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sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Depoimento sobre luto compartilhado


 
Letícia Murta, jornalista
 
Sempre fui muito ativa nas redes sociais e compartilhei muito de minha vida pessoal, incluindo a minha gravidez. Quando meu filho morreu, um dia antes da data prevista para seu parto, foi automático que eu continuasse usando os canais para expressar minha dor. Chorei virtualmente, numa tentativa desesperada de tapar o buraco que havia sido aberto. Isso permitiu que muitas pessoas me procurassem para prestar solidariedade. 
 
Eu recebia mensagens de gente que nunca tinha ouvido falar de mim, mas que viu o amigo compartilhando um status meu na rede e queriam passar sua palavra e, muitas vezes, sua experiência diante da dor da morte. Foram pessoas que não conheço e que me ajudaram, de certa forma, pois me indicaram caminhos para descobrir sobre a doença que ocasionou a morte do meu filho, a trombofilia, e a ter esperança de um tratamento que me permitisse gestar um filho de forma saudável. 
 
Acabei participando de vários grupos de mulheres que também tinham vivido esta tristeza e encontrei pessoas com dores semelhantes. Fiz amizades, aprendi a consolar e a ser consolada. Serviu para que eu não me sentisse tão sozinha no sentimento, porque quando passamos por algo tão triste e tão trágico, ninguém que não tenha uma vivência semelhante pode compreender a dimensão daquilo. É como se ali dentro desses grupos eu aprendesse um dialeto para me comunicar e ser compreendida. Claro que mesmo com dores semelhantes, cada um vivencia de uma maneira única. Mas esta união, esta noção de que você não é a única a passar por isso foi, e tem sido, muito importante para mim.
 
O outro lado das redes sociais é que, com esse meu compartilhamento da dor eu perdi muitos “amigos”. Fui excluída da rede social de pessoas que estavam acostumadas com minha vida normal. A tristeza não tem muito espaço. Outros amigos não me retiraram de suas redes, mas se afastaram. Acho que o sofrimento não cabe muito bem nas seleções dos feeds do que cada um quer ver. Considero isso uma experiência dolorosa, porque é neste momento que você quer que as pessoas estejam ao seu lado. É aí que você precisa de “muita gente” te ajudando a não cair, apoiando mesmo. E isso não acontece porque você se torna uma presença que destoa dos sorrisos felizes e das vidas perfeitas. As pessoas preferem não ter que lidar com o sofrimento do outro. 

 Fonte: jornal O tempo

3 comentários:

  1. Olá meus amigos solidários na dor do luto, como já mencionei aqui pra vocês, eu nunca imaginei em visitar blogs que compartilhassem essa dor, até o momento que eu tive que passar por ela. Já faz 1 ano e 7 meses que minha vida se modificou de tal forma, que mudou completamente meu perfil. E é justamente aquilo que a jornalista desse artigo disse.,você as vezes se destoa dos sorrisos felizes de pessoas que as vezes preferem não ter contato com o sofrimento alheio., tenho minha página no facebook, e é lá que eu encontro uma forma de extravasar minha saudade e homenagear minha filha Jessica. E lá eu encontro do meus amigos verdadeiros sempre uma palavra de carinho. Esse espaço é muito importante pra mim. Abraço grande.

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  2. Obrigada querida, por compartilhar conosco,sempre com um comentário que nos ajuda muito,
    Eu tb estou por um processo de luto de meu companheiro que vai fazer três meses no dia 27, realmente a gente se sente em outro planeta hoje mesmo uma pessoa me disse, vc tem que viver sua vida, esquecer ele, me magoou tanto, como posso esquecer uma pessoa maravilhosa que vivíamos muito felizes e era só alegria e felicidades, dói muito a falta de consideração, conosco que estamos vivendo essa dor tão profunda... Obrigada...

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  3. Depois que tive a segunda perda de um irmão, agora do Nonato, "meu maninho", fato ocorrido no dia 05 de setembro último, os dias se tornaram infindáveis, principalmente o sábado e o domingo. Gente, eu não sei como se consegue seguir a vida depois de perdas de pessoas queridas. Já perdi também meu pai e minha mãe. Chorei muito por todos, inclusive pelo primeiro irmão, Rui, falecido há mais de 20 anos. E trabalho mal o luto. E o pior é a naturalidade com que as pessoas encaram o luto dos outros, sempre minimizado ao ponto de fazer parecer que há uma reação exagerada no sofrimento de quem sente mais de perto a perda. Sinto-me sozinha porque, depois de apenas 3 meses, todos os outros familiares já se conformaram (aparentam isso), e a falta se acomodou. Mas eu, que estive muito envolvida no rápido processo da doença dele, cada dia que passa fico mais ressentida. Confesso que não tive coragem de falar da minha dor e do que penso sobre a morte a partir da morte do meu mano no face porque sinto que ninguém dará a mínima. Mas, por mais que eu tente ver a situação como inevitável, não consigo me consolar. E penso que o consolo rápido só se justifica quando a pessoa que partiu não tinha a menor importância. E quando tento compartilhar meu drama com as pessoas mais próximas vejo tanta indiferença que recolho meu choro. Hoje me dispus a procurar quem me ouvisse. E isso só é possível junto a quem passa por dor igual. Obrigada pelo espaço aberto. Não estou conseguindo segurar a onda sozinha, mesmo rezando muito e pedindo a ajuda de Deus, em quem confio e acredito que cuide dos que chamou e dos que ficaram. Um grande abraço e que entremos todos o consolo para o luto que nos atingiu.

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