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quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Quando um filho morre antes dos pai

Senhor, há uma velha história que meu pai me contou.
Um velho perdeu o seu único filho, e seus amigos vieram procurá-lo e disseram-lhe: Por que choras? Nada te pode devolver teu filho.
E o velho disse: É por isso que eu choro.

A perda de um filho ou de uma filha é considerada por muitos como a dor mais profunda e devastadora que uma pessoa pode sofrer na vida. Realmente, o luto pela morte de um filho costuma ser de uma intensidade muito grande e geralmente possui um tempo diferenciado, tempo esse alongado em função das características específicas desse tipo de perda.
É comum pensar e desejar que a morte siga uma seqüência cronológica: primeiro morrem os pais, depois, os filhos. Por isso, quando essa seqüência se quebra, independente da idade do filho morto, os pais sofrem muito, pois para o ser humano, o filho é a continuação de sua própria existência e quando um filho morre, sonhos e projetos dos pais vão embora com ele. Múltiplas perdas estão envolvidas nesse processo e é por isso também que essa perda é geralmente tida como mais complicada do que as outras.
Em algumas situações, a partida de um filho pode desestruturar toda a dinâmica familiar, ocasionando separação dos pais e problemas de relacionamento com os demais filhos. Conforme nos apontam alguns estudiosos do luto, normalmente, os pais não respeitam a maneira de pesar um do outro e às vezes a distância do assunto “filho que morreu” com a intenção de poupar o companheiro, é o que pode ocasionar separações. Em relação aos filhos que ficaram, acontece em alguns casos, comparações freqüentes e idealização com o filho que partiu, o que pode trazer mais complicações para a família já que o irmão também está sofrendo por essa perda.
Alguns comportamentos em pais enlutados são também considerados como naturais ao vivenciar esse tipo de luto tais como a idealização do filho morto, encontrar defeitos nos filhos vivos de outras pessoas e/ou de seus próprios filhos sobreviventes. Há ainda a existência de sentimentos de culpa, sensação de impotência, fracasso, incapacidade e a crença muitas vezes de que os cuidados com o filho que se foi não foram suficientes e que não se conseguiu protegê-lo como deveria.
Certamente, quando um filho morre há toda uma transformação individual e familiar que trará diferenças significativas no porvir da vida. Conseguir dar continuidade e um novo sentido à (esta nova) vida exige, por parte dos pais que ficam um investimento pessoal muito grande e isso requer apoio, compreensão, respeito e cuidado para com cada pai e mãe enlutados. Dessa forma, é possível que haja a reorganização de sentimentos, valores e crenças, e, aos poucos, cada um vá encontrando sua forma singular de vivenciar esse tão difícil e doloroso luto até chegar um tempo em que a dor intensa se vá e permaneça a saudade, fiquem as lembranças dos bons momentos e a alegria de ter sido mãe/pai de um filho muito amado e querido.
Ana Elisa F. de Castro é psicóloga e atende pessoas enlutadas no Cemitério Morada da Paz.

texto extraído da pagina da ANANEC e lido no blog de Rebeca Coimbra

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