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sexta-feira, 26 de junho de 2015

Cuidar do luto e das perdas



Pertencem, inexoravelmente, à condição humana, as perdas e o luto. Todos somos submetidos à férrea lei da entropia: tudo vai lentamente se desgastando; o corpo enfraquece, os anos deixam marcas, as doenças vão nos tirando irrefreavelmente nosso capital vital. Essa é a lei da vida que inclui a morte.
Mas há também rupturas que quebram esse fluir natural. São as perdas que significam eventos traumáticos como a traição do amigo, a perda do emprego, a perda da pessoa amada pelo divórcio ou pela morte repentina. Surge a tragédia, também parte da vida.

Representa grande desafio pessoal trabalhar as perdas e alimentar a resiliência, vale dizer, o aprendizado com os choques existenciais e com as crises. Especialmente dolorosa é a vivência do luto, pois mostra todo o peso do Negativo. O luto, possui uma exigência intrínseca: ele cobra ser sofrido, atravessado e, por fim, superado positivamente.
Há muitos estudos especializados sobre o luto. Segundo o famoso casal alemão Kübler-Ross há vários passos de sua vivência e superação.

O primeiro é a recusa: face ao fato paralisante, a pessoa, naturalmente, exclama:”não pode ser”; “ é mentira”. Irrompe o choro desconsolado que palavra nenhuma pode sustar.
O segundo passo é a raiva que se expressa:“por que exatamente comigo? Não é justo o que ocorreu”. É o momento em que a pessoa percebe os limites incontroláveis da vida e reluta em reconhecê-los. Não raro, ela se culpa pela perda, por não ter feito o que devia ou deixado de fazer.

O terceiro passo se caracteriza pela depressão e pelo vazio existencial. Fechamo-nos em nosso próprio casulo e nos apiedamos de nós mesmos. Resistimos a nos refazer. Aqui todo abraço caloroso e toda palavra de consolação, mesmo soando convencional, ganha um sentido insuspeitado. É o anseio da alma de ouvir que há sentido e que as estrelas-guias apenas se obscureceram e não desapareceram.
O quarto é o autofortalecimento mediante uma espécie de negociação com a dor da perda: “não posso sucumbir nem afundar totalmente; preciso aguentar esta dilaceração, garantir meu trabalho e cuidar de minha família”. Um ponto de luz se anuncia no meio da noite escura.

O quinto se apresenta como uma aceitação resignada e serena do fato incontornável. Acabamos por incorporar na trajetória de nossa existência essa ferida que deixa cicatrizes. Ninguém sai do luto como entrou. A pessoa amadurece forçosamente e se dá conta de que toda perda não precisa ser total; ela traz sempre algum ganho existencial.
O luto significa uma travessia dolorosa. Por isso precisa ser cuidado.
...
Leonardo Boff

2 comentários:

  1. Hoje cheguei no meu trabalho com o coração daquele jeito... 1 ano após a partida da Jessica-...cada vez mais sentindo que preciso cuidar do meu luto da minha grande perda, exatamento nesses passos citados no artigo que acabei de ler, vejo que ainda a ordem que deveria seguir ainda se misturam dentro de mim, todo aquele sentimento de ainda achar que eu deveria ter feito tanta coisa, me escondendo em mim mesma com o vazio que grita no peito que parece não ter fim, mas eu sei que eu tenho que viver isso, por mais doloroso que seja, eu tenho que cuidar da minha saudade, e aí as
    lágrimas parecem ser o remédio provisório para o determinado momento do dia. Abraços.

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    1. Oi Madalena ,infelizmente temos que viver esse momento e passar por essas fazes do luto.
      Aonde vc mora não existe grupo de apoio?seria muito bom se pudesse compartilhar o teu luto como outras pessoas que estão vivenciando a mesma dor.
      Estarei ao seu dispor se puder conversar, obrigada pela tua visita e teu comentário,eus te cubra de bênçãos?.

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