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quarta-feira, 31 de agosto de 2011

A ARTE DE SER AVÓ

No último dia do mês dos Avós, não podíamos deixar de lembrar e homenagear uma avó e seus netos muito especiais...
Marina abraçando André e Thaís

Saulo

Vó Zelinda e os netos Thaís e Saulo



Netos são como heranças: você os ganha sem merecer. Sem ter feito nada para isso, de repente lhe caem do céu. É, como dizem os ingleses, um ato de Deus. Sem se passarem as penas do amor, sem os compromissos do matrimônio, sem as dores da maternidade. E não se trata de um filho apenas suposto, como o filho adotado: o neto é realmente o sangue do seu sangue, filho de filho, mais filho que o filho mesmo...


Cinquenta anos, cinquenta e cinco... Você sente, obscuramente, nos seus ossos, que o tempo passou mais depressa do que esperava. Não lhe incomoda envelhecer, é claro. A velhice tem as suas alegrias, as suas compensações — todos dizem isto embora você pessoalmente, ainda não as tenha descoberto — mas acredita.
Todavia, também obscuramente, também sentida nos seus ossos, às vezes lhe dá aquela nostalgia da mocidade. Não de amores nem de paixões: a doçura da meia-idade não lhe exige essas efervescências. A saudade é de alguma coisa que você tinha e lhe fugiu sutilmente junto com a mocidade. Bracinhos de criança no seu pescoço. Choro de criança. 

O tumulto da presença infantil ao seu redor. Meus Deus, para onde foram as suas crianças? Naqueles adultos que hoje são seus filhos, que têm sogro e sogra, cônjuge, emprego, apartamento a prestações, você não encontra de modo nenhum as suas crianças perdidas. São homens e mulheres - não são mais aquelas crianças que você recorda.
E então um belo dia, sem que lhe fosse imposta nenhuma das agonias da gestação ou do parto, o doutor lhe põe nos braços um menino. Completamente grátis — aquela criancinha da sua raça, da qual você morria de saudades, símbolo ou penhor da mocidade perdida. Pois aquela criancinha, longe de ser um estranho, é um menino que lhe é "devolvido". E o espantoso é que todos lhe reconhecem o seu direito de o amar com extravagância; ao contrário causaria escândalo e decepção se você não o acolhesse imediatamente com todo aquele amor recalcado que há anos se acumulava, desdenhado, no seu coração.

Sim, tenho certeza que a vida nos dá os netos para nos compensar de todas as mutilações trazidas pela velhice. São amores novos, profundos e felizes que vêm ocupar aquele lugar vazio, nostálgico, deixado pelos arroubos juvenis. Aliás, desconfio muito de que os netos são melhores que namorados, pois que as violências da mocidade produzem mais lágrimas do que enlevos.

No entanto — no entanto! — nem tudo são flores no caminho da avó. Há, acima de tudo, a rival: a mãe. Não importa que ela seja sua filha. Não deixa por isso de ser mãe do seu neto. Não importa que ela ensine o menino a lhe dar beijos e a lhe chamar de "vovozinha", e lhe conte que de noite, às vezes, ele de repente acorda e pergunta por você. São lisonjas, nada mais.

Rigorosamente, nas suas posições respectivas, a mãe e a avó representam, em relação ao neto, papéis muito semelhantes ao da esposa e da amante dos triângulos conjugais.

A mãe tem todas as vantagens da domesticidade e da presença constante. Dorme com ele, dá-lhe de comer, dá-lhe banho, veste-o. Embala-o de noite. Contra si tem a fadiga da rotina, a obrigação de educar e o ônus de castigar.

Já a avô, não tem direitos legais, mas oferece a sedução do romance e do imprevisto.
Mora em outra casa. Traz presentes. Faz coisas não programadas. Leva a passear, "não ralha nunca". Deixa lambuzar de pirulitos. Não tem a menor pretensão pedagógica. É a confidente das horas de ressentimento, o último recurso nos momentos de opressão, a secreta aliada nas crises de rebeldia.

Uma noite passada em sua casa é uma deliciosa fuga à rotina, tem todos os encantos de uma aventura. Lá não há linha divisória entre o proibido e o permitido. Dormir sem lavar as mãos, recusar a sopa e comer croquetes, tomar café — café! — mexer no armário da louça, fazer trem com as cadeiras da sala, destruir revistas, derramar a água do gato, acender e apagar a luz elétrica mil vezes se quiser e até fingir que está discando o telefone.

Riscar a parede com o lápis dizendo que foi sem querer — e ser acreditado! Fazer má-criação aos gritos e, em vez de apanhar, ir para os braços da avó e de lá escutar os debates sobre os perigos e os erros da educação moderna.

Sabe-se que, no reino dos céus, o cristão desfruta os mais requintados prazeres da alma. Porém esses prazeres não estarão muito acima da alegria de sair de mãos dadas com o seu neto, numa manhã de sol. E olhe que aqui embaixo você ainda tem o direito de sentir orgulho, que aos bem-aventurados será defeso. Meu Deus, o olhar das outras avós, com os seus filhotes magricelas ou obesos, a morrerem de inveja do seu maravilhoso neto.

E quando você vai embalar o menino e ele, tonto de sono, abre um olho, lhe reconhece, sorri e diz: "Vó!", seu coração estala de felicidade, como pão ao forno.

E o misterioso entendimento que há entre avó e neto, na hora em que a mãe o castiga, e ele olha para você, sabendo que, se você não ousa intervir abertamente, pelo menos lhe dá sua incondicional cumplicidade e apoio... Além é claro das compensações....

Até as coisas negativas se viram em alegrias quando se intrometem entre avó e neto: o bibelô de estimação que se quebrou porque o menininho — involuntariamente! — bateu com a bola nele. Está quebrado e remendado, mas enriquecido com preciosas recordações: os cacos na mãozinha, os olhos arregalados, o beiço pronto para o choro; e depois, o sorriso malandro e aliviado porque "ninguém" se zangou, o culpado foi a bola mesma, não foi, Vó?

Era um simples boneco que custou caro. Hoje é relíquia: não tem dinheiro que pague.

Texto de Raquel de Queiroz

9 comentários:

  1. Que lindo Zelinda! Não sou avó ainda, mas espero que Deus na Sua infinita misericórdia me conceda essa Graça...Zelinda, minha doce amiga, parabenizo os seus netos pela linda avó que eles tem! Um beijo em seu coração solidário e cheio de amor para com todos.

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  2. Parabéns à minha mãe e à Zelinda, avós maravilhosas...com seus netos no céu e na terra...
    Raquel de Queiróz tem uma escrita iluminada mesmo...ela perdeu a única filhinha ainda bem criança, nunca mais foi mãe, mas criou a irmãzinha caçula com todo o amor que tinha de mãe. Os netos que ela sentiu como dela, na verdade eram os filhos da irmã...o AMOR é tudo.

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  3. Eu sinto muita dor porque imagino que lindos e amados seriam meus netos...e ainda acredito que as mães que ainda tem ao menos um filho ou filha dos seus amados que partiram tem uma eternidade deles ainda...a minha viveu muito pouco, estava com planos para seus quinze aninhos próximos, e não teve tempo nem de deixar um netinho para mim...minha filhinha...eu ia cuidar com tanto carinho do meu ou minha neta, com o mesmo amor que dediquei a você! Mas a vida, o tempo, passou por mim e me atropelou, me destruiu. Não te deixou ter teus filhos. Seria a continuação tua aqui. E eu fiquei sem você, sem um pedaço de você para sorrir para mim, fiquei perdida no vazio, na dor e no escuro. Você já era minha mocinha cheia de vida e planos e idéias...a faculdade, o futuro...e de respente tudo foi destruído para mim. Estou muito triste, é um desabafo e não há o que possa ser dito nem se um santo descer à terra que reverta o que disse aqui. Obrigada pela chance de desabafar.

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  4. Dna Zelinda!
    Vó como a senhora, não é para qualquer um. Que bom que a senhora foi avó do seu netinho que está no céu. Ele ao lado do Autor da Vida deve estar muito "orgulhoso" da avó que lhe foi presenteado. A senhora foi alguém que aprendeu que a dor é fonte de vida. E que não achou justo aprender com o sofrimento e guardar para si apenas, teve que ensinar os outros, que tem seus amores no céu, o que se aprender com a dor da distância física.
    Fico feliz e grata porque Deus permitiu que há 2 anos atrás eu a assistisse em um programa da rede católica, naquele momento entendi que minha missão era igual a sua. Ali nasceu o meu primeiro contato com a senhora e vi a sabedoria dada por Deus. Então, aprendi que temos que ajudar as pessoas a terem esperança até mesmo quando se vê partir alguém que se ama. Somos lâmpadas acesas na solidariedade e no amor, essa foi a lição que aprendi na semana passada, quando recorri a senhora por causa da mãe da Juju.
    Mesmo não sendo avó e nem mãe, compreendi a dor do luto, quando vi o meu avô perder uma filha e fiquei ao lado dele mostrando que só a esperança poderia transformar o sofrimento em missão. Por isso participo hoje do grupo de reflexão filhos no céu, em São José dos Campos - SP.
    Na esperança nasceu um coração diferente em mim, da senhora, Dna Zelinda, nasceu a força para abrigar nesse meu coração quem precisa de amor no momento da dor.
    Sofrimento é ministério não é Dna Zelinda? E temos que fazer desse sofrimento alquimia para esperança. Saudade é só para quem ama.

    Eliete Gomes - São José dos Campos

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  5. Como é lindo o amor das avós...eu sinto na pele porque tenho uma avó muito especial. Mas como dói saber que não serei também avó! Ficava imaginando como seria se um dia tivesse netos...aquela casa cheia, num dia de domingo, e meu filho lá com sua esposa e seus filhinhos...toda aquela alegria que hoje sei que jamais terei.
    Beijos, Zelinda, e parabéns pela avó maravilhosa que és!
    PS: Patrícia te entendo perfeitamente, tem horas que o peito fica de tal forma oprimido que não temos alternativa a não ser colocar para fora o que sentimos, ainda bem que podemos escrever tudo aqui através dos blogs, que sempre tem quem nos ouça com paciência e compreensão. Fique à vontade também para desabafar também em meu blog.
    Beijos e fique com Deus

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  6. Simplesmente MARAVILHOSO!!!!VERDADEIRO!!!
    Não tem se quer um parágrafo sem razão...Só podia mesmo ser texto da VÓ Raquel de Queiroz.Magnífico e ZeLinda tem cara de ser avó desse jeito...aliás avó de verdade é aquela que é "um mal necessário" hehehe
    Amigos ASDL/PR estarei saboreando a delícia de ser avó daqui há 7 meses e meio com vocês que já são....estamos todos grávidos na minha casa,minha filha mais velha está grávida!
    ZeLinda Parabéns por ser essa avó tão sublime e parabéns para todas as avós que leem este texto e se enquadram.Fiquem na Paz!

    Márcia Torres ASDL/RJ

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  7. D. ZElinda,
    eu agradeço profundamente a vida por ter encontrado a senhora e ter podido comprovar toda a diferença que a senhora fez na minha vida e de muitas outras pessoas. TEr como exemplo, alguém que soube transformar a ausência de alguém tão especial em amor e solidariedade... Que esquece a própria dor em prol do outro.
    Com certeza o mundo é um lugar melhor por causa de sua existência.
    eu te amo muito

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  8. Rosemary F. Gonçalves1 de setembro de 2011 23:14

    Que linda mensagem Zelinda!!!
    "Realmente existem pessoas que conseguem nos conquistar e ocupam um lugar especial em nossa história. Essas, se eternizam em nossa memória e em nossos corações."
    Parabéns, que Deus abençoe à você e aos seus !
    Abraços com carinho.Rosemary

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  9. Aline, eu também me sinto roubada por não ser avó um dia no futuro...fico triste. Também tenho uma vó maravilhosa e sei o que isso significa. Também tinha os mesmos pensamentos: Carol, o marido e meus netinhos. Nossa, nós mães somos mesmo iguais.
    Beijos amiga, e obrigada,meu blog está a sua disposição. Fica com Deus.

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