, seus pais. Não tardou muito (para ser exata, dois anos após a morte de minha avó), para que ela fosse fazer companhia a eles e, curiosamente, me vi repetindo o mesmo ritual, naquele mesmo túmulo.
Nos primeiros tempos após a sua morte, o cemitério era visita obrigatória quando eu ia a Aparecida. Hoje, vou bem menos (no Dia das Mães, e em Finados, geralmente) mas, em todas as vezes, levo flores e fico sentada ali por horas, rezando, conversando em pensamento, contando coisas sobre a minha vida. É o meu momento com ela, com minha querida tia. Não é ela quem está ali? É só matéria? Papo furado! É claro que é ela, a única referência que resta (mesmo porque não sabemos o que tem do outro lado) de alguém que teve uma presença tão forte na minha vida.
Era a tia Norma quem segurava a minha mão quando eu sentia medo do escuro; era ela quem trocava (sem reclamar!) minhas roupas quando eu fazia xixi na cama; foi ela que pagou grande parte dos meus estudos (inclusive, as aulas de piano) sem nunca me contar; era ela quem escrevia cartas para mim toda semana quando fui estudar fora; sempre foi ela quem me ouviu e me socorreu nos momentos de dor e de angústia e que, claro, também vibrou com cada uma das minhas vitórias.
Amanhã, espero ir até lá fazer uma visitinha. Faz tempo que não vou.
Devo levar flores também e cantar baixinho aquela balada do Tim Maia, que poucas vezes consigo ouvir sem chorar: “Não sei porque você se foi…
fonte: UP!

2 comentários:

  1. Olá amigos! Nunca pensei um dia em pesquisar na internet sites ou blogs sobre a dor da perda, hoje eu me encontro aqui com o coração ainda transpassado de tanta saudade da minha filha, minha princesa Jessica que partiu já à quase 5 meses com 19 anos, uma filha maravilhosa que me ensinou tantas coisas.... eu sinceramente ainda estou aprendendo a voar para a vida depois que ela se foi pra perto de Deus. Eu sei que Nosso Deus a acolheu... Mas eu sou mãe e como tal, meu coração está amputado. Tenho que seguir e sei que devo, pois existe pessoas que me ama e que eu amo também!. Não sei se vou ao cemitério no dia de finados, vou em uma outra data....desde então só fui lá uma unica vez , áinda meio que anestesiada, levei margaridas, porque essas são as flores que me lembram dela, talvez por causa do significado “pérola”., simboliza também a juventude, o amor inocente e a sensibilidade, a pureza, a paz, a bondade e afeto. é assim que ela é para mim, minha joia preciosa, meu Deus, sou cristã e sempre vivi o dia de finados, rezando pelos meus entes que já se foram, mas nunca imaginaria que um dia estaria eu lá rezando também pela minha filha Jessica, e desde então não existe um só dia que eu não pense, não ore e não peça a Deus que cuide da minha princesa eterna, que cuide do meu coração e da minha família! Só Deus sabe o que estou passando!!! Mas eu vou conseguir... Abraços amigos.

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    1. OI Madalena:
      Agradeço seu comentário, e a visita ao nosso blog, espero que encontre, conosco um pouquinho de alento para esse coração de mãe tão sofrido com a ausência de sua filha querida a Jessica, estamos totalmente a sua disposição, não sei aonde vc mora, estou rezando por vc e sua família, para que possam aceitar essa falta, e pensando que hoje ela é um anjo de Luz, e que temos que viver somente o dia de hoje e acreditar e ter a esperança do nosso reencontro..Se quiser pode mandar o teu e-mail que vamos conversar okk..
      Muita LUZ e procure ajuda com outras mães, ai em sua cidade, vcs precisam falar da sua história, o luto compartilhado é amenizado.. com carinho!!!!

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